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“Dia 6 de janeiro, dia da Gratidão” Bug Sociedade

Atualizado: Jan 5


“A GRATIDÃO NÃO SABE”

Mil vezes ouço “gratidão” e tento tê-la como meta. Nem sempre alcanço onde está, dentro de mim, mas procuro por ela, quero vê-la por perto, mesmo quando erro a mão e penso uma crítica maldosa. Ao mesmo tempo, tenho uma implicância com o fato de que as pessoas, de uma estranha maneira, ficaram com vergonha de dizer “não sei”. Avaliam que é um atestado de ignorância. É. Mas ser ignorante em uma coisa, não é uma condenação eterna, uma purgação, mas, ao contrário, é a chave da porta do saber.


Li agora mesmo numa revista que o “estado de saber empedernido e inflexível” é para tiranos e ignorantes. Nesse ponto, a compaixão alcança a estupidez e me dá a esperança de que o Brasil saia desse “estado estupidificante de pleno saber de tudo”, logo. Afinal, quem sabia alguma coisa sobre COVID19 há 2 anos? Quem sabia o que fazer com ela? Quem sabia uma fórmula salvadora que virasse vacina? Quem sabia como fazê-la? Ninguém. Todos erraram caminhando e batendo cabeça em todas as direções. Mas os cientistas tiveram a coragem de dizer “não sei” e isso não interromper a marcha, a busca, a obstinação em errar, dizer “não deu certo” e seguir tentando, 1, 2, 2 mil vezes – até conseguir saber.


O estado de ignorância é transitório, mas o de estupidez é permanente. Algo como um defeito de nascença que não se vê como defeito, tão defeituoso é. O estado de estupidez é incompreensivelmente orgulhoso e inflexível e, portanto, não discute – força a aceitação. E precisa de muita bajulação e bajuladores para sentir-se seguro daquilo que pensa ser e com medo de ser realmente aquilo que os olhos dos outros veem, quando a olham. A estupidez e seu par, o orgulho, são impiedosos na imposição de aceitação absoluta – não importa a adversidade. Então, se alguém morre a culpa é de quem morreu; quem morre atrapalha o sucesso do estúpido e seus bajuladores se esmeram mais e mais em camuflar a situação de expressão da estupidez para “receberem seus prêmios”: cargos, candidaturas, presentes, dinheiro, medalhas, medalhas, medalhas, enfeites. Confeitos que eles nunca se cansam de pedir e que o estúpido – o inseguro – precisa lhes dar para que eles garantam a imagem que ele vê ao espelho, mesmo sabendo que é falsa, mesmo sentindo que é falsa.


Em todos os inícios de ano temos essa luz da esperança que se acende e ilumina a estrada, não importa muito se o caminho está aberto ou obscuro e estéril. 2022 não fugirá à regra. Tenho esperança de que a ciência descubra caminhos e nunca tenha medo de dizer “não sei”. Ao contrário, tenho esperança que todos nós façamos isso e que essa geração mais nova perca o medo de dizer “eu sou ignorante nesse assunto”. “Não sei é a chave do sei”. Usem-na à vontade. Nas aulas, na universidade, na vida, com a namorad(a,o,x). DR (discutir relação) é uma descoberta onde as partes precisam de gratidão, bom senso, justiça e compaixão. Mas acerta o ponteiro da relação.


Aos estúpidos, minha busca de compaixão - quando muitas vezes não encontro em mim sequer paciência. Mas tenho também essa esperança de início de ano de que eles sejam tocados pela percepção de sua estupidez e que possam evoluir para o estado de ignorância, que é muito mais progressista e evoluído.


Na verdade, Deus nos dá tudo ao nos dar o espaço da descoberta. Quem acha que já descobriu tudo, que tem todas as respostas, que não vai se vacinar, nem vacinar seus filhos, está fora da sintonia divina. É tão imóvel que está morto. Como um morto-vivo, um zumbi. Quem está imóvel nada, enquanto todos se afogam; ri, enquanto todos tentam ajudar, organizar, prover os que sobreviveram.


Mas esse ano temos a esperança de re-fazer, re-agir, re-conhecer, re-avaliar, re-ver. Que isso nos dê um pouco mais de gratidão pelos tantos que precisam de nós e por aqueles outros tantos que “interrompem” férias, divertimentos, risadas e brincadeiras para ajudar, para estarem presentes. A nossa gratidão nos permite re-ver nossos conceitos e nos unir num só coletivo. Re-unir.


