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“FAKENEWS E A FÁBRICA DE MAL ESTAR” e “Rio Grande do Sul” Bug Sociedade


Alfredo Ceschiatti - Site Enciclopédia Itaú Cultural

“FAKENEWS E A FÁBRICA DE MAL ESTAR” Bug Sociedade

Recebi uma quantidade gigante de fakenews quando as chuvas começaram no Rio Grande e que falavam desde que não havia serviço de salvamento - só o de voluntários - até a ação de xingar jornalistas que chamavam a atenção para o aumento das mentiras na rede, dando o MO - modus operandi - utilizado pelos grupos.

Eu trabalho e estudo comunicação humana há mais de 40 anos e para além do que o que se fala na rede, me interessa o que as pessoas acham que são, ao enviarem uma mensagem destas para alguém – alguém que, nesse caso, sou eu: “Hitler e o seu Chefão da propaganda estão se estrebuchando em algum buraco do inferno, porque não tiveram essa "ideia" maravilhosa de "gêneros”: não teriam, à época, apenas subordinado a Europa, mas o planeta. Você é desprezível, ANA RIBEIRO”. Voltando à vida real: Não tenho chefe, sou meu próprio chefe, mas como elogiei o jornalismo da Daniela Lima, ele assumiu que meu chefe é a Rede Globo, a ponto de me chamar pelo sobrenome Marinho (ai, quem dera os zerinhos que ele tem, “estacionados” na minha conta!).

Como essa pessoa é (ou era) minha amiga, me dispus a lhe arrumar atendimento médico porque isso é uma distorção grave. Afinal, o que a catástrofe do Rio Grande tem a ver com o texto que recebi? E: quanto desse tipo de enrolação geopolítica as pessoas conseguem receber, antes de “capotarem” em argumentos tão sem pé, nem cabeça?

Uma neurocientista espanhola chamada Ana Ibáñes, falando de outro assunto, acabou vindo ao meu socorro. Em palavras simples, o cérebro é regido pela permanente preocupação em sobreviver, o que nos faz oscilar entre sensações de bem estar – onde nada de novo acontece – e mal estar – ao termos que decidir se vamos ou não nos arriscar no desconforto (e talvez perigos) da descoberta.

Ao criar infinitos perigos, críticas, acusações e abandonos, nós ficamos em estado de mal estar permanente, já repararam? Na pandemia, a culpa de morrer, resumidamente, era dos que morriam. O Brasil não podia parar, a economia ia acabar, os governadores estavam de frescura, iam sumir com o dinheiro todo, a vacina de São Paulo não prestava – aliás – nenhuma vacina prestava, tudo era pecado, Jesus tinha que fazer parte dos governos, etc. Onde fica o bem estar? Em como era antigamente, certo? E qual era o nosso antigamente?  “Ah, na ditadura é que era!”. Mas na ditadura, ninguém via a tortura, só os torturados, ninguém via a inflação porque os dados eram maquiados, ninguém via o atraso porque havia censura. Era uma vida de mentira e quem queria apontá-la era “comunista”. Todo mundo lembra dessas frases – que foram e são novamente repetidas à exaustão. Veio a chuva no Rio Grande – acompanhada da outra chuva – a de mentiras. Por que? Já pensou se o Brasil se une para ajudar o Rio Grande? Já pensou se a polarização diminuir, mesmo que um pouquinho? Já pensou se voltarmos a poder discordar sem sermos chamados de a “desprezível ANA RIBEIRO”? E PRINCIPALMENTE: Já pensou se a gente começar a cobrar que fim os deputados e senadores dão aos bilhões que nunca chegaram ao meio ambiente, mas que eles têm e recebem a cada ano mais? Onde estão os planos de emergência climática nos grandes centros urbanos? Onde está o planejamento ambiental das nossas cidades? O do lixo? E por que, como, saído de qual cabeça está escrito de que é uma boa ideia tapar os bueiros das ruas? A minha rua tem todos – TODOS – os bueiros tapados. Fica numa ladeira, que recebe a água da chuva das outras ruas acima. Toda essa água desce pela minha rua, mas para e empoça na rua de baixo. Devo esperar inerte que se cair uma chuva parecida na minha cidade, meus vizinhos morram?

Conclusão: Ninguém precisa reagir diante das mentiras, mas precisa continuar pensando. Nós recebemos inúmeros golpes pelo celular e temos cuidado. É a mesma coisa: mentiras trazem consequências na vida real e na vida virtual também. Nós ensinamos isso às crianças. Como caímos nesse papo? Olha a história da Chapeuzinho Vermelho: desobedeceu a mãe, mentiu que ia por um lugar e foi por outro – e o lobo mau, ó... comeu todo mundo! As pessoas do Rio Grande precisam da nossa ajuda e os políticos de uma mudança radical na nossa forma de lidar com eles. Já temos pasto suficiente, já destruímos o suficiente. Agora é ajudar muito, mas entender – sobretudo aprender - que essa foi apenas a nossa primeira vez. De quantas mais precisaremos para compreendermos que nem sempre a história tem final feliz?

