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Conto “ZAP ZAP, UH!” e Conto “Sem saída”


Conto “ZAP ZAP, UH!”


De manhã cedo, a vibração do celular em cima da mesinha de cabeceira lembrava um vibrador nada erótico. BRR – “Bom dia e que os pássaros tragam flores para a sua manhã”; BRR – “Confúcio disse”... BRR – “PQP, eu sou um preto de direita”!


Essa não deu. Tinha que dar uma resposta e a qualquer hora, qualquer lugar.


- Jesus, o que é que você acha, sonha, pensa que eu tenho a ver com isso?

- Quero que dezembro seja o mês da consciência branca!

- Ahn?


Nem deu tempo dela se recompor e já levou outra por cima: um vídeo de um hétero totalmente idiota, fingindo que era gay e que, com uma garrafinha na mão, desmunhecava e propunha a compra do líquido para a sua suposta “cura gay”. Aí foi demais:


- Mas esse mau gosto total de manhã cedo, só pode ser algum ódio pessoal dedicado a mim! Leva isso aí pro Pé Sujo que você frequenta quando “come água com a sua turma” porque nem todos são assim, eu garanto!


Essa pessoa, que acorda bem cedo e “abastece o nosso celular de mau gosto matinal” não é sozinha no mundo. Não. Ela existe na vida de todos. Também não é a pessoa com quem se pode usar justificativas de falta de estudo ou escola, dinheiro ou influência. Tinha dinheiro, era influente, com amigos influentes. E só. Não ia além disso. Via dois tipos de mulher: a que ele queria cantar e a que ele tratava como homem.


Será que ele via pessoas na sua frente? Será que seria capaz de reconhecer outros seres machos como ele em ação, na órbita de sua filha, por exemplo? O que ele faria, nesse caso? Será que as mulheres ainda precisam relacionar emocionalmente o ser feminino com filhas e parentes próximos para que alguns homens as vejam como pessoas que precisam ser respeitadas? Como pessoas, pelo menos – é pedir demais?


E assim, o final do mês da consciência negra acabou virando mais um dia da mulher – aquela que já está tão cansada da mesma conversa que não tem mais paciência nenhuma pra “papo macho”, seja qual for o tema.


Os homens estão em polvorosa porque, enquanto eles nitidamente estão perdidos na direção do mundo, estamos subindo a ladeira e bem rapidinho. Nós todas, juntas! Aqui e no mundo! Nós somos Greta, nós somos Marina, nós somos muito e cada vez mais nós! E abusando do baianês, ela respondeu:


- Você supera viu? Mas não me mande mais nada assim! Que homem "descompreendido", meu Deus! Nunca mais, nunquinha! Mau gosto de macho é uma coisa insuperável pra mim! Tchau e bença, viu? Eu, hein?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Sem saída”

Ana vê o mundo ruir à sua volta e em si. O tempo para si é sem medida. Parece que está assim há séculos e séculos. E séculos. As pessoas movem-se por dias, por horas, segundos. Não consegue conectar com as pessoas, talvez seja por isso.


Todas as portas que tentou abrir na vida, estavam fechadas à chave. Com aquelas lindas chaves antigas, grandes, poderosas. Tentou as janelas, mas nem as encontrava. Talvez as casas afinal nem tivessem janelas. Depois começou a procurar as brechas nas paredes. Dizem que deve estar atenta porque um dia pode ver uma luz surgir das paredes e é por aí que precisa fugir, ir, sair. E não pode estar distraída porque se perde a oportunidade, perde. Não sabe o que perde, mas dizem que perde. Também não sabe o que é perder, ela que nunca teve nada.


Talvez a vida seja como aquele dia do carro. Era bem pequenina, ia atrás com outra menina pequenina. Ou menino, já não lembra bem. O carro de repente estava parado, em frente a uma árvore “mole”, com as rodas da frente quase no ar. Com uma grande encosta em frente. Na montanha. A estrada tinha gelo e numa curva o carro deslizou e uma árvore o impediu de cair. Via e ouvia homens falando para a sua tia, mas não entendia o que falavam. Pela cara e nervosismo da sua tia percebeu que estava acontecendo algo diferente dos dias de sempre. Para ela era apenas mais um dia, com coisas diferentes. Ela não entendia bem se eram coisas perigosas, raras, comuns, ou fáceis. As expressões faciais eram diferentes. As palavras eram iguais. Sua tia foi convencida a entrar no carro e dar ré para tirar o carro dali.


Só passado 50 anos é que entendeu aquele momento da vida.


Quantos anos ou séculos vai demorar para ela entender este momento em que tudo foge, tudo escapa? Não é um carro que deslizou da estrada contra uma árvore, mas é a vida rodando, escorregando, recusando. Precisa ganhar coragem para “entrar nesse carro para dar ré”, mas desta vez não tem carro, não tem ré, não tem homens falando. Tem a vida seguindo, todos fazendo as suas rotinas, cumprindo seus horários, suas tarefas. Ela tem o vazio e o silêncio das paredes que não mostram brechas de luz. Parece que está dentro daquele carro e ele está se movimentando, a árvore parece ceder.


Há tanto tempo na vida e ninguém a entende. E olha que ela mal falou o que existe dentro de si, o que sabe, o que sente, o que vê. Deixa pra lá...é assim desde menina. Não tem mais jeito não.


Quando era menina, na praia, fazia castelos de areia e quando alguém os destruía, ela não dizia nada. Sorria até. As pessoas não entendiam, porque aquela criança em vez de chorar ou gritar como as outras, sorria. É que ela pensava sempre:

“ - destruam que eu construo de novo. Não tem mal não.”

Tinha uma energia sem fim, uma vontade de fazer e refazer interminável. Tinha. Ainda tem?


“ - Ana, o que tu está fazendo parada, calada, em frente a essa parede, filha? Estudou tudo o que a professora pediu?”

“ – Sim , sim...era uma ficha de leitura sobre a gravidade...”

Ana Santos, professora, jornalista

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