Poesia é Emoção
- portalbuglatino
- 8 de jul.
- 2 min de leitura

“DlOGO CÃO ÀS PORTAS DO ZAIRE”
“Deste lado da história
o rio morre aqui.
Do mar sabemos nos e aos capitães
a fama da conquista.
Faço-me ao Sul
porque pertenço ao Norte
e a costa se me serve p'ra cumprir
tarefas de abandono.
Meu fim é circular, ir mais além.
Por isso eu sei de estrelas
direções
e nada sei do fruto
que se projecta e espera.
Cumpro tarefas, sim, porque viajo.
Assim nasci
sabendo o que me aguarda após a descoberta.
Fronteiras
só conheço as do meu lar
e sei amá-lo, só,
noutras distâncias.
De Deus, empreendi que mora aqui no mar,
porque sou eu
quem lhe constrói a face.
Ao Rei e a Vós
apenas dou notícia do rumo horizontal.
Pois que sabeis da vertical sagueza?
*
Sei medir hoje, enfim, com muito mais rigor, a força da distância.
Sei decompô-la em tempo, espaço, velocidade e som.
Revendo-te, sereno, é de tal forma denso o teu volume
e natural o teu contorno exacto e fino
que dir-se-ia não haver sequer
um tempo em que me fiz a recordar-te.
Entre os pólos da distância retenho tão-somente a ponte,
quero dizer, a velocidade.
Das viagens não conservo uma noção que exceda um breve
sono, sonho, lapso de altura, vertical perfil.
Vou arriscar uma noção de ausência a elaborar humilde
na hora
do encontro/reencontro.
Imponho a tela crua que teci distante
(e que transporto do país do sono)
a forma testemunho da memória.
A minha percepção faz-se madura.
Retenho a sombra, apenas, do que — revisto ou novo —
adrega preservar a virgindade
e a febre do contorno a sua audácia.
Renovo a nitidez das referências.
A vaga geografia das ausências imponho uma paisagem
reassumida, renovada de ardor e nitidez amável.
Adquiro assim um depurado entendimento do que é posse.
Tenho também que o meu crescer se faz
de cinza acumulada pelos regressos —
uma brancura donde emerge opaca
a medular estrutura da paisagem.
Não nos separa espaço, nem distância ou tempo.
Entre nós dois
apenas o painel da mais recente ausência
aberto para os sinais
do encontro a conquistar.
Não mais do que a distância de um parágrafo.
E a ponte, a velocidade.”
RUY DUARTE DE CARVALHO
Escritor, cineasta e antropólogo angolano
“YORUBA”
(4)
“Três amigos eu tinha.
Pediu-me o primeiro
que dormisse na esteira.
Pediu-me o segundo
que dormisse no chão.
Pediu-me o terceiro
para dormir no seu peito.
Cedi a voz do terceiro
e vi-me transportado a um grande rio.
E do rio eu vi o rei
e o rei do sol.
E vi palmeiras
tão carregadas de fruto
que o peso as vergava
e as palmeiras morriam.”
RUY DUARTE DE CARVALHO
Escritor, cineasta e antropólogo angolano
Imagem: Salvador Dali
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