“INDIVIDUALISMO COLETIVO” e “Memória” Bug Sociedade
- portalbuglatino
- 14 de jul.
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“INDIVIDUALISMO COLETIVO” Bug Sociedade
O trabalho de nos apartar tem sido árduo. Nem falamos mais em soluções coletivas. A primeira opção parece ser a boa, velha e aristocrática “carteirada”.
- Você sabe com quem está falando?
- A senhora “não quer se comunicar comigo”!
- Aqui é assim.
E lá vamos nós... eu sou primeiro porque sou melhor, porque meu filho é melhor, porque minha família tem direitos sobre o seu trabalho, a sua vida, o seu futuro, a sua escola, porque tenho direito ao dinheiro da emenda parlamentar, mesmo não sendo parlamentar, não tendo sido eleito, tendo sido cassado, preso, mesmo que o dinheiro da emenda venha do deputado de São Paulo, mas vá parar na Conchinchina – no bolso da Excia, no saco de lixo da Excia, na conta internacional da Excia.
Enquanto isso, questões coletivas se amontoam: qual departamento da Prefeitura Municipal de Salvador, inspeciona, cobra, multa, o cidadão que não coloca o bem comum em primeiro lugar como... cuidar que não haja mosquitos de Aedes aegypti no seu terreno privado, por exemplo – aqui em Salvador, pode-se tomar o nome “privado”, como sendo “sagrado” porque quem é dono tem a primazia das ações. Pode criar cobras dentro do seu terreno, que dirá mosquitos! Ratos!
Assim, me jogando à frente dos vizinhos, tentando emociona-los com o meu próprio estado – lastimável - conseguimos uma inspeção do terreno que pela frente é um luxo, mas pelos fundos é um lixo. Um lixão. Uma lixeira. Condomínio caríssimo, que satisfaz quem olha pela rua da frente. Acontece que a vida passa pela frente e também pelos fundos, pelos lados, pela escola municipal, pelo terreno baldio que adotamos” – o terreno é privado, mas ninguém pode nos dizer quem é o dono porque ele “também não pode ser incomodado”.
Na internet, vemos pessoas que não aceitam nenhuma crítica, nenhuma sugestão, nenhuma troca. Elas compram cursos de pessoas que se autodenominam “autoridades” – algumas com 12 anos. Assim, perdemos leis trabalhistas, vemos diariamente os meninos entregadores e nem nos perguntamos onde será que fazem xixi, se poderiam ter um ponto final onde pudessem conversar, tomar uma café, se o Departamento de Zoonoses vai mesmo conseguir ultrapassar todas as carteiradas que vai levar no meu bairro e nos salvar da dengue, chicungunya e zika.
É isso ou então a Prefeitura vai continuar sendo adepta do individualismo da passarela, no carnaval, como a que monta e desmonta no Morro do Gato - e o nosso conserto coletivo vai continuar sendo o Bocão, mesmo.
Individualismo, de repente, é vendido como “chique”. “Chique”? Chique é viver. De preferencia em paz com a vizinhança.
Mais do que individualista, olhe-se, perceba-se: Você pode estar sendo egoísta! E isso dói de ver numa geração que tem dificuldades até em escolher 1 quilo de batatas, sem a ajuda do 99!
E tenho dito.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Memória” Bug Sociedade
Vivemos numa era em que temos medo de perder a memória. A memória específica – esquecer os nomes das coisas, das pessoas, não sabermos quem somos, o que fazemos e para onde vamos, nem onde vivemos. Comemos comida com açafrão, exercitamos corpo e mente, convivemos. Tentamos nos manter saudáveis e equilibrados, temos a ciência sempre em busca da solução, mas existe uma nuvem negra em cima da nossa cabeça a partir de uma certa idade. Piora para as mulheres já que a estatística diz que é uma doença que “nos prefere”. Sortudas...
