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“COMO SE UNE UM PAÍS?” Bug Sociedade


Que pergunta, essa. Mas o Brasil é fogo pra inventar nomes que “fogem” um pouco da verdade. A distorcem. Um País que nos ensina na escola que foi descoberto, quando na verdade foi invadido; que não foi exatamente colonizado, como dizem e disseram, mas explorado; que não tem democracia racial nenhuma e tenta esquecer que a nossa mestiçagem se originou da quantidade enorme de estupros e abusos infringidos às nossas antecessoras negras e indígenas. Este País, é o mesmo País onde no dia 7 de setembro de 2021 está-se querendo impingir que só quem estiver bradando na rua é brasileiro de verdade.


Honestamente, eu não vou colocar nem meu nariz no portão de casa. Um 7 de setembro de ameaça, é o mesmo 7 de setembro “meio falsificado” onde Dom Pedro I tira a espada, dá o grito, tal e tal, mas deixa a guerra solta, a luta aberta, os mortos, os escravos que queriam alforria e que por ela entraram de peito aberto numa briga que transcorreu na Bahia e que acabou em 2 de julho de 1823, ou seja, quase um ano depois da data imaginária festejada.


Amanhã, na Esplanada, na vida real tem indígenas de todas as etnias clamando para que seja declarado o que todos sabemos – a terra que sempre teve o mesmo dono, não pode precisar de certidão alguma, já que os civilizados são os ladrões verdadeiros e os “ditos selvagens” dão aulas de postura ética.


O Brasil é assim – tem a vida real separada da história.


Na vida real, as negras criaram armadilhas feministas para idiotas machistas – prometeram sexo e deram urtiga da braba. No repertório fantástico, ninguém nem fala da atuação delas e de como enfraqueceram o exército português. Talvez por isso, sendo mulher e brasileira, se seja confundida facilmente com mulher fácil. Mas não foi, nem é nada fácil ser mulher no Brasil dos “imbrocháveis”, dos super heróis que certamente entrarão para a história dos desmandos – onde não há espaço para direita e esquerda porque só há miséria.


Nessa data imaginária, mas festiva, o 7 de setembro de 2021, quem quiser que fique com esse País imaginário que está sendo invadido por inimigos imaginários, cujo objetivo é atacar a democracia imaginariamente ameaçada, por agentes bélicos imaginários – isso parece hospitalar e é hospitalar mesmo. Hospitalar e psiquiátrico, claro. O que não é hospitalar, é um problema mais grave ainda – a ignorância de quem é enganosamente empurrado para essa comemoração – também imaginária porque não há fatos concretos a serem comemorados.


Olhem ao redor, no mercado. O que há de Pátria imaculada num lugar onde ninguém se aproxima da geladeira de carnes? Um lugar que coloca alarmes antirroubo num isopor com bifes? Olhem ao redor: em quê, um 7 de setembro de passeatas, com pessoas defendendo nossa imaginária liberdade ameaçada, combina com quase 600 mil mortos e ninguém do poder executivo olhando para o que pode acontecer com a variante Delta? Ninguém repetindo exaustivamente que precisamos de máscaras, ao invés de festas? Olhem ao redor: Nesse País feliz que precisa ser defendido ferozmente desse ataque fantasiosamente insólito, alguém reparou que a população de miseráveis não para de aumentar? Que não tem comida pra todo mundo?


O Brasil é fogo pra inventar nomes e coisas que “fogem” da verdade...


Houve um Presidente do Brasil que em sua fantasia de inteligência emocional “marca imatura”, nos pediu para irmos pra rua de verde e amarelo. Ele dizia “Colloridos” – me lembro exatamente da marca. Na vida real, foi premiado com o realismo absoluto de uma multidão de pessoas vestidas de preto. E caiu, como uma jaca podre, fazendo aquela “pose de falso chique” por estar sendo “injustiçado”. Tudo imaginário.


Há milhões de brasileiros que não vão dar o gosto da luta armada e da baderna nesse 7 de setembro de 2021. Como as mulheres negras, cheias de baianidade, vamos oferecer a isca do silêncio. Mas nosso coração está de luto porque esse Brasil não permite união alguma, essa verdade não existe, não existe progresso, não existe País progressista, não existe economia desenvolvimentista, não existe educação que consiga pelo menos unir os alunos “ditos” normais, dos especiais só porque o ministro da educação tem uma visão “fantasiosa” do que significa educar.


