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“Máscara e Camisinha” Bug Sociedade


Desenho de Nuno Afonso

A Bahia chegou às suas piores e maiores marcas, nessa relação estranha e complexa que o Brasil desenvolveu com a Covid-19. Não tem mais leito sobrando, gente. Então, como se entende a teimosia de não usar máscara e ir pra festa clandestina? Como se explica o fato de que a gente se prendeu em casa em março passado e foi condenada a um tipo de “prisão social perpétua” porque, se tem gente que não liga, que não quer perceber que é matar ou morrer se faltar a máscara cobrindo a boca e o nariz, nós temos que ficar em casa presos, morrendo de medo e descobrindo fórmulas de sobreviver.


Aí me veio a história da “prova de amor” que existia antes da AIDS: se a mulher amava, tinha que provar o amor que sentia, transando sem camisinha. Não usar camisinha queria dizer que a mulher confiava no homem, lembram disso? Lembram da frase machista entre eles? “Eu é que não vou chupar bala embrulhada”!


Agora estamos diante da nova versão da mesma coisa: “Encontrei com minha melhor amiga, que só vejo pela internet desde março e não dava pra usar máscara naquela hora. Mas depois eu coloquei”. E cada pessoa tem a sua desculpa esfarrapada. “Eu fui à festa, mas depois eu tomei banho”; “fui deixar as compras na casa da minha avó e só dei um beijinho nela”; “tive que almoçar na casa da minha cunhada, mas não tinha quase ninguém no aniversário” – nada de censurável, se não fosse o Covid.


Em primeiro lugar: o vírus do Covid é um vírus de verdade. Ele não pensa e não entende de machismo. Ele sai da boca das pessoas falantes e respirantes – ou seja, todo mundo que é gente - sejam elas de qualquer raça, sejam ricas ou pobres. Ele circula no ar, pousa na roupa, no corpo das pessoas e é aspirado como se fosse um pozinho invisível.


Se alguém ficar sentido porque você anda de máscara na rua o tempo todo e evita lugares fechados ESSA PESSOA NÃO MERECE SUA AMIZADE porque ela não se importa se você morrer. Se ela não quiser tomar vacina, ELA NÃO MERECE SUA AMIZADE porque não tem consideração pelos idosos da sua família e da sua vizinhança.


Não usar máscara NÃO É PROVA DE CONFIANÇA. Nunca faça isso.


Não existe nenhum motivo para andar sem máscara na rua. E máscara boa, daquela que protege mesmo. Tipo PFF2 ou N95 porque a coisa na Bahia está terrível. Você quer morrer ou usar máscara? Quer matar ou usar máscara? Quer sofrer ou usar máscara? Se alguém tivesse falado isso com quem morreu de AIDS naquela época, muita gente ainda estaria viva porque era só “usar a camisinha”; não era prova de amor, nem prova de nada.


É só usar a máscara. Vocês não precisam provar nada sobre a sua resistência ao Covid porque ele é um vírus; ele não pensa, não tem medo de gente, não tem medo do gosto da cachaça. Também não adianta: Deus não tira o vírus de dentro de você se ele entrar pelo seu nariz, sem máscara. Aliás, o Covid não liga a mínima pra gente porque não tem remédio que o vença, só a vacina. É um bichinho menor que uma poeira invisível; você nunca vai ver a cara dele. O bicho se espalha no ar e pode nos adoecer e nos matar. O mesmo na nossa família. Ah! E só maluco da cabeça pra achar que vai virar jacaré se tomar a vacina, certo?


Resumindo: Agora não é hora de provar confiança e consideração – é hora de consciência e proteção. Tenha medo do vírus. Use máscara.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro, TV


Quando a vida é generosa com nossos passos, podemos ficar com a sensação que os outros têm vidas difíceis porque fizeram coisas erradas onde nós fizemos certo. Quando a vida dá errado demasiadas vezes, podemos ficar com a sensação que não merecemos ter “sorte” e que a benção da vida é só para alguns.


Enquanto não entendemos o que fazemos aqui e o que realmente é importante, vamos justificar, culpar, fugir, negar, ludibriar, fingir, tudo o que é difícil.


Talvez isso aconteça com todos no mundo. Talvez por isso, alguns e algumas consideram que a primeira vez que fazem amor não precisam de camisinha porque na primeira vez nunca se engravida... Eu me pergunto em que mundo estas pessoas vivem. Talvez por isso as pessoas continuam a fazer amor sem segurança porque não querem parecer desconfiadas, medrosas, nem querem perder o “clima”. Ou porque esse risco lhes dá mais estímulo. Ou porque confiam cegamente em relações que só são estáveis para si. Até o dia em que a vida chuta na cara a realidade e você não quer acreditar na besteira que fez, na inocência de confiar só porque queria acreditar, porque era poético, ou era mais fácil. Nem sempre acontecem milagres na vida. E é por todo o lado, literalmente por todo o lado, que meninas e meninos demasiado jovens, são pais e mães e, quando a vida vai ainda mais fundo, são soropositivos/seropositivos, ou têm Aids/Sida. Lamentavelmente conheço muitos, muitas. Talvez os que mais me abalam sejam os que com menos de 20 anos tenham Aids porque não imaginava que fossem tantos, tantas... Seus olhos espelham a crueldade da vida. Seu fogo esmoreceu, seus sonhos travaram. São os mesmos, mas sua luz virou sépia. É um fosso onde não é possível entrar para os salvar.


Mas não aprendemos, nunca aprendemos e nem sabemos que não aprendemos.


Quando surge um problema global complexo, ele expõe as desigualdades e expõe os poderes. E o que verdadeiramente acontece é o que se vê e o que se fala? É o que está verdadeiramente a acontecer? Por que eu não ajudo? Por que não colaboro? Por que não me sinto fazendo parte? É porque as minhas ações foram sempre conotadas como indesejáveis? Porque sempre fui invisível? É isso? É por isso que continuo a fazer festas em segredo? Sem máscaras? Sem cuidado? É por isso que quebro todas as regras? De confinamento, de segurança, de higiene? Achei que o que eu fazia não era importante? Que tudo se resolve? Que eu preciso fazer as minhas coisas, satisfazer meus desejos, fazer minhas festas, minhas farras, meus “negócios”? É por isso que posso estar matando pessoas sem saber, nem me preocupar? Matar os que amo? Os que nem me conhecem? Destruir a vida dos que amo ao me “matar”? Não sou de grupo de risco e até estou bem de saúde e por isso, que se dane?


Proteger a vida de todos passou a ser uma séria luta diária. De todos, mesmo das pessoas com quem não convives, não tens ligação afetiva. Um enorme passo para uma humanidade que nem sempre aceita aprender. Combater hábitos antigos que agora viraram perigosos é um exercício permanente – um segundo de distração e o hábito que era inocente te contamina. Ou contamina outros. Isso é duro e já é muito. Para quê ainda errar em segredo? Errar na frente de todos com ar de “destemido”? Caramba!!! Isto já está tão difícil por que vamos ainda piorar?


Tenho visto à distância meu amado Portugal sofrer demais... Agora você, Bahia?

Ana Santos, professora, jornalista

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