Mas estamos perdendo a memória de um povo, de um mundo, de um universo. Poderemos lhe chamar também de Alzheimer? Esquecer de onde viemos, as gerações anteriores, a cultura de um povo, as personalidades e celebridades que vieram antes de nós, parece uma espécie de Alzheimer coletivo. Ao mesmo tempo, se olharmos de outro ponto de vista vamos percebendo que talvez pequenos erros estejam a destruir muito mais do que alguma vez imaginamos. Há bem pouco tempo dizíamos que quem dominava o mundo eram os mídia. Que grupos de mídia gigantescos e mundiais controlavam o mundo, dominando o que aparece nos jornais, telejornais, audiovisual. Falamos de profissionais de jornalismo que não aprendem sobre educação, muito menos sobre filosofia. Aprendem a escrever, mas tudo é cada vez mais leve e suave. Agora, juntamos a isso profissionais de marketing que estudam nos cursos matérias como: Redação Persuasiva, Introdução ao Neuromarketing, Estratégias digitais, E-Comerce. Estas pessoas nunca estudam educação, saúde, sociedade, psicologia e sociologia humana e da saúde, cultura – não estudam nada sobre cuidar da sociedade, proteger a sociedade. Estudam como explorar a sociedade e o indivíduo. Por fim, quem contrata estas pessoas, são empresários que apenas pensam em lucro, e falamos de lucro em grande escala – algo que não perde tempo a cuidar de pessoas, nem das suas famílias, nem do equilíbrio da sociedade. Três grupos – jornalismo, marketing, empresariado – que decidem do que se fala, o que é importante comprar, dizer, fazer, e quem quer fazer parte da sociedade, quem se quer sentir incluído, segue as regras.
Você trabalha cada vez mais, perdeu o tempo de criar relações espontâneas de amizade e respeito, busca a aceitação frequentando as viagens, os shows e os lugares que estes 3 grupos dizem que se deve frequentar, além de vestir as roupas da moda, falar o que se deve falar, seguir as personalidades que todos seguem, etc. Está vendo?
Os empresários mandam, os jornalistas e pessoal do marketing, obedecem. Recebem muito bem por obedecer, são demitidos ou destruídos se não obedecerem. O que jornalistas e marketing com filhos e contas para pagar escolhem fazer? O que pessoas que sabem que não conseguirão outro emprego como aquele, com tanto prestígio, decidem fazer? Não é preciso pensar muito para saber. E assim vamos vivendo num mundo cada vez mais embrutecido, emburrecido, hipnotizado, vazio, deprimido, até hipócrita porque ninguém se arrisca a ser verdadeiro, a queixar-se de cansaço, de desilusão, de não estar satisfeito. Para não perder o pão, para fazer parte. Triste.
Você não é quem é com ninguém, e se você não é sincero comigo, também não serei com você. E assim vamos vivendo num faz de conta, que inclui casar com a pessoa mais indicada, viver no lugar mais indicado, ter filhos na época indicada, ter uma vida adequada e desejar um futuro de vitrine. Juntamos a isso, medicamentos para a depressão, inscrição na academia, ter o seu psicólogo e a sua terapia semanal, ir trocando dentes, nariz, orelhas, face, e descendo, até aos dedos dos pés.
Viver parece uma matéria da faculdade, ou o Enem. Engraçado, pensava que o jeito e as escolhas de viver eram diferentes para cada pessoa. Hoje vi um filme em que um dos personagens dizia que ele parecia a única pessoa real e todos os outros pareciam fake. Depois se perguntava se seria ele o fake já que era apenas ele o diferente. Bom se você se acha a única pessoa real que não entra neste guia de vida orientado por empresários, marketing e jornalismo, saiba que tem mais uma pessoa real. Eu. E deve existir mais gente, que está como nós, escondida, fugindo desse kit vida, vivendo. Vivendo de verdade. E tentando fazer a minha e a nossa parte, mantendo a memória do mundo, dos nossos povos, do universo. E já agora, a nossa memória.
E nem toquei no assunto política e corrupção. Mas isso, vai ter de ficar para outro Bug Sociedade.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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