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“PRINCÍPIOS” BUG SOCIEDADE


“PRINCÍPIOS” BUG SOCIEDADE

Na semana passada eu falei na gravação do Unissex que no conceito de família que tinha, havia pai, mãe, irmão, respeito, solidariedade. Depois, fiquei com aquilo na cabeça porque o que disse não tinha nada a ver com o que as pessoas de hoje poderiam entender. Isso porque minha mãe nos criou sozinha e ela se auto chamava pai e mãe das três filhas. Pra mim, o conceito de pai e mãe independe totalmente até de que existam duas pessoas pra assumirem esse papel – e acho que no Brasil isso é uma coisa muito comum porque a quantidade de mães solos é enorme e por inúmeros motivos diferentes.

O Brasil tem umas coisas incompreensíveis. Isso que a minha mãe dizia normalmente e que era um fato pra nós, virou alguma coisa espiritual tipo “Deus Pai e Mãe” – mas quando eu digo um princípio da minha vida – que é ver pai e mãe em qualquer corpo que tenha essa energia paterna e materna – fico em dúvida sobre o que os outros podem entender – ou mesmo se vão querer entender.

Isso me leva ao assunto do Bug Sociedade de hoje, que é princípios. Esse conceito evoluiu para valor, mas na verdade gosto dele como princípio. O princípio é o ground zero, a base, o lugar de onde vai partir o resto. E honestidade, transparência, ética, empatia, vergonha, entre tantas outras coisas, são isso: o lugar de onde vão partir todas as outras coisas. Assim, ver vários homens com “cara de comeu e não gostou”, apontando uma placa de uso comum do banheiro de um shopping baiano como “um atentado à família” é ridículo. Ah, senhores da moral, dos bons costumes: na prática vocês não sabem nada de mulher! Porque, se qualquer mulher que lê o Bug sociedade tivesse que escolher entre ter um tarado se roçando atrás de si na condução, ser estuprada, receber aquelas cantadas bizarras e grosseiras de homens heteronormativos ou dividir o espaço do banheiro com o gênero feminino com mulheres trans, o quê vocês acham que iria afetar a família feminina? O que vocês acham que todas – 100%, garanto – iriam escolher? Esse papo é heteronormativamente ridículo, portanto. Ou, como dizia minha mãe-pai pai-mãe: “uma boa oportunidade de se ficar calado perdida, na sua vida”.

Posto isso, quando meu ex chefe, me mandou um card, agora mesmo, que termina chamando a atacada da vez de “Maconhela”, fiquei me perguntando: Isso seria ofensa, depois que a medicina ofereceu ao mundo novos conceitos terapêuticos para a maconha? Não sei. Afinal, o repertório de coisas estúpidas não para de me surpreender.

É por causa desse tipo de pensamento “apoplético” que o conceito sobre crescer tendo uma mãe que virava pai e vice-versa 100 mil vezes/dia pode sofrer a interferência de uma interpretação doente – e, embora isso interfira zero no seu gênero, no da sua família e no amor que a gente sente, na prática – precisamos recolocar as falas para “prevenir acidentes” mentais doentios.

O que são princípios, então? O lugar de onde partimos, aquilo que aprendemos desde sempre – um lugar imemorial. Mas o que era o meu lugar, desde sempre? Houve um fato? Pra mim, foi quando ainda bem pequena, um mendigo tocou a campainha lá de casa pedindo um dinheiro e eu fui no meu esconderijo e peguei uma nota de Pedro Alvares Cabral que estava lá guardada e dei pra ele. Sem perguntas. Foi um momento muito importante pra mim. Talvez com uns 3, 4 anos eu tenha sentido que podia interferir e mudar alguma coisa. A nota era muito linda, azul – pelo que me lembro – e ficou mais linda ainda porque ela comprou tudo o que o homem precisava - na minha imaginação.

