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“Sensação e Pressentimento” Bug Sociedade



Muitos me olham e invejam – “Ela é livre!” Mas até para ser livre, existem muitos pontos de vista.


Eu balanço os dedos e estico as costas porque elas me doem. Sorrindo pra dentro de mim, sei que fui abandonada muitas vezes e me senti só outras mil, até me sentir livre. Liberdade é uma descoberta e um estado interno. Você pressente o abandono porque o vê nos olhos dos outros – que à princípio prometem e sorriem (engraçado como todas as promessas são sorridentes); mas se notam credulidade e confiança – principalmente às que trazemos do coração infantil – aí são rastejantes e implacáveis.


Bem nova ouvia de minha mãe que não havia amigos e que eu vivia me iludindo com isso. Amei e continuo amando – minha ilha, minha sólida ilha, que chora ao olhar o mar...


Hoje, olho ao redor – que vida árida estamos vivendo... Entre presidentes, reis e plebeus, as redes sociais criaram monstros egoístas, tiranos que querem tudo pra si entre sorrisos e que depois, gélidos, fogem do nosso olhar.


Por isso, ao ouvir: “Quer ser parte de uma família? – sorrio e lembro de minha mãe. Meu conselho a mim mesma, repito em bom som: O que tiverem a fazer, façam apenas porque querem fazer. Esqueçam a ideia de obrigação familiar e fixem em vocês mesmos o desejo real de ajudar ou não ajudar.


Sou talvez um bom ser humano, cada vez mais antissocial, com o COVID para me justificar ao analisar o mundo...


Quem se dizia bom - eu vi – não estava disposto a ser bom. Quando muito, socialmente apresentável, ali onde “passa o bispo”.


Amargura? Mas, o realismo é amargo ou ser realista é apenas isso? É ver a situação?


Muitas vezes então, sofro porque quem eu amo ainda está sofrendo, porque tivemos que ver a pirâmide das hipocrisias desmoronando bem na nossa frente e apenas nos protegemos da agressividade dos silêncios e indiferenças.


Lacunas e lacunas... Cria-se então a estética dos espaços vazios.


Num momento onde nem sabemos mais quem pode ou não morrer – qualquer um pode morrer, com qualquer idade – resta levantar os olhos, sentir o vento e nos sentirmos livres. Naquele momento, daquela vez, mais uma vez. A que preço... Livres.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Medo. Todos os dias perdas. Todos os dias dificuldades. Todos os dias menos: convívio, trabalho, comida, saúde, oportunidades. Todos os dias a tentativa. Outra tentativa. E outra. Como sobreviver de outras formas porque o que fazia já não funciona? Mas já não podem ser formas de sobreviver por duas semanas ou alguns meses. Precisam ser formas de sobreviver estáveis e duradouras porque tudo mudou. Tudo piorou. Ou tudo ficou na mesma e apenas agora é mais visível?


Meu trabalho é estável? Sou do grupo de risco? O que é ser frágil na atualidade? Perdi meu trabalho? O que sei fazer? Como posso ganhar dinheiro com algo que sei fazer? Vendendo água no sinal? Fazendo comida e vendendo marmita – a conhecida “quentinha” da Bahia? Sei dirigir, posso trabalhar como UBER. Pera aí, posso trabalhar de dia como Uber e de noite cozinhar. Melhorou. Preciso de Instagram e WhatsApp, no mínimo e de os “alimentar” diariamente se quero “existir”. Sem isso, meu negócio não existe. Eu não existo. Fazer umas lives? Uns vídeos para o Youtube? Toda a gente faz, quem sabe eu levo jeito. Luta, esforço, tentativa. Mergulho em tudo e em nada. Para onde vão todos? Deve ser por ali. Fazer projetos, candidatar a editais. Precisas conhecer muito bem as “regras”. Que temas são os mais desejados hoje em dia? Que temas têm mais apoios? Projetos de Luta contra o Racismo? “Voluntariado” para ajudar refugiados? Projetos para promover Igualdade de gênero? Projetos de luta contra a Violência Familiar? Contra o Feminicidio? De combate à Iliteracia? Areias movediças. Muito movediças. As grandes causas e os graves problemas mundiais são procurados por todos, mesmo que essa causa nada lhes diga. Lhe diz muito o apoio, as grandes quantias de dinheiro que rolam, que circulam. O caminho é a sobrevivência, o caminho é ter dinheiro para comer, para viver, para pagar as contas. Não mais é prioridade a causa, a luta de uma vida pelo que se acredita e pelo que se deseja mudar. Areias movediças. Muito movediças. É época de dedicação a projetos sobre os Oceanos. Antes de ser a época do lixo, dos plásticos. Antes de ser a da mobilidade urbana. Antes de ser a do civismo e do respeito. Antes de ser, antes de ser, antes de ser. Quem somos? Pessoas que lutam pelo que dá mais dinheiro? Pelas causas da moda? Areias movediças.


Curioso pensar nos milhões, triliões/trilhões e ões e ões de dólares que já se investiram no mundo e o problema humanitário com refugiados nunca tem fim, o racismo tenta crescer, a homofobia chega a mostrar o pensamento medieval dos seres humanos, o lixo e a poluição sempre a piorar. E nem falemos na violência familiar, feminicidio, trabalho escravo, aporofobia. Se fosse um problema matemático penso que a professora diria que as contas estavam erradas e nos enviava para a carteira fazer de novo e de novo até acertar...antes de “receber” o prêmio ou a classificação, ou a aprendizagem estar concluída.


Mas o mundo gasta e faz de conta que tenta e faz de conta que fica melhor. E faz de conta que é livre e faz de conta que é feliz e faz de conta que está tudo bem.


O primeiro passo para mudar alguma coisa é aceitar que algo não está bem. Já vamos no século XXI e só vejo areias movediças...

Ana Santos, professora, jornalista

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