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“O TRAUMA DA CONVIVÊNCIA” e “Lembra daquele esporte? O Futebol? Bug Sociedade


Chris E. Vargas

“O TRAUMA DA CONVIVÊNCIA” Bug Sociedade

As pessoas estão criando um mundo fictício onde, se as nuvens que estiverem passando não forem cor de rosa, tudo está mal – “há um cheiro de golpe, há um cheiro de mentira, há um cheiro de bandidagem, afinal estamos no Brasil”.

Depois de passarmos pela tensão de anteontem e vermos alguma coisa relacionada a um estranho tipo de culto, onde os religiosos “podem berrar descontrolados” citações da Bíblia misturadas com agitação política, Constituição e golpe de Estado ou depois de vermos um estranho comunicador português tartamudeando algo contra a vacinação das crianças do Brasil, claro que você já tem algum tipo de “abertura mental” para aceitar muita coisa estranha, mas o limite do descontrole total é você se fixar nos fatos, na realidade da vida.

Tudo bem, as nuvens no Brasil nunca foram cor de rosa em nenhum momento da nossa história, mas passo a passo falamos sobre nossos problemas cada vez mais. É público que o nosso gênero continua sendo vítima das piores torturas e violências, mas cada vez mais falamos disso, colocamos os homens cara a cara com o que são e fazem e também com o que não fazem porque não aprenderam. Não, ainda não conseguimos diminuir a violência, ao contrário - ela aumenta porque agora estamos falando mais dela e a fazemos mais visível. Não ficou claro ainda, mas armar os homens foi um erro do qual o Brasil vai se arrepender por décadas. Não, não é admissível um coronel ou general ou mesmo o Papa ter 40 armas, munições e granadas guardadas no armário de casa, como se colecionasse cuecas. Essa violência não é normal. Essa forma agressiva de lidar com os problemas não é normal.

Ainda precisamos falar muito da mentira espalhada de que a “polícia tem e pode ou deve chegar matando” – não pode. Chegar com energia, agir com firmeza é bem diferente de chegar com violência extrema, atirando pra todos os lados. As mulheres policiais podem fazer melhor? Talvez. Qual é o problema de dar o comando da tropa para quem sabe contornar problemas falando, negociando, tendo isso como traço cultural, de educação familiar? Esse “prendo e arrebento” são do tempo da ditadura, da escravidão. Mas sendo ou não imemoriais, têm que acabar.

As ofensas, as indiferenças, as invisibilizações, as ofensas cometidas por pessoas contra pessoas: casais, companheiros de trabalho, alunos - são nocivas e incoerentes com o status humano. As mentiras, as desvalorizações, o menosprezo, a falta de critério na hora de escolher as palavras para resolver problemas, as reclamações repetidas e repetitivas em torno de tudo o que apaga o que se consegue de bom a cada dia – tudo isso tem que acabar. Essa é a nossa poluição de falsidade, nosso lixo de convivência que precisamos limpar em nós.

A melhor parte do meu dia hoje foi oferecer meu ombro para “dar carona” ao meu amigo já velhinho, que precisa caminhar, mas sente dificuldades em subir as ladeiras de Salvador.

- Quer carona?

- Oh minha filha, só até começar a descida!

Seria lindo se cada pessoa do mundo visse a beleza de oferecer o ombro - e o oferecer. Ter o ombro disponível. Estar disponível. Não oferecer o ombro para um, aqui e destratar outro, ali. Ter o oferecimento como um estado semiaberto, como uma porta que se não pode ter a chave.

Do contrário, a gente desaprende quem são os golpistas e todos acabam virando suspeitos – o que nos magoa, destroça. A gente ouve os gritos, os berros, a histeria e parece que tudo pode ser aquilo. Mas não pode. Existem “os ombros”.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Lembra daquele esporte? O Futebol?” Bug Sociedade

Se ninguém falar sobre o que não está bem, nada nunca muda. E o que não muda, piora. As pessoas que são favorecidas injustamente com a situação seguem sendo favorecidas e as pessoas prejudicadas, pouco podem fazer.

Será que sabemos a diferença entre a conivência com o que os amigos fazem e ser amigo de verdade? Achar bem uma coisa errada só porque foi feita por um amigo ou familiar? Errado é errado, independentemente da pessoa e do seu relacionamento com ela e exige que não seja cúmplice, que exponha a situação, incentive a corrigir o erro e o responsável peça desculpa a quem fez mal.

O meu amigo estupra, mas eu, como sou amigo dele, não lhe digo nada, não conto a ninguém, não o confronto com o mal que ele faz, não o estimulo a se tratar. Não o faço porque talvez eu seja como ele, ou talvez eu dependa deste amigo financeiramente, ou apenas porque aprendi a achar normal tudo isso e não quero ter o trabalho de assumir o quanto tudo é e está errado. “Quem sou eu para julgar”, “Eu não sabia”, “o que isso importa”, “deixa estar assim”, “tudo isto por causa de uma mulher?”... Ambiente corrosivo e doentio e só piora. Alguns comentários, de pessoas bem importantes do Futebol, são confrangedores. Ou cúmplices. Ou hipócritas.

