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“FIM DA COPA, COMEÇO DE TUDO” e "Os jeitinhos" Bug Sociedade



“FIM DA COPA, COMEÇO DE TUDO” Bug Sociedade

Bem, lá se foi. Todo mundo reclama, mas na hora H o amor pelo Brasil vence a gente. Mas vejam bem: pelo Brasil. Que coisa mais abusadora perdermos com uma seleção que tinha 1000% mais marketing do que jogo, drible, raça, sonho. Ver jogador indicando Bet para os iludidos seguidores, com os rios de dinheiro que eles ganham é uma coisa totalmente incompreensível pra mim.

Outra coisa é essa: seguidores. Por que eles perdem o direito à própria personalidade ao seguirem pessoas que visivelmente têm poucas qualidades humanas? O Cristiano Ronaldo se nega a fazer propaganda de coisas que são ruins para as pessoas – não é nem para os portugueses, é para as pessoas. Não se tatua para poder continuar doando sangue. Mbappé não cobra para jogar para a seleção francesa apenas porque é uma honra para ele enquanto jogador. E doa seus prêmios na seleção para instituições de caridade. Não faz publicidade às Bets e a fast foods. Porque escolhe ser um bom exemplo.

Pensem em quem somos como nação. Era para termos tropeçado no senador Romario por lá ganhando dois salários? Abriu mão do de senador por pressão nossa. Os deputados que estavam lá não tinham nenhum serviço por aqui? Adianta alguma coisa o atleta se jogar no chão de joelhos para sair chorando na foto do Instagram?

Ando cansada de poses para clics. Quero trabalhadores que olhem o Brasil e nos deem orgulho. Não porque ganharam. Mas porque sabem o motivo pelo qual estão conosco nessa luta, na vitória e na derrota.

Os senadores deveriam estar votando para acabar com a escala 6x1, mas estão firmes babando o empresariado, como sempre. Não é nada contra a esquerda, nem tampouco contra a direita – é contra nós, brasileiros. Aí, como os jogadores pop stars, os políticos querem apenas lacrar para ganhar mais seguidores – todos cegos e obedientes. Hoje o Instagram tinha “Neymar, menino Ney” em todas as posições – parecia o novo menino Jesus de seus seguidores – com justificativas absurdas para o fato de que ele não esteve bem em nenhuma partida. O time não estava pronto. Uma pessoa que procura os telões antes de bater na bola não está pronta.

Nikolas estava fazendo a mesma coisa que o Neymar. O menino Ney ganha seu próprio dinheiro se vendendo pra qualquer coisa que o pague, mas o Nikolas é pago com o meu dinheiro – nosso dinheiro. Quem mandou ele ir pra lá? Nós pagamos o salário dele nesse período? Quem controla isso? Quem controla o ponto dos deputados? Por que não colocamos chip em cada pessoa que é eleita deputado e senador? Pelo menos eles parariam de fugir para os Estados Unidos.

Perdemos a Copa e foi tão sem graça perdê-la, com a CBF nos vendendo como uma seleção brasileira, com marketing de campeões - mas de fato um time que não somou o talento do jogador a garra de um time.

Lutamos para viver. Não olhamos de ladinho para os telões porque temos que lutar para viver. Me deu vergonha. Dos jogadores, dos políticos, dos seguidores cegos. Aqueles que antigamente a gente chamava de “macacos de imitação”. Sem personalidade desenvolvida, imitavam o que os outros pensavam, faziam. Assim, o assassinato de mulheres aumentou – de arminhas na mão. Principalmente os homens, passaram a apostar em tudo o que se mexe e está precificado em uma Bet.  Assim o machismo aumentou e tem gente já semeando que as mulheres “estatisticamente” votam mal. Algum seguidor Red Pill se perguntou: estatisticamente segundo qual estatística, cara pálida? Qual pesquisa? Qual pesquisador? Oops. Isso é pensar. Por isso ter tanta mulher é vista como perigosa nesse mundo.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

"Os jeitinhos" Bug Sociedade

O mundo é enorme, cheio de guerras,  competições esportivas, variadas culturas, problemas e soluções.

Se olharmos para o esporte, parece que só existe esporte.

Se olharmos para as guerras, parecem só existir guerras.

Se pensarmos apenas no nosso mundo, parece só existir isso.

Temos um olhar pequeno e a sensação de ter a vida muito ocupada.

Não temos mais tempo para nos dedicarmos a um problema que logo aparece outro: calor extremo, incêndios, vulcões em atividade, sismos, roubos, ataques terroristas, ataques de gente desequilibrada, ataques de hackers, burla, crimes de estelionato, e mais e mais. É um bombardeio de problemas e dificuldades. E se o dinheiro estiver curto para cumprir com todas as despesas, tudo piora.

Acontece uma copa do mundo de futebol e todos temos um segundo ou mais para olhar uma tela, assistir ao nosso país jogando, assistir aos melhores momentos de grandes jogadores. Em cada jogo, é uma lista de personalidades famosas, na bancada. Personalidades do mundo do esporte e do espetáculo.