É forte isso. Brasil, minha esperança inteira vai pra você.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


No dia 6 de janeiro é o dia da gratidão. Dessa “coisa” tão difícil de aprender e de manter nas pessoas e em sociedade. Sentir-se grato. Não só pelo pão que nos dão quando o compramos, mas ser grato pelo invisível. Por ter nascido, por estar vivo, por ser saudável, por ser capaz, por ter trabalho, família, amigos, por acordar todos os dias, por chorar, rir, sentir-se feliz, triste, assistir um pássaro a voar, ver uma flor a desabrochar, sentir o vento, o sol, etc. Até aí todos vamos. Mas a partir daí, o exemplo dos povos orientais, principalmente dos budistas, é impressionante porque eles são muito mais maduros nesta coisa da gratidão. Não só agradecem por todas as coisas boas que sucedem nas suas vidas, como dão pouco valor ao que possuem, ao nível material, a esse status tão importante para outros. A importância da vida está associada a fazer o caminho e agradecer a todo o instante por isso. Mas o mais surpreendente é também serem gratos por tudo de menos bom, duro, difícil, que surge nas suas vidas. A espantosa magia de se sentir grato, pelas doenças, pelas dificuldades económicas, pela fome, pela exclusão, injustiça, etc.


Porque é que não ensinamos e preparamos os mais novos para esta sabedoria da vida, mais cedo? Também nós aprendemos isto muito tarde. Os que aprendemos.


Sermos gratos por nascer, pelo lugar onde vivemos, pela família onde nascemos, pela pessoa que somos, pelo que viemos fazer a este mundo. Gratidão não é um prêmio ou algo parado. É um ato de aceitação da realidade, de disponibilidade para a aprendizagem, de percepção do caminho que se veio fazer. De movimento interno e externo. Por que razão isto está acontecendo agora e acontecendo comigo? O que preciso aprender? Que caminho errado estou fazendo para receber este aviso? Como muitos budistas falam, sendo a vida um caminho até à montanha, que percalços, dificuldades, fantasias e alegrias me estão sendo colocadas? O que vim aqui fazer? Aprender. Isso é bom que todos tenhamos a noção cedo. Serei capaz de aprender tudo o que necessito? Ou ficarei parado em algum lugar do caminho, pela ganância, pela luxúria, o que seja?


Não é muito frequente as crianças, adolescentes e mesmo os adultos aprenderem a ser gratos. Infelizmente, muitos são educados, como se fossem o centro do mundo – “mimados” - ou sendo considerados um fardo. Nem meio termo, nem aprendizagens espirituais, emocionais, nem de gratidão ou compaixão. Nada. Como podemos ensinar se não o aprendemos também? Só muito mais velhos, muitas vezes já como idosos, percebemos o valor brutal da gratidão e desejamos com todas as forças aprender e ensinar todos. Mas, na maior parte das vezes, ficamos parecendo uns velhos babacas, desajustados do mundo e fracos, por não sermos mais competitivos – esse sim, o grande marco da civilização humana do século vinte e um.


Não fique com a ideia que se deve fazer uma festa de cada vez que lhe acontecem desgraças, derrotas, infelicidades. Não é isso. É a forma de enfrentar o que vem com alegria, energia e gratidão. Se vem para mim é por que é bom para mim. Como posso aprender com isso? Como posso me tornar melhor um pouco mais ao aceitar e aprender com o que me sucede de bom ou menos bom? Quem sabe não ficar cego nem demasiado vaidoso, quando tudo são sucessos e não me achar um verme quando a vida fica difícil. E saber que depois de um grande sofrimento, é quando estamos mais disponíveis para perceber tudo isto. E aceitar. E ser grato.


Dalai Lama, Sadhguru, Deepak Chopra, Papa Francisco, são líderes espirituais inquestionáveis, experiências vicariantes supremas a quem podemos recorrer, com quem podemos aprender, entre muitas outras coisas, a ser gratos. Discursos simples, honestos, lógicos, bondosos, tocantes. Além deles, todos vivemos perto de pessoas que têm em si uma sabedoria e uma forma de explicar essa sabedoria que nos toca e nos orienta o caminho. Pais, irmãos, tios, primos, vizinhos, amigos, seja qual for o lugar que essas pessoas ocupam na sua vida, preste bem atenção ao que falam, ao que pensam, na forma tranquila como falam, como enfrentam os problemas e as pessoas e momentos difíceis. Faça perguntas ou apenas ouça, veja, absorva.


Pessoas que não são gratas também são boas para indicar o caminho que devemos evitar. Infelizmente temos muitos exemplos públicos. Quase todas as pessoas que circulam pela política, nas mais variadas funções, se as observarmos bem, percebemos que seus níveis de gratidão são muito baixos, ou mesmo nulos. Os olhos e os sorrisos costumam denunciar a falta ou abundância de gratidão. Algumas até vão ficando mais feias esteticamente. Preste atenção. Nesse campo as palavras são mais enganadoras, mas a expressão facial não engana. Já alguma vez prestou atenção ao olhar de Dalai Lama? Do Papa Francisco? Dos sábios que o rodeiam? E já olhou os de pessoas que a gratidão nem “entra”? Preste atenção e se questione, absorva, aprenda. Em cada momento do caminho da vida, tem sempre algo a aprender. E ser grato.

Ana Santos, professora, jornalista

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