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CPI da Pandemia “Depoimento de Vítimas” Bug Sociedade


Foto retirada de g1.globo.com

PERDOA

A CPI praticamente acabou ontem e, com ela, finalmente nos vimos frente a frente ao que tentamos – e continuamos tentando – escapar durante esses dois anos: a face da dor e da morte. “Perdoem a cara amarrada, Perdoem a falta de abraço, Perdoem a falta de espaço, Os dias eram assim... “


Estivemos presos em casa, longe de todos, sem ver irmãos, parentes, amigos e vimos quem eram/são os amigos e familiares que desapareceram por morte, invalidez, egoísmo, falso moralismo, negacionismo, ignorância, agressividade, falsidade. Tanta coisa passou pelos nossos olhos.. mas não queríamos olhar frente a frente para a face da morte porque contra ela nada mais se pode fazer.


Minha mãe morreu pouco antes de tudo isso começar. Minha mamá portuguesa morreu exatamente 1 ano depois de minha mãe partir. Exatamente. E papá adoeceu de dor de perda, de luto, de saudade e mesmo tentando preencher os vazios, eles estavam/estão/permaneceram lá. “Perdoem por tantos perigos, Perdoem a falta de abrigo, Perdoem a falta de amigos, Os dias eram assim...”


Os dominós da corrupção foram caindo ao nosso redor, na pandemia e cada peça representa, um brasileiro a menos no mundo, um lutador de menos na luta para vermos este País - um grande País - se envergonhar de ludibriar o outro, rir do outro, lucrar com a morte do outro, vender a vida do outro, em troca de benefícios pra si. Perdão. São muitos perdões. Por ter como armas as palavras, enquanto enfrentamos pistolas, fuzis, palavrões, grosserias – mas eu ainda creio na força delas. Pela força que existe em acreditar – e eu acredito em todos os novos senadores que nos iluminaram dessa treva – sobretudo Randolfe – que já sabe qual é a sua missão nesta terra. “Perdoem a falta de folhas, Perdoem a falta de ar, Perdoem a falta de escolha, Os dias eram assim...” Perdão, mas tantas vezes tive medo de sair e adoecer e morrer e deixar de empunhar minhas letras como empunho. Perdão.


“E quando passarem a limpo, E quando cortarem os laços, E quando soltarem os cintos, Façam a festa por mim...” O dia do Brasil da vacina, que ganhou da morte, que comia solta. O dia em que os políticos vão ser colocados diante da desonra da história e os escolhidos – o grupo de senadores – poderão se rejubilar para que todos nós, os outros brasileiros sem nome importante, apenas trabalhadores, possamos todos nos perdoar por não ter feito nada além de chorar, sofrer, discutir, debater, escrever, provar dez mil vezes que a Terra já foi vista e é redonda, a vacina não mata, não transforma em jacaré. A VACINA SALVA! Perdão por ser tão tarde para tantos. 600 mil e tantos são os nossos quantos...


“Quando largarem a mágoa, Quando lavarem a alma, Quando lavarem a água, Lavem os olhos por mim...” Lavem os olhos por todos nós que derramamos muitas, inúmeras, incontáveis lágrimas pela nossa incompetência de reverter algo que foi friamente planejado para nos incapacitar. Que os políticos tenham pena de seu julgamento porque Deus os colocará num lugar onde o dinheiro não conta mais, o poder se esvaneceu, a covardia é visível e as mãos aparecem sujas com o nosso sangue, que é o sangue do povo que não conseguiu se defender da frieza, da maldade e do egoísmo de cada um dos que nos atacaram. Perdão pela falta de oxigênio, pela falta de ar que todos vimos e que quase não acreditamos ser possível viver num País que sabia dividir como era o nosso; pelo ar que daquele dia em diante não entrou mais da mesma forma em quem tem o coração brasileiro e não precisa de camisinhas amarelas pra se auto afirmar.


Quando tudo isso passar, um brasileiro de verdade vai reconstruir nossos cacos. Não importa quem. Ele precisa ser brasileiro e ser de verdade. Não um pervertido disfarçado de político – um brasileiro de verdade. E se fosse algo nascido de Randolfe, Adriano, Humberto, Simone, Rogério, Fabiano, Leila, Otto, Renan (quem diria), Adelaide, Jean Paul, Omar, Tasso, Eliziane? Os Avengers do Brasil? “Quando brotarem as flores, Quando crescerem as matas, Quando colherem os frutos.”


Digam o gosto pra mim... digam o gosto de viver sem medo. Digam o gosto de baixar as armas. Digam o gosto de ver os malfeitores perderem. Mas enquanto isso – perdão, por todos nós. Porque o gosto é de que ainda não foi suficiente e de que os senadores precisam continuar.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Dia 16 de outubro, foi o dia mundial da alimentação e tínhamos preparado o texto bug sociedade, para hoje, sobre esse tema tão importante nas nossas vidas.


Mas a sessão de ontem da CPI da Pandemia (Comissão Parlamentar de Inquérito do Covid19) foi demasiado importante para deixarmos de falar dela.