Futebol. O Futebol era uma modalidade esportiva. Permitia divertimento familiar e humano, era uma atividade saudável, inundada de envolvimento social e até cultural. Talvez no mesmo ritmo em que foi virando um negócio, um dos mais lucrativos do mundo - foi perdendo a pureza e virando um meio de enriquecimento, um meio de muito poder, um meio onde pessoas violentas e doentes encontram espaço para fazerem o que querem, basta aderirem a claques/torcidas. Todos os clubes no mundo têm este problema para controlar – as torcidas organizadas e desorganizadas. Todos os clubes perdem a mão, o controle, o ambiente emocionalmente equilibrado,  através delas. Muitas vezes as próprias direções dos clubes querem pressionar os jogadores e treinadores e utilizam as torcidas para isso. Algo muito errado, e que na maior parte das vezes “o feitiço se volta contra o feiticeiro”.  Mas o clube até pode fazer tudo direitinho, as direções, treinador e jogadores também e, apenas membros violentos da torcida não gostaram de algo ou apenas decidiram ser agressivos e os horrores acontecem. Por exemplo: elemento de uma torcida tem o azar de se cruzar com 3 ou 4 elementos de outra torcida e é agredido até à morte; very light, lançado de uma torcida para outra, durante um jogo, mata uma pessoa (Portugal – passou a ser proibido levar very light para os estádios após esse acontecimento); ônibus de time apedrejado ferindo jogadores com gravidade.

Porque o fazem? Porque perderam? Os jogadores jogaram mal? O adversário venceu e está rindo deles? Já vem cheio de problemas de casa? Podemos fazer uma lista patética e interminável de razões, mas nunca existirá uma razão para se fazer coisas erradas com outras pessoas. Não existe. Isso são tudo desculpas sociais que nem deveriam ser escutadas, para justificar o injustificável. Lembro de novo que é um esporte, não é uma guerra, não é um ajuste de contas.

O mundo adquiriu uma certa padronização futebolística. Quem vence é o melhor. E sai com a camiseta do clube no dia seguinte. Então eu só sou melhor nos dias em que o meu clube vence? No dia seguinte a uma derrota, se quer ter uma briga, basta provocar o vizinho com o resultado. E o mundo se desenrola infantilmente de acordo com os resultados do meu clube. Aí está um dos perigos. Aí começam as retaliações da torcida – meu clube não pode perder nem jogar mal senão vou ser gozado pelos amigos e vizinhos, portanto tenho de pressionar, ameaçar e até agredir para mostrar à sociedade que tenho dignidade – uma dignidade agressiva, injusta, doentia e absurda, afinal. Vejam como esse raciocínio e comportamento se parece com o dos homens que agridem as suas mulheres e filhos. Por outro lado, dizer que um grande atleta sempre consegue o que quer – e que antigamente significava que lutava e enfrentava as adversidades – hoje em dia, parece dizer, que ele vai fazer de tudo para conseguir – legal ou ilegal.

Em casa, nas escolas, nos clubes e escolinhas de Futebol, é preciso ensinar a perder e ensinar a ganhar. O que é permitido para tentar vencer, como proceder depois de vencer, como me comportar quando estou perdendo, como me comportar depois das derrotas. Mas ensinar repetidamente, até à exaustão, até saber de “olhos fechados”, como antigamente aprendíamos a tabuada – de frente para trás, de trás para a frente. Os mídia, precisam ser chamados a colaborar, fazendo campanhas de incentivo aos comportamentos mais adequados, mais saudáveis, mais produtivos a longo prazo. Nunca o contrário. Isto virou uma epidemia e como qualquer epidemia – aprendemos (?) com o Covid-19, precisa da ação de todos.

Talvez a forma de distribuição de prêmios precise ser revista – mesmo com derrota o clube possa ganhar algum dinheiro; clubes com menos cartões amarelos e vermelhos tenham direito a pontos extra, e ou prêmios monetários; clubes, países, sejam cobrados e punidos por mau comportamento das suas torcidas e impedidos de participar em competições; jogadores, devem ter ações sociais obrigatórias com jovens, crianças, em hospitais, em prisões; jogadores, devem aprender desde cedo que suas ações são seguidas por todos os que gostam de si e do clube e país que representam; maus comportamentos recorrentes terem punições financeiras mais altas; após o final da carreira precisam retribuir à sociedade, nem que seja moralmente. Jogadores precisam ser tratados como seres humanos, não como deuses. Jogadores não podem ter comportamentos marginais, torcidas não podem ter comportamentos marginais, o Futebol precisa voltar a ser um esporte.

Infelizmente o ser humano aprende mais rápido quando existem punições para lhes dar limites. Enquanto não se encontra outra forma mais civilizada, punições sejam, mas para todos. Não pode pagar para ter menos punição, não pode ser perdoado por ter um amigo que consegue retirar as acusações.

Um pouco como com as mudanças climáticas, precisamos atuar, não basta mais só falar. Antes que as tragédias sejam cada vez mais monstruosas.

Ana Santos, professora, jornalista

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