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“O Choque da Convivência Social” Bug Sociedade


Durante toda a sua vida, minha mãe disse que as pessoas têm pouquíssimos amigos e que ela queria apenas que nós contássemos umas com as outras – minha casa era uma “mulherada”, já que meu pai morreu muito cedo.


Eu vi razão e motivos para inferir o que ela dizia muitas vezes na minha vida – a pandemia foi uma delas. Me lembrava do significado de receber um telefonema – uma coisa longínqua e distante – o que era receber uma visita. E ok, o mundo tinha dado mais uma daquelas voltas inesperadas. Mas agora, com a lenta volta ao funcionamento da vida “antiga” vou, de rever pessoas muito, muito queridas, a perceber que a pandemia tornou visível um tipo de falante que adotou o monólogo como forma de vida.


A história de que comunicação é troca pode ter dissidentes. Uma pessoa sentir a falta do diálogo, da presença de um interlocutor, pode ser, para alguns, uma ilusão temporal, já que a Covid meio que desbaratou a ideia de que a existência do outro, de um ouvinte, é necessária quando só se precisa falar, falar e falar, sem ouvir nada.


Assim, estive em um encontro que teve 11 elementos distintos, em momentos distintos e ninguém falou com ninguém. Todas as propostas de diálogo foram ignoradas por pessoas diferentes, em momentos diferentes. Durante pelo menos 2 horas (longas e gigantescas), assisti boquiaberta a pessoas que falaram sozinhas de seus feitos e conquistas. Nenhuma proposta de melhoria para ninguém sobre a face da Terra. Eram seus negócios, suas terras, suas conquistas, suas viagens, seus sucessos. E eu acrescentava: Suas amarguras - como se pode “conviver” dessa maneira? Conviver = viver com. Com quem? Quem aguenta aquilo?


No fim da manhã voltamos pra casa e estávamos verdadeiramente exaustas de tanta aridez. Porque até a formação mais rica precisa deter a ideia de troca porque não há nenhum motivo no conhecimento se não pretendemos trocá-lo com as pessoas. Neste episódio, à medida em que ficava claro que todos falavam sozinhos, cada um de nós se excluiu da conversa e escapamos dali na primeira oportunidade. Nem sei se a pessoa que nos recebeu percebeu o distúrbio que havia ali, tão imbuído estava de dizer aqueles maneirismos vazios de sempre: “Ah, é? Que bom! Fale mais sobre isso, apresente sua ideia, etc, etc...


Diante dessa ambiência comunicacional crítica, tenho enorme preocupação com as crianças e adolescentes. Ninguém para falar com elas, lhes dar posições, limites, conselhos? Só ordens simples e pronto? Quem vai falar com elas é o YouTube? O Tinder? Ao que estamos nos reduzindo, afinal? Seria ainda um sintoma da pandemia? Isso é o efeito adverso dela?


Seja o que for – não dá pra ficar assim, de jeito nenhum.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“O Choque da Convivência Social” Bug Sociedade

A convivência social. Sempre em movimento, sempre em construção. Quando todos os presentes têm interesse no mesmo caminho é uma alegria além de nos melhorar por dentro. A conversa não tem fim, os afetos melhoram, avançamos por dentro. Quando algum dos presentes não tem interesse em caminhar com os outros para um lugar que seja construtivo para todos, vira um momento inesquecível mas não pelas melhores razões. Como aqueles momentos quando éramos crianças em que a mãe está fazendo bolinhos de bacalhau, pataniscas ou batatas fritas e todos comendo. Uma pessoas produzindo e as outras apenas comendo. Todas as pessoas tentando conviver e uma pessoa sugando neste caso.


É cada vez mais frequente assistir a momentos assim, onde alguém suga apenas e a convivência não acontece. As pessoas chegam a um local e precisam de mostrar seu valor, o quanto são super. As pessoas mais “valiosas”, mais extraordinárias, não costumam ter espaço para falar. E no final ficam exaustas, esmagadas, destruídas porque estiveram num momento em que alguém suga a energia, a delicadeza, a alegria de estar junto e elas sentem que não caminharam para lado nenhum, apenas desperdiçaram o seu tempo precioso. Um momento de convívio social onde não existe troca não serve para nada. Já não sabemos trocar? Não falo de só uma pessoa falar. Pode até ser só uma pessoa a falar. Quantas vezes isso é também uma troca? Tantas e tantas. A pessoa fala e as outras aprendem, se surpreendem, se unem, o momento faz algo de bom dentro de todas. Não tem a ver com quem fala e quanto tempo fala. Tem mais a ver com a intenção do que se fala. Se é para eu mostrar como sou importante, como sou uma pessoa famosa, valiosa, culta, superior é perder tempo. Talvez o perigo seja essa busca em precisar de ser superior. Não sei superior a quê mas na verdade é perder tempo. É esvaziar as relações e o convívio. Deixa de ser convívio para ser palanque, montra, sei lá mais o quê.


A pandemia veio afastar as pessoas fisicamente. Isso é fato. Mas de nada adianta estarmos perto fisicamente se estamos longe emocionalmente, no carinho, no respeito, na admiração, na construção. Olhares que não se cruzam, que não combinam, sorrisos desencontrados, opiniões desconexas, argumentos poluídos, egos inflados, daí nada sairá de útil, de bom, de bondoso. Então me permitam as conversas pelo Skype ou pelo Whatsapp, com a família toda, uns a falar por cima dos outros, conversas cruzadas, mas uma verdadeira alegria pulsante. Convivência social pura, virtual. Resmas e resmas destes convívios. Dos outros, de palanque, mesmo que físicos, fujo.


A pandemia parece estar dando tréguas, graças à ciência, mas a volta ao mundo de outrora não parece encaixar em alguns momentos. Se com algumas pessoas a volta parece ainda melhor, com outras parece que a forma do lego se alterou e as peças deixaram de encaixar. E não tem jeito. Você roda a peça porque ela deve estar na posição errada, mas não dá. Você olha a peça com atenção para tentar entender onde ela se estragou ou partiu ou inchou, mas ela está intacta. Apenas não combina mais.


Conheci uma mulher que pouco falava quando estava em “convívio social” e era admirada por todos muito mais do que as pessoas que passam a tarde a dizer o que são, o que fazem, a importância de existirem. Lamento informar, todos vamos embora, todos somos importantes apenas quando estamos presentes e zero importantes quando partimos.


Fisicamente ou virtualmente, esteja, olhe, se importe, troque. Mesmo que só você fale ou mesmo que você nem fale. Mas vá sempre na busca de voltar melhor, mais enriquecido de vida, de experiência, de viagem, de travessia.


Um dia num dos trabalhos que tenho aqui Ana me perguntava rindo: “O que é? Pensava que trabalhar não era tão bom? Nem tão divertido? Nem tão construtivo?” Confesso que foi uma surpresa ter tanto prazer e aprender tanto num trabalho. Trabalhar uma hora e sair melhor, mais culta, mais humana. Desejo a todos isso, no mínimo. Busquem isso mesmo que tenham de perder outras coisas que julgavam importantes e determinantes. Mude, busque, vá, tente, nem sempre o desconhecido é pior. Estar em lugares onde não somos respeitados, com pessoas que se julgam superiores, é de evitar. Fuja. Busque onde você é você, mesmo que pareça a todos que você está pior. Eles não fazem ideia e também o que eles pensam interessa para quê mesmo? Venha. Deste lado está-se bem!

Ana Santos, professora, jornalista

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