Já escrevemos sobre esta CPI. Mas precisamos falar de novo porque o Brasil parece estar a fazer história. Precisa fazer história. Parece estar a tentar enfrentar este modus vivendi dos espertos, calculistas, corruptos. Foi preciso uma pandemia. Uma pandemia sobre uma pandemia. Nada mais poderá ficar como estava, nem poderá ser igual ao que foi. A injustiça também precisa ter limites. E este poderia bem ser o momento de dizer “chega”!


Os que apenas querem saber de lutas partidárias, de brigas, de competição, de corrupção, de ter mais e mais, de ter mais do que os outros, de desejar mal às outras pessoas, de desconfiar do dinheiro que as pessoas de bem ganham com suor – talvez imaginando que todas as pessoas ganham dinheiro de forma corrupta, podem dizer que esta CPI “vai virar pizza”, “é um circo”, etc. Aprenderam a olhar a vida como uma escada de acumulação de cargos, de salários, de esquemas, de amigos influentes para conseguir vencer na vida. Tem muito disso por cá, por Portugal e por todos os países do mundo. Essas pessoas são frequentemente muito visíveis, barulhentas, espaçosas, lavadinhas, cheias de certezas, cheias de elegância, sabem as regras da luxúria sem piscar. Até fica a sensação que assim é que é.


A pandemia já seria suficiente para destruir famílias, futuros. Pela morte, pela incapacidade, pelas sequelas, pela pobreza, pela distância. Mas, em total desespero, quando você busca ajuda em hospitais, em planos de saúde, em médicos, em palavras sábias e consoladoras dos que deviam cuidar do seu povo e do seu país e só encontra engano, ilusão, tratamentos sem nexo nem comprovação, brigas e competições políticas, risos, falta de empatia, é tudo tão horrível, tão desumano que nem parece real.


Políticos precisam saber reconhecer que estão errados, saber parar, saber do que falam, saber recuar. Saber o impacto da sua função pública e profissional, o impacto do que afirmam e fazer disso algo bom. Meu Deus, parece que em cada 10, 8 vão para a política para fazer coisas erradas. Como isso é possível? Se não recuam perante a morte de pessoas inocentes, perante tudo o que acontece e aconteceu no Brasil, na pandemia, quando vão recuar? Que pessoas são estas que são nossos vereadores, deputados, senadores, ministros, presidentes? Quem esqueceu de lhes ensinar valores morais, valores sociais, valores humanos? Só interessa o dinheiro e o poder? Estudaram anos e anos, se dedicaram anos e anos para isso afinal? Para deixarem o povo à sua própria sorte? Afinal são brigas e teimosias? Um senador da CPI que sempre que fala, lê o mesmo texto? Sobre Cloroquina e cientistas com dois estudos que ganharam o prêmio Nobel da Paz? Em que planeta este senhor vive? Eu já sei o discurso dele de cor. Outro senador que só fala no Consórcio Nordeste? Outro que apenas fica vermelho e pretende briga? E outro que parece que está enfeitiçado ou apaixonado pelo presidente? Digo isso porque normalmente, as jovens adolescentes apaixonadas pelo primeiro namorado, costumam defendê-lo em todas as circunstâncias. Mesmo nas que ele não é correto com elas. “Ele não fez por mal”. Eles são cegos ou não querem ver? Mortes desnecessárias e devido a corrupção, erros, mentira, contêm dúvidas onde? Na cabeça de quem? O que há para discutir? Só quem está enfeitiçado mesmo. Que loucura, gente.


A educação é um problema muito grave neste país. Muito grave. E atinge graduados, licenciados, mestres e doutores. Não atinge só pessoas com baixa escolaridade. Aliás, pessoas com baixa escolaridade dão grandes exemplos de humanidade. Os valores humanos, morais e sociais estão despedaçados, esfarrapados, afogados. Tanto, tanto, que as pessoas pedem desculpa ou se sentem fazendo algo errado por serem honestas, empáticas, justas, solidárias.


Assusta muito saber todos os horrores, corrupções que se tornaram visíveis com a CPI, saber quantas mortes poderiam ter sido evitadas, saber que o sofrimento, a dor, a pobreza, aumentaram exponencialmente e os números públicos nunca serão capazes de dar a verdadeira realidade.


Todos erramos pela vida fora, mas os que erram e permanecem no erro, que erram e com isso provocam mortes, que a justiça divina tenha piedade deles. Porque se for verdade que cada um de nós vai pagar o que fez de errado...


Brasil, caixa de pandora com cheiro a pólvora. Pessoas de bem, precisam ser mais visíveis, mais ruidosas, precisam de ocupar mais espaço. Têm medo? Criem aliados, amigos, associem-se a outros como vocês. Os valores humanos, morais e sociais precisam ser reaprendidos na escola, precisam estar incluídos na avaliação escolar. Profundamente. Seriamente. Prioritariamente. São os alicerces de um povo, enquanto povo. Não enquanto um grupo de 200 milhões, dividido por cores, por classe social, por bairro onde vive, etc.


#CPIdaPandemia realiza audiência pública para ouvir depoimentos de vítimas da Covid-19 – 18/10/2021

https://www.youtube.com/watch?v=A-IzoUL9nAA

Ana Santos, professora, jornalista

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