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Que remédio, senão rimar?


A vida do COVID é de amargar. O amor pelas pessoas sai só pelo olhar e mesmo assim quando as pessoas sabem amar. O mundo ta de chorar. Juízo só se comprar porque todo mundo esquece a doença e só quer passear. Máscara daria pra usar, mas tem gente escolhendo fazer festa ao invés de se cuidar. São João no COVID é assim. Mas tem milho e amendoim, porque nem tudo é tão mau assim!

1. Poesia indicada pelo Bug Latino

“Ai se sesse”

“Se um dia nós se gostasse

Se um dia nós se queresse

Se nos dois se empareasse

Se juntin nós dois vivesse

Se juntin nós dois morasse

Se juntin nós dois durmisse

Se juntin nós dois morresse

Se pro céu nos assubisse

Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice

E se eu me arriminasse

E tu com eu insistisse pra que eu me aresolvesse

E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse

Talvez que nos dois ficasse

Talvez que nos dois caísse

E o céu furado arriasse e as virgem todas fugisse”

Zé da Luz

Poema de Cordel Nordestino


Link do Cordel Encantado declamando num show este lindo poema

https://www.youtube.com/watch?v=8NBauvFV6bo&t=9s


2. Poesia indicada por Maria Lúcia Levert

“Natureza”

“Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,

Vejo os campos, os campos todos,

E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,

Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —

Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.

Vivam, vivam, vivam

Os montes, e a planície, e as ervas!

Vivam os rios, vivam as fontes!

Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!

Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,

Os bichos que correm, insectos e aves,

Os animais todos, tão reais sem mim,

Os homens, as mulheres, as crianças,

As famílias, e as não-famílias, igualmente!

Tudo quanto sente sem saber porquê!

Tudo quanto vive sem pensar que vive!

Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,

Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,

Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,

E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.

Ah, estou liberto!

Ah, quebrei todas

As algemas do pensamento.

Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,

Eu o próprio abismo que sonhei,

Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra

E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!

Ah, estou liberto...

Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte

E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,

Verdadeiramente com meus olhos,

Verdadeiramente verdadeiros...

Ah vi que não há muitos abismos!

(...)

Não há abismos!

Nada é sinistro!

Não há mistério verdadeiro!

Não há mistério ou verdade!

Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!

Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!

Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!

Alegre cantaste a alegria de tudo,

Mas sem pensá-lo tu sentias

Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.

Como cantaras alegre a morte futura

Se a puderas pensar como morte,

Se deveras sentiras a noite e o acabamento?

Não, não: tu sabias

Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,

Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo

Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,

Que cada momento não passa nunca,

Que a flor colhida fica sempre na haste,

Que o beijo dado é eterno,

Que na essência e universo das coisas

Tudo é alegria e sol

E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.

Embandeira em canto e rosas!

E da estação de província, do apeadeiro campestre,

— Lá vem o comboio!

Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos

Saudemos em ouro e flores a morte que chega!

Não, não enganas!

Avó carinhosa de terra já grávida!

Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!

E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...

E com grande explosão de todas as minhas esperanças

Meu coração universo

Inclui a ouro todos os sóis,

Borda-se a prata todas as estrelas,

Entumesce-se em flores e verduras,

E a morte que chega conclui que a já conhecem

E no seu rosto grave desabrocha

O sorriso humano de Deus!”

Álvaro de Campos

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