Denunciem quem mente. Fakenews é mentira. Pós-verdade é mentira. Desinformação é mentira. É fácil. O que a gente aprendeu sobre mentir? Isso nos dará a segurança e o bem estar necessários para reagir.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Rio Grande do Sul” Bug Sociedade

Lucas Vidal, compositor jovem que já teve de lutar contra um câncer, percebeu que “a vida é um limite de tempo”. Todos percebemos isso, quando a vida nos diz que talvez seja hora de terminar a caminhada por aqui – através de doenças ou acidentes. Mas também esquecemos disso com facilidade, quando tudo parece correr bem e ficamos com a ideia idílica de que somos eternos.

Portugal tem de área, 92 152 km². O Estado do Rio Grande do Sul tem 281 748 km² - é maior do que o Uruguai, por exemplo.

O ser humano tem o hábito de falar de cada país, de os comparar, como se fossem todos iguais, vivendo com os mesmos climas, passando pelas mesmas dificuldades. Em frente a uma praia tropical sabemos tudo sobre os árticos e nos árticos, sabemos tudo sobre praias tropicais.

Somos todos tão pequenos, tão desinformados, mas tão cheios de certezas. Lembro sempre da primeira vez que fui à China e de como vim de lá cheia de sabedoria chinesa. Até que fui mais uma e outra vez e fui percebendo que nunca saberia mais do que um grão de areia de um país tão majestoso, tão grandioso, tão enorme. O turismo e as pequenas viagens de negócios nos convencem – e a gente gosta de se convencer que é superior aos lugares quando viaja - que aquele pacote de viagem, aquele hotel de luxo, aqueles dias, nos darão autoridade para falar com propriedade daquele lugar, daquele país, daquelas pessoas, dos seus problemas. É bizarro já que muitas vezes – ou em todas – não sabemos mais do que as rotinas de turista ou de trabalhador temporário e dos hábitos do hotel onde estivemos a maior parte do tempo. Conheço pessoas que falam comigo tentando me ensinar como se deve viver em Portugal – eu que lá vivi 47 anos. Muitas vezes eu também tento dizer como fazer num lugar onde apenas vivo há 10 anos.

Todos falamos muito do que não sabemos. Talvez porque não olhamos para o que é, mas para o que achamos que é. Ou para o que queremos que seja. E é por aí que abrimos a porta para as mentiras e damos espaço aos mentirosos – mentiras, mentirosamente chamadas de Fake News. E é tão fácil ser mentiroso. É tão fácil pegar num pedaço de verdade e enfeitá-lo de mentiras. É tão fácil mentir com a justificação de que foi alguém que disse, ou estava escrito num lugar importante, ou ainda, que foi uma pessoa de confiança que nos enviou. E os mentirosos poderiam ser pessoas feias, sujas e monstruosas, como nos filmes de crianças, mas na realidade os mentirosos estão por todo o lado, são feios e bonitos, ricos e pobres, poderosos e invisíveis, próximos ou distantes, simpáticos ou antipáticos. Penso que precisamos nos indignar mais perante as mentiras e os mentirosos, porque é uma forma de travagem. A indignação está em falta. Tem muita apatia, passividade, desinteresse. Também precisamos ter cuidado para não os proteger - tem muito disso. Trata-se pior as pessoas que sofreram dessa mentira do que o próprio mentiroso. Um caso de estudo, sem dúvida. As pessoas não se querem meter, não se querem aborrecer, não querem ter o trabalho – afinal não é da conta delas, não é a vida delas - mas ficar sentadas olhando o seu celular, aceitando todas as mentiras absurdas que circulam sobre o que se vive no Rio Grande do Sul e propagando-as em cada conversa como se fossem verdades absolutas – isso não percebem que ainda é pior. Não percebem que “se metem” no assunto e o poluem, o pioram.

O Rio Grande do Sul está cheio de heróis: os que sofrem, os que ajudam, os que perderam tudo e que terão de construir de novo, os que não sabem o que fazer, os que choram, os que estão apavorados. Todos. Todos merecem o nosso respeito e a nossa admiração. Um estado, 3x o tamanho do meu país, afundado, lutando contra a natureza impiedosa. E que não pára. Mais chuva, descida de temperatura, ventos a desfavor, ondas do mar, até a lua se juntou.

Somos pequenos. Somos ainda mais pequenos quando escolhemos o caminho da mentira, do roubo, do abuso sexual. Mas juntos, honestamente juntos, somos muito poderosos. Mais do que julgamos. O esporte nos ensina isso, mas o Rio Grande do Sul e todos os que tentam sobreviver, todos os que tentam ajudar nos estão ensinando mais ainda. Aprendamos.

Ana Santos, professora, jornalista

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