“Um País se une com Homens e livros” – parodiando a Monteiro Lobato. Não existe ainda esse Brasil real. Imaginariamente, muitos homens imaturos já criaram, mas partindo de quem somos, fomos invadidos, explorados, escravizados, estuprados, ofendidos e nada disso nos impediu de teimosamente não fazer, não ser, não admitir, não obedecer. Portanto, realisticamente, teimosamente, nacionalmente, amanhã verei uma porção de gente “fantasiada” de brasileiro, na rua. Mas o “fantasiado” é importante e não se pode esquecer porque a realidade é que os brasileiros não “fogem da luta, mesmo quando a luta é o silêncio absoluto do desprezo”.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Quando acontece uma briga sempre precisamos ouvir os dois lados. Sempre precisamos entender quais são os fatos. Ouvir o ponto de vista de cada um. Ouvir testemunhas. Tentar entender por onde estará a solução. Com fake news por todo o lado isso virou algo mais difícil, onde é necessário caminhar com muito cuidado.


Ajuda muito confrontar pontos de vista. Civilizadamente. Pedir a colaboração de ambos os lados para a resolução do problema. Mas é importante que, ambos os lados “baixem a guarda”. Deixem de insistir no conflito, deixem de incendiar o problema, recuem, abrandem, desistam de fazer esse caminho. Passem a tentar solucionar. Por vezes, ambos baixam a guarda. Por vezes, só um lado o faz. Outras vezes, ninguém baixa a guarda.


Precisamos entender qual é o interesse em manter a briga, em criar briga. Onde está o objetivo? Porquê e para quê? Que riquezas estão implícitas? A fome de poder leva até onde a vontade de destruir? A vaidade, ganância, cegueira, frustração abrem que portas?


Basta um lado não baixar a guarda e seguir em frente esmagando tudo e todos, se considerando a razão, para estarmos perante um enorme problema. O problema de parar essa destruição. Ela atinge os mais fracos e mais frágeis que nem uma bomba. Não basta um, nem dois, nem três organismos, instituições, ou pessoas para a solução. Precisa ser ativada, dentro de cada um, uma espécie de articulação, de aliança, de desapego e entrega. Mudança de foco. Foco no que é mais importante, mais saudável, mais equitativo, mais justo. Até nas pequeninas coisas. Envolve muitas pessoas. Envolve a coragem de não mais olhar para o lado fazendo de conta que não sabe ou que não lhe interessa, não mais pensar só em si, não mais se dar bem à custa de outros, não mais explorar os mais frágeis, os mais desamparados. Não mais.


A tarefa de fazer entender a realidade “despedaçante” a quem concorda ou concordava, mas não tem coragem de recuar. Essas pessoas podem ajudar muito se apenas recuarem e reconhecerem que os resultados não são bons para ninguém e que, pela vida de todos, aceitam ajudar. Todos nos enganamos. E todos precisamos aprender a reconhecer que erramos.


Não é preciso mudar de lado. Na verdade isso é muito redutor, essa coisa de lados. A vida não é uma partida de futebol. Talvez seja mais a travessia num rio onde cada um merece ter um barco, remos e o mínimo para sobreviver. Em momentos de dificuldade, de correntes, ter apoio. Poder dar apoio a outros com o seu conhecimento.


“Houston, temos um problema”. Precisamos saber dizer o que pensamos. Precisamos entender o mundo como um lugar para todos. Precisamos diminuir a ganância. Precisamos ser verdadeiros, justos, honestos, ponderados, sensatos, leais, incluindo os líderes. Precisamos saber escolher, saber tomar decisões, reconhecer erros, saber recomeçar, ter opinião própria e saber justificar. Aprender algo todos os dias, ler algo novo todos os dias, discutir como uma ferramenta de aprendizagem e não de discórdia. Não ser neutro. Não ser do grupo do “tanto faz” ou do grupo dos “que concordam com tudo, mesmo sem saber o que se discute ou decide”.


211 milhões que precisam de soluções. Como você uniria um país?

Ana Santos, professora, jornalista

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