Mas quando, ao contrário, a gente vê casas de recuperação de drogadictos que ganham milhões em dinheiro do governo federal e que humilham, prendem e pervertem o significado de acolher, de acolhimento – veja, que é outro princípio humano – você sente o quê? Quando você imagina o último minuto de Bruno e Dom e se pergunta se eles foram molestados, torturados, se sofreram mais do que intimamente, por quererem respeito e dignidade no tratamento dos indígenas do Brasil – vejam, que são mais princípios humanos – você sente vergonha, embaraço, constrangimento, além de tristeza. E nessas horas, o que você sente ao ouvir um pregador qualquer tentar ridicularizar um homem gay preso numa clínica de drogadicção ou uma autoridade nacional menosprezar o heroísmo do Dom e do Bruno, dizendo que estavam “se aventurando”, quando eles estavam enfrentando inimigos do Brasil real? Raiva. Horror. Repelência. Nojo. A sensação de ser ultrajada, a percepção de que temos que reagir, rebater, falar, responder. Isso é um outro princípio humano – o da ética e o da empatia. Esses princípios, ao contrário da “pregação ininterrupta” de homens, heteros, radicais, insuportáveis, não têm ideologia. É apenas o seu princípio íntimo, interno – aquilo que faz você respeitar “pai e mãe” – ou no meu caso “pãe”, “mai” ou como “os doutos” quiserem chamar. O que importa é que o princípio é o seu tudo, sua partida, sua forma de encarar o mundo que, honestamente, está difícil de encarar e engolir.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“Valores” Bug Sociedade

Não está fácil. Cada dia a alegria de estar viva mas as preocupações, as necessidades, os problemas, aumentando. Na vida dos famosos, na vida dos amigos, na vida dos familiares, na nossa própria vida. Desgraças “para todos os gostos”, no mundo, no nosso país, na nossa rua, na nossa vida. Todos procuramos lugares, físicos ou não, que nos possam estimular, manter focados no futuro, no que de bom a vida e as pessoas têm. Mas isso está a acontecer cada vez menos ou talvez o “sistema” tente diminuir essas possibilidades de respirarmos, de nos olharmos por dentro, de descobrirmos quem somos, de construirmos um mundo melhor, de construirmos vidas belas, de construirmos um mundo cada vez mais saudável e ameno, em conjunto. Música, poesia, literatura, teatro, bailado, cinema, exposições de arte, a natureza, artes manuais, culinária, conversas construtivas, momentos e lugares de conforto, onde a paz e a tranquilidade são certezas. Todos, são possibilidades de desenvolver nossos valores, de descobrir, desenvolver e apreciar o que de bom tem a vida. São possibilidades de estarmos em equilíbrio com o mundo, a natureza, os outros e nós mesmos. São os terapeutas, os medicamentos, que a vida e o mundo nos dá, gratuitos, mas não os vemos. Estamos envenenando o ar, os alimentos, os lugares onde vivemos, as relações entre as pessoas, os nossos corações. Tentando terminar com matérias tão fundamentais como a ética, a filosofia, tentando diminuir a importância das artes, da cultura, da educação.


Tentando adoecer o mundo para poder ter lucro curando-o? Tentando adoecer o mundo para ser mais fácil manipulá-lo? Inventar notícias para distrair as pessoas dos verdadeiros problemas? Menosprezar as mortes, os abusos, os roubos, a injustiça diária, com movimentações de notícias bizarras nas redes sociais? Cancelar quem tenta manter os melhores valores para todos?


É muito triste assistir a um mundo sem valores de cooperação, de colaboração de compartilhamento. Você faz uma ação boa, metade desconfia de você pensando o que essa pessoa quer com aquilo, outra metade tenta te roubar a ideia ou te explorar. Todos acham você uma abestalhada que não sabe lidar com a vida “dura”. Ser bom, ter bons valores, fazer o bem, está cada vez mais fora “de moda”. Você aprende a desconfiar de coisas boas que acontecem. Você deixa de ajudar porque não sabe se isso lhe vai fazer falta mais tarde na vida e você sabe que não pode contar com ninguém se tiver um problema de saúde, financeiro, etc.


Carmen Guaita, escritora e professora, nos lembra que “os valores são as instruções que devemos seguir para viver, são o modo de viver. Temos de aprender a distinguir entre o que nos serve para viver e o que nos causa dano, ou causa dano aos outros. Robinson Crusoé, só necessitava de valores para viver. Nós necessitamos de muitos mais valores porque necessitamos de conviver. Ferramentas como a cultura e a arte, mas também a tolerância e a generosidade.” Todos sabemos muito bem de tudo isto. Porque deixamos que destruam tudo na nossa frente? Porque não nos movemos? Porque não somos capazes?

Ana Santos, professora, jornalista

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