top of page
Buscar
  • Foto do escritorportalbuglatino

“COMEÇOU O JULGAMENTO DE DANIEL ALVES” e “Salve Amizade” Bug Sociedade


'O Menino Azul', de Thomas Gainsborough

“COMEÇOU O JULGAMENTO DE DANIEL ALVES” Bug Sociedade

Depois de um estupro, sua vida seria a mesma? Os homens nem pensam nisso porque são eles os estupradores, mesmo quando os estuprados são homens.

São notícias que não comentamos, que parecem fazer parte de um tipo de rotina macabra pra qual fomos obrigadas a nos acostumar, mas na semana em que o julgamento do Daniel Alves se inicia e que lá dentro de mim, eu me pergunto o que foi feito do Robinho ou como uma menina que estava tendo apenas uma relação casual com um jogador, tem uma hemorragia tão grave que a leva a morte e ele nem percebeu até que ela perdeu os sentidos.

Meu gênero é feminino, eu nunca vou saber, mas um homem, penetrando uma mulher, não tem percepção nenhuma, nenhum sentido funciona? Uma hemorragia provoca aumento da temperatura, o cheiro do sangue, aumento da umidade, ausência de resposta corporal, já que a pessoa está desfalecendo – e ele não reparou em nada? Algo como não “reparei que ela tinha retocado o cabelo”? Você manter relações sexuais com uma pessoa que está morrendo, é comparável com o quê em termos de sensação?

O que é um homem? Um homem é um ser que diz que vai salvar as mulheres e seus filhos ao abominar o aborto com os braços cruzados sobre o peito, cheio de moral e que não consegue perceber que a pessoa com quem está transando está se esvaindo em sangue?

O que o gênero masculino quer nos dizer com isso?

Há um professor que diz que o pensamento da mulher é intercomunicante, enquanto o do homem armazena “caixas independentes” e que não se comunicam entre si. Há estudos que mostram que o pensamento do homem é factual enquanto o da mulher é processual, envolvendo emoções e empatia. O que isso quer dizer na prática? Que um macho desse tipo precisa apenas de um orifício e que os sentimentos atrapalham?

No julgamento, um dos testemunhos mais marcantes afirma que Daniel Alves disse: “quero que você seja minha putinha” – antes de estuprar a garota.

Pela Graça Divina, ninguém lhe viu o rosto, está protegida pela lei da Espanha. Mas qual o significado emocional de uma pessoa de qualquer gênero ouvir essa frase acima, antes de ser violentada? Não parece óbvio que deixa marcas indeléveis? Então porque os machos – porque não são homens – insistem em repetir isso – e depois, claro – comentarem entre si? Por quê as pessoas do gênero masculino não começam a discordar, a nos defender dessa barbaridade? Dessa desumanidade?

O dinheiro faz com que os jogadores de futebol sejam afetados pela ilusão do poder? O gênero masculino é afetado pelo poder? O atraso emocional do gênero masculino pode ser medido dessa forma, entre inúmeras outras?

Quando eu vejo no Instagram tantos homens falando o que é permitido ou não para as mulheres do seu ponto de vista, devo sentir pena, nojo ou horror? Como esse tipo de pessoa pode se achar capaz de discernir melhor do que eu o que é melhor pra mim?

O julgamento do Daniel Alves começou, mas a justiça do Brasil precisa começar a me apresentar o cumprimento da pena “dos outros” - e são muitos. A vergonha de assistir a esse tipo de inação parece não afetar os homens, mas percebam – afeta sobremaneira às mulheres.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Salve Amizade” Bug Sociedade

Joni Mitchell canta na sua linda e eterna canção “Both Sides Now”: “Tantas coisas eu teria feito, mas as nuvens ficaram no meu caminho. (...) Eu realmente não sei nada sobre a vida.” Esta canção tem uma letra fabulosa. Vou me deter em duas coisas apenas. Uma, a sensação ou ilusão que temos de que a vida nos impediu de fazer algo. Quem dera que fosse a “vida”, quando afinal são nossas crenças, medos e inseguranças. A segunda, a de que não sabemos nada da vida. Não sabemos, vivamos 20, 100 ou 200 anos, nunca saberemos nada da vida.

Miley Cyrus, na entrega dos Grammy’s neste domingo, dia 4 de fevereiro de 2024, contou a história de “um menino que queria muito uma borboleta. Seus pais lhe deram uma rede de apanhar borboletas. Ele tentou, tentou e tentou, mas não conseguia apanhar uma única borboleta. Resolveu sentar, descansar, aceitar que talvez não fosse possível conseguir essa borboleta tão desejada. E, foi nesse preciso momento, que uma borboleta veio pousar no seu nariz”. Miley contou esta história e no final falou que a canção premiada dela “Flowers” era a sua “borboleta”. Bonito isso. E a letra desta canção, apesar de simples, também é muito significativa, já que fala de que quando sofremos por perdas amorosas talvez fosse mais importante pensar que o maior amor de todos, é o amor a nós próprios – afinal somos capazes de “comprar flores, escrever nosso nome na areia da praia, falar sozinhas por horas, dizer coisas que os outros não entendem, dançar, segurar a nossa própria mão.” E isto serve para o amor, para a família, para os amigos, para todos em nossa volta.

Na canção “Stand By Me”, de Benny King, ouvimos “não terei medo, se estiveres comigo”. Amizade, esse conceito, esse valor, essa relíquia. Alguns especialistas afirmam mesmo que cada um de nós tem, no máximo, 5 amigos íntimos na vida. No máximo. Robin Dunbar, professor de antropologia, criou o “número de Dunbar”, que significa que “o cérebro humano só é capaz de administrar um máximo de 150 amigos nas redes de relacionamento disponíveis na internet.” Aristóteles afirmou que existem 3 tipos de amizade – “a amizade baseada na utilidade, no prazer ou no caráter”. É muito raro termos amigos baseados no caráter. E parece que as amizades em maior quantidade são baseadas na utilidade e no prazer. Muitos consideram que não existe amizade baseada na utilidade, mas especialistas afirmam que se as duas partes desenvolvem essa amizade pelo mesmo objetivo, está tudo certo. O grande problema é quando você é amigo de alguém pelo prazer de viajarem juntos, por exemplo, e percebe que essa pessoa é sua amiga apenas para viajar sem pagar. Isto é, quando cada um tem objetivos diferentes na relação de amizade e alguém se sente explorado – a amizade para você é de prazer ou até de caráter e para a outra pessoa, pura utilidade. Talvez isto defina as relações de amizade que perduram e as que não perduram. As que são saudáveis e as que não são. Em qualquer meio, com qualquer pessoa.

Nuvens no caminho? Sigamos mesmo que o que vem não esteja tão nítido quanto a gente gostava. Não sabemos nada da vida e ok. Mas fazer o melhor que podemos com o que temos é obrigação de todos. Dar tempo para as borboletas pousarem no nosso nariz é bom. Muito necessário por vezes. A pessoa que mais devemos amar na vida – o nosso Eu. Aprender a diferença entre amizade utilitária, de prazer ou de caráter pode nos salvar. Salve-se.

Ana Santos, professora, jornalista

94 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page