Por exemplo, quem diria que o marido de  Beyoncé, Jay-Z, seria o empresário de Vini Júnior e mais uns quantos jogadores de futebol, bem famosos? Não existe mais assistir esporte só por prazer. O século XXI trouxe um outro tipo de divertimento: fazer dinheiro, ter lucro, enriquecer, com o esporte e já agora, a qualquer custo. Nem que prejudique outras pessoas, a adoeça, as destrua. Pense nas Bets.

Atletas, ex- atletas e atores, que compram clubes de futebol. Personalidades brasileiras do esporte e da televisão que aceitam ser a cara de publicidades de Bets sem qualquer remorso. E nada acontece. Tente fazer alguma coisa errada, nem que seja se atrasar para pagar o IPVA, para ver o que lhe acontece.

Presidentes de países poderosos que conseguem influenciar a FIFA, ao ponto de retirar cartões vermelhos ou amarelos de jogadores do seu país. Sem qualquer preocupação em esconder o que fizeram. A céu aberto, como se diz em Salvador. O mundo como um jogo exposto, sem vergonhas, sem culpas, sem limites, sem um pingo de dignidade. Ninguém os atinge. Eles sabem disso. O poder e a forma enviesada de fazer as coisas está muito disseminada.

Jogadores que ficam fora da copa do mundo por lesão e outros que vão mesmo com lesão. Jogadores que são convocados pelo dinheiro que proporcionam. Jogadores que não têm espaço para jogar enquanto os mais velhos e famosos, da sua mesma posição, não se aposentam. Se prestarmos atenção, na vida fora do esporte acontecem coisas semelhantes.

O mundo não é justo. A sociedade não é justa.

Você escolhe. Sempre existiu a maneira menos correta de agir, a maneira mais curta de conseguir as coisas. A maior parte das pessoas continua a escolher esse lado. A sociedade continua a ensinar isso, continua a aceitar fazer coisas erradas, escondidas, e a se apresentar como digna e correta, à luz do dia.

Os que são talentosos e dignos, e que tentam fugir desse caminho, insistem, lutam, se esforçam pelo menos o triplo, além de lutar contra suas dificuldades, contra quem compete consigo. Mas o sistema insiste em lhes dizer que por esse caminho não vão conseguir, e diminui suas capacidades e esforços. Tenta tirar seu brilho, tenta menosprezar. Fica mais difícil. Mais duro. E vão lhes mostrando a alternativa esperta.

Desde menina que vejo estes mundos. O dos que sobem na vida, fazendo seus jeitinhos e o dos que morrem dignos e apertados para pagar as contas. Dos que não se satisfazem com 20 carros na garagem, ou dos que se sentem felizes lavando seu VW Brasília, velhinho mas cheiroso. O cara dos 20 carros ainda olha o brasília, com vontade de o ter. O mundo do "vais ter de ir lá e fazer isto, dizer aquilo". O mundo do, procura o senhor X, diz que fui eu que te enviei.

Muitas vezes nos deram a escolher o lado errado. Muitas. Demasiadas. Mesmo na varanda da casa onde hoje vivo, me disseram taxativamente: "aqui é assim". E por ter discordado e me recusado a entrar no "jogo", "perdi muitas oportunidades". Uma coincidência não acham?

Quando tinha 18 anos, não fui escolhida para a seleção principal porque era baixa. Uma desculpa para escolher alguém de uma família habituada a estar na seleção. Curioso que aos 27 anos fui escolhida para ir para a seleção, com a mesma altura. 9 anos de espera, desejando que o treinador mudasse para mudar a justiça. Quantos atletas já sofreram ou sofrem do mesmo?

Quantas pessoas aguardam para mudar o treinador, o chefe no trabalho, o presidente do país, o vizinho, o administrador do condomínio? Aguardam que o mundo mude para que a sua vida possa ter uma oportunidade correta?

Quantos perdem oportunidades? Quantos precisam mudar de atividade, de vida, de cidade, de país, para poderem ter uma vida mais justa?

Este ano conheci um senhor que cumprimenta todas as pessoas dizendo: paz e bem, que bom que você existe. Ele sempre fala que quando as oportunidades não acontecem, é porque tem de ser assim. É porque não era o momento. Ele tem razão. Quando parece que estamos perdendo, algo nos indica mudança de direção. No início temos tendência para sofrer e achar que estamos perdendo algo, mas na verdade estamos a ser chamados para corrigir a rota da nossa vida. Nem que isso signifique mudar de país, de profissão, de vida, de forma de reagir às coisas, de ver os outros, de sofrer, de aprender, de viver. Mesmo que os outros comentem: "meu Deus como foste parar a essa vida?"

Penso no silêncio, penso muito no silêncio. Ele, que nos ajuda no desapego e a criar distância destes comentários de ego. Qual é a melhor vida para mim? A que os outros acham? Onde o ego e a vaidade brotam?

A vida e suas possibilidades é tão grandiosa que tentar ser a rainha dentro de 100 metros quadrados de mundo, aceitando as sub-regras, não devia nos atrair. O que nos acontece? Porque ficamos presos a redes sociais, bets, tigrinhos, pessoas, cargos, poderes? Porque nos escondemos nos "é assim" da vida?

Precisamos ser melhores.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Salvador Dali


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