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“Mentir é uma rotina na vida?” Bug Sociedade


Não vem com mentira! É mentira dela! Para de mentir! Mentira... – é uma coisa definitiva a quantidade de vezes que somos colocados diante da percepção de que dispomos da vida tanto com verdades, quanto com mentiras. E quem mente quer direito absoluto à mentira. E a mentira cresce tanto na pessoa que a usa como forma de subsistência que, num dado momento, não se sabe mais o que aconteceu porque as pessoas que podem testemunhar a mentira são invisibilizadas – e descartadas.


Acontece em todas as vidas. Num dado momento, alguém quer alguma coisa sua – nem que seja um almoço de cortesia na casa dos bisavós! – Mas tem lá alguém que sabe de alguma coisa que você precisa ocultar, omitir, esconder, burlar – são tantas as possibilidades... parece que mais ninguém viu - e você distorce um pouco – experimenta. Depois, parte pro ataque e faz quase uma campanha eleitoral, com todas as mentiras vestidinhas de “inverdades, enganos ou Fake News”. Mas são mentiras. Apenas mentiras. Aí a pessoa repete mil vezes, não se detém e destrói emoções, mas crê que sobreviveu. Porém, na rotina da vida, será que lá no fundo, se acredita mesmo que a verdade “sumiu”? Você “dá uma de Mandrake na verdade” e como num passe de mágica ela desaparece da sua frente e vira... mentira. Da sua frente ok, mas – ela desaparecerá da frente de todos?


Do “não fui que peguei, quebrei, mexi, roubei, fofoquei, usei, manchei, traí, desviei”, se chega a destruição da imagem de pessoas inocentes que podem ter cedido tudo o que tinham, num momento anterior. O Facebook faz isso diariamente, dúzias de vezes, por exemplo. A vizinhança. A família. Onde seu coração estiver e estiver alguém que precisa se sentir salvo do que quer esconder socialmente, lá vem ela – a mentira. A dona da ilusão.


Afinal, há mesmo a esperança de que a pessoa seja tão totalmente isolada ao ponto de ficar muda para todos os seres vivos do mundo? Você vai lá, faz bullying nela, a isola totalmente e a deixa como um pedaço de carne morta que vai ser comida. Mas quem garante que a pessoa não fala nada e fica ali quietinha esperando a morte? E se ela falar, quem garante que quando você chega pra continuar a mentir para os outros, eles não sabem a verdade e mentem, pra ouvir até onde se pode ir com uma mentira?


Ou será que quem mente, mente tanto que acha que mente sozinho? Difícil viver sem se deparar com a origem da vida – a mentira. Se foi verdade e Eva existiu, lá está a mentira. Ela pecou, comeu a maçã e mentiu que não tinha feito nada.


Se despir das mentiras é difícil. Porque basta ser um pouco hipócrita e lá está você diante da mentira de novo. Porque é chato você se meter num assunto encrencado, num pedido de desculpas que o orgulho impede as pessoas de pedirem, num não ao vício, ao mau comportamento, à fofoca ou maledicência ou desprezo de alguém, por alguém. A maioria finge que não está vendo, assobia... e mente, ao se omitir.


Aí a gente se espanta de ver como a vida é dura, às vezes. Na hora que a gente for contar a próxima mentira... Talvez seja melhor pensar nisso. Haverá uma resposta. A vida, o karma, o destino de cada um de nós vai deixar rolar solto pra sempre, em todos os in saecula saeculorum, amém? Ou será que a gente também mente pra si mesmo, se engana na maior cara de pau, porque se acostumou a mentir?


O fato é que numa sociedade onde a mentira é uma rotina, a sua vida vai ser afetada. Você mente muito? Tem consequência. Você é sincero? Tem consequência. O fato indiscutível, é que tudo tem consequência. Quantas consequências você vê ao se olhar na cara de manhã? Já nem olha direito a sua cara, de manhã? Se arrepende? Volte atrás. Diga a verdade. É um exercício difícil. Terrível. Mas libertador.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro, TV


Que notícias ler? Em quem acreditar? Em quem confiar? O que é certo? Onde está a realidade? Vale tudo? Para onde estamos indo?


As pessoas mentem por medo, por hábito, por aprendizagem, por preguiça, por vaidade, por orgulho. Desaprenderam de assumir responsabilidades ou culpas sobre o que fazem, dizem, pensam. Em vez de recuar, de perceber que erraram, pedir desculpa, assumir o que fizeram e tentar mudar, estão a seguir em frente. Fazem de conta que não fizeram nada de errado, não consideram que precisam se desculpar e iniciam a caminhada da mentira. Uma pequena mentira que abre a porta para mais uma, mais uma, que vira uma forma de estar, de ser, de viver, de se dar bem. De criar uma norma. Um mundo novo surge. Uma nova realidade bizarra aceite por todos. Porque afinal todos querem ser aceites.


Ninguém é perfeito, sabemos. E sim, cada vez é mais difícil não mentir, cada vez é mais difícil manter a integridade, encontrar pessoas de bem, pessoas que não se protegem nas mentiras. Cada vez é mais difícil encontrar pessoas que reconhecem e assumem seus erros, que não têm vergonha de dizer que não sabem, que não deviam ter feito aquilo ou aquilo. Pessoas que recuam, pedem desculpa, transformam suas vidas, se empenham em corrigir o que de errado fizeram.


Estamos muito confusos achando que ser boa pessoa, ser digno, ser “alguém”, talvez seja esconder, mostrar um “eu” visualmente perfeito, contudo artificial, sem valor, fútil, vazio. Uma pequena mentira resolve. Mas precisa de mais uma de complemento. Hum, mas aqui, neste lugar esta mentira funciona, mas em outro lugar tem de ser contada de outra forma. E as mentiras viram hábitos, rotinas. Quem não mente passa a errado, precisa ser excluído, destoa, atrapalha a paisagem, perigosamente expõe a realidade com a sua presença, a sua forma de estar, o seu dedo apontado.


As famílias estão desestruturadas, ricas ou pobres. Informadas ou não. Os indivíduos perderam a importância da verdade, da honestidade, tanto em si como na aprendizagem das crianças e jovens. O barco da vida, das rotinas e hábitos circula cheio de buracos mal tapados – mentiras - que diminuem a velocidade da sua navegação e dos que partilham a vida consigo. Esta forma de viver inundou todas as áreas da sociedade. Cometem-se tremendas injustiças por causa disso e o mundo segue seu rumo.


Quem cala e quem mente se dá bem, parece o lema dos novos tempos. Você vai deixar? Você não vai fazer nada? Você vai entrar na dança? Não perca quem você é...

Ana Santos, professora, jornalista

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