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"Não está (sequer) bem"





A Ana ligou-me ontem à noite. Atendi abruptamente quando vi o número dela, certa de que vinham novidades. Do outro lado, ela arrastou por uns segundos o silêncio e, eu, com o frio a crescer na entrada do estômago, adivinhei o que ela não conseguia dizer.

Há três dias que a avó da Ana estava internada nos cuidados intensivos, infetada pelo surto de Covid-19 que assaltou o lar onde ela morava.

Olho pela janela o dia luminoso lá fora e parece-me impossível, ofensivo até, que o sol brilhe com tal esplendor enquanto as pessoas se sentem tão tristes.

A Ana e eu somos amigas desde o infantário. Durante a escola primária lanchávamos todos os dias em casa da D. Ermelinda, a avó dela, que nos servia leite morno com chocolate e barrava torradas com o mel de rosmaninho, trazido da aldeia, lá na serra.

Nos últimos meses, só vi a Ana duas vezes, ambas com o rosto coberto por uma máscara, que não nos permitia partilhar sorrisos. Meti-me no carro, carregando um termos de café e dois copos de plástico e fui sentar-me nos degraus à porta do prédio dela onde, com mais de um metro de distância a separar-nos e o café quente entre mãos, tentámos enganar o frio e as saudades.

Enfio um vestido simples, de malha, preto e penso que me sentiria muito mais confortável se calçasse umas sapatilhas, mas não quero retirar nem um pouco, ínfimo que seja, de dignidade a este funeral. Já é suficientemente triste que não possam estar presentes mais que 10 pessoas e que sejam vivamente aconselhadas a não trocarem abraços.

Estaciono sem dificuldade perto da capela quase vazia e vejo a Ana à porta, os ombros curvados, a pegar distraída num cigarro, os dedos ligeiramente trémulos quando o leva à boca. Assalta-me um sorriso à recordação do primeiro cigarro que fumámos às escondidas, as mãos a tremer muito mais nesse dia. Fico um bocadinho sentada atrás do volante a pensar. Estes tempos de isolamento têm sido difíceis de aguentar e eu, que há quatro anos não fumo, tenho muita vontade de pegar num cigarro.

De súbito, toda a dureza dos tempos se abate sobre mim. Encosto a cabeça ao volante e começo a soluçar descontroladamente, os ombros aos solavancos, as lágrimas quentes a caírem-me no colo.

Penso nos meus pais, a 300km de distância, que não vejo há tanto tempo, no meu irmão sozinho em França. Penso no escritório vazio, na copa onde ninguém agora partilha almoços. Penso nos jantares tardios depois do trabalho, a garrafa de vinho tinto a desenrolar a língua e a avivar sentimentos. Penso na falta que me faz ver a cara das pessoas, tocar-lhes sem medo, sentir-lhes a pele e o cheiro. Sinto-me muito perdida, muito sozinha, a precisar que alguém me abrace ou pegue ao colo. Vai ficar tudo bem, dizem-nos e repetimos como um mantra. Mas ainda não está. Não está sequer bem para chorarmos os nossos mortos ou ampararmos os nossos doentes. Não está sequer bem para confortarmos uma amiga no seu luto.

O choro vai acalmando e começo a inspirar fundo, tentando recompor-me. Oiço pancadinhas no vidro, olho e vejo os grandes olhos da Ana, doces e tristes como chocolate amargo, a fitarem-me por cima da máscara, toda ela pronta para me consolar, quando devia ser o contrário. Na mão, um pouco amarrotado, traz o maço dos cigarros. Desinfeto as mãos com álcool gel, saio do carro e estendo a mão para o maço. “Dá-me lume”, peço-lhe. E ela, sem dizer uma palavra, acende-me o cigarro.

Encostamo-nos ao carro e ficamos as duas em silêncio, tentando aquecer o vazio que nos enche o peito com baforadas de fumo quente.

Cláudia Quaresma

https://agajanaochora.blogspot.com/


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