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Poesia é Emoção

“DlOGO CÃO ÀS PORTAS DO ZAIRE”

 

“Deste lado da história

o rio morre aqui.

Do mar sabemos nos e aos capitães

a fama da conquista.

 

Faço-me ao Sul

porque pertenço ao Norte

e a costa se me serve p'ra cumprir

tarefas de abandono.

 

Meu fim é circular, ir mais além.

Por isso eu sei de estrelas

direções

e nada sei do fruto

que se projecta e espera.

 

Cumpro tarefas, sim, porque viajo.

Assim nasci

sabendo o que me aguarda após a descoberta.

Fronteiras

só conheço as do meu lar

e sei amá-lo, só,

noutras distâncias.

 

De Deus, empreendi que mora aqui no mar,

porque sou eu

quem lhe constrói a face.

 

Ao Rei e a Vós

apenas dou notícia do rumo horizontal.

 

Pois que sabeis da vertical sagueza?

 

*

 

Sei medir hoje, enfim, com muito mais rigor, a força da distância.

Sei decompô-la em tempo, espaço, velocidade e som.

 

Revendo-te, sereno, é de tal forma denso o teu volume

e natural o teu contorno exacto e fino

que dir-se-ia não haver sequer

um tempo em que me fiz a recordar-te.

Entre os pólos da distância retenho tão-somente a ponte,

quero dizer, a velocidade.

Das viagens não conservo uma noção que exceda um breve

sono, sonho, lapso de altura, vertical perfil.

 

Vou arriscar uma noção de ausência a elaborar humilde

na hora

do encontro/reencontro.

Imponho a tela crua que teci distante

(e que transporto do país do sono)

a forma testemunho da memória.

A minha percepção faz-se madura.

 

Retenho a sombra, apenas, do que — revisto ou novo —

adrega preservar a virgindade

e a febre do contorno a sua audácia.

Renovo a nitidez das referências.

 

A vaga geografia das ausências imponho uma paisagem

reassumida, renovada de ardor e nitidez amável.

 

Adquiro assim um depurado entendimento do que é posse.

 

Tenho também que o meu crescer se faz

de cinza acumulada pelos regressos —

 

uma brancura donde emerge opaca

a medular estrutura da paisagem.

 

Não nos separa espaço, nem distância ou tempo.

Entre nós dois

apenas o painel da mais recente ausência

aberto para os sinais

do encontro a conquistar.

Não mais do que a distância de um parágrafo.

 

E a ponte, a velocidade.”

RUY DUARTE DE CARVALHO

Escritor, cineasta e antropólogo angolano

 

 

“YORUBA”

(4)

 

“Três amigos eu tinha.

 

Pediu-me o primeiro

que dormisse na esteira.

Pediu-me o segundo

que dormisse no chão.

Pediu-me o terceiro

para dormir no seu peito.

 

Cedi a voz do terceiro

e vi-me transportado a um grande rio.

 

E do rio eu vi o rei

e o rei do sol.

 

E vi palmeiras

tão carregadas de fruto

que o peso as vergava

e as palmeiras morriam.”

RUY DUARTE DE CARVALHO

Escritor, cineasta e antropólogo angolano


Imagem: Salvador Dali


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