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“A DISCÓRDIA, A FALTA DE COMUNICAÇÃO E O DISCORD” Bug Sociedade


Fotografia de Isabel Muñoz, Oriental Arquitectura, 1992

“A DISCÓRDIA, A FALTA DE COMUNICAÇÃO E O DISCORD” Bug Sociedade

São tempos estranhos. E sinto que as famílias ainda não entenderam tudo o que precisam. Há um antigamente de poucos anos atrás, os pais agradeciam a Deus quando o dia se encerrava e toda a família estava em casa, com espaço pra cada um cuidar da sua vida: meninos e meninas nos seus quartos, se quisessem, adultos na TV ou cada um usando a internet de casa “de boa”. Não é mais assim. Quando os mais jovens chegam em casa e fecham as portas dos quartos, a preocupação precisa aumentar. Seu filho pode estar sob ataque de gangues que atacam sexual e criminalmente, conseguindo coagir meninos a cometerem crueldades contra si, contra animais, contra outros meninos.

Não me parece que os pais estejam prontos para enfrentarem frontalmente o problema, mas isso não pode impedi-los de falar sobre o assunto, de criarem um espaço de pesquisa conjunta na rede, por exemplo.

O fato é que o assédio e a tentativa de coação contra as nossas crianças precisam ser compartilhados num ambiente de confiança – e isso começa ao abrirmos espaços para conversas francas. Tem que falar sobre a possibilidade de estupro? Tem. Sobre a possibilidade de que lhe peçam para se auto infligir mutilações? Sim. Sobre a indução para o cometimento de crueldades contra animais? Tem. Tentativas de homicídio contra moradores de rua? Também. Tem que falar como é a abordagem e como se defender dela? Tem - e a melhor forma é conversando com os pais, responsáveis ou professores. Vai dar vergonha de falar? Talvez. Mas aí cada pessoa vai forçar a sua própria barra pra se abrir. Escolha bem a pessoa, mas não espere; são bandidos. Você não tem chances de se defender sozinho.

Os pais saberão exatamente o que fazer? Acho que não, isso é muito novo, terrível e inesperado. Mas juntos vocês vão estar certamente mais fortes contra o abuso verbal e as ameaças, podem chamar a polícia juntos, gravar as conversas sob orientação técnica. O que não pode, é o que está acontecendo: a porta do quarto se fecha e seu filho cai numa armadilha onde a extrema crueldade é o comum, é o trivial. Muitos meninos não aguentam e se suicidam. Muitos não aguentam e cedem o controle da sua vida a esses bandidos.

Falem sobre o assunto, apontem a situação, se alguém na escola te colocou nesse grupo, quem foi, como você chegou a esse lugar. Falar com alguém da sua confiança que seja adulto é muito importante.

Aos pais: Não percam um segundo julgando seus filhos. Não dá tempo de reclamar deles e ajudá-los. Peça ajuda profissional, se se desequilibrar. A TV vem dando ênfase ao que acontece com as crianças porque é bárbaro. Bárbaro. Mas o importante é que os pais precisam se colocar à disposição para essa conversa, não importa o quão difícil ela seja. Não esperem o menino tocar no assunto. Reúna a família e inicie o assunto. Quem segue o Bug sabe: fale do problema logo, pra iniciar. – “Fiquei muito preocupado com a matéria do Fantástico e quero conversar sobre isso”. Simples assim. Não fiquem esperando alguém tomar a iniciativa. Levem o assunto para a escola; ele tem que fazer parte da conversa do dia a dia, como não reagir a assalto, por exemplo. As crianças estão entrando totalmente ignorantes e ingênuas naqueles charcos virtuais onde você se atola e não tem como sair sem se machucar - e muito.

É difícil e parece melhor deixar quieto. Mas não é, entenda bem. Seu menino certamente vai sofrer muito dentro desse ambiente de crueldade virtual. Esteja à disposição dele para salvá-lo.

Não saber tudo sobre o assunto não tem importância, se todos em casa estiverem à disposição uns dos outros. Cuidem-se. Falem. Não se percam porque o amor pode ser expressado sob forma de atenção. Amem-se.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“Socorro Obama, agora é o Discord” Bug Sociedade

Numa entrevista neste sábado, Barack Obama, lembra que não existem lados, o mundo não se vive por lados. As pessoas podem e devem viver em comunidade apesar de opiniões opostas. Visões políticas diferentes não impedem as pessoas de se relacionarem e se entenderem. “Quem se informa apenas em canais de TV, jornais ou redes sociais de um “lado” ou pela opinião dos amigos, verá um mundo muito diferente de quem se informa em jornais e telejornais fiáveis, independentemente do “lado”, na apresentação de fatos”. O problema é que “quando uns ouvem os fatos verdadeiros e outros ouvem fatos falsos ou manipulados – repetidamente - isto cria diferenças fundamentais na visão da realidade”. Também diz que em situações de estresse – e as pessoas estão em estresse permanente com guerras, tempestades, desigualdade, diminuição de qualidade de vida – “temos tendência para ficar mais próximos às opiniões dos nossos grupos de referência – de raça, de ideologia, de religião, de gênero, etc, dividindo-nos perigosamente e criando espaços para manipuladores – sejam políticos ou outros – facilmente controlarem opiniões, ações, pensamentos das populações, principalmente dos mais frágeis.” Depois de ouvir Barack Obama e de assistir horrorizada e muito preocupada à reportagem do Fantástico sobre o Aplicativo Discord, acho que precisamos entender como facilitamos, enquanto sociedade doente e desequilibrada, o surgimento destes adultos jovens – de 20 anos - maquiavélicos, manipuladores, estupradores, agressores, criminosos, agressores horrendos de moradores de rua, planejadores de ataques a escolas, colaboradores do tráfico de droga e tudo o que de mais horrível e tenebroso um ser humano pode fazer – entenda que eles se organizam e fazem isto tudo, tipo combo horrível. A reportagem fala que muitos começam por jogar na internet e que depois passam a fazer parte dos grupos de fundamentalistas que vagueiam por lá. O resto é inacreditável, extremamente preocupante e assustador. A internet dá a ideia de que tudo é possível a seres humanos que também não aceitam as regras na vida fora da sociedade. Penso que, por exemplo, quando amas literatura, utilizas a internet para ler mais literatura, não me parece que quem seja boa pessoa – genuinamente boa pessoa – se torne um criminoso na internet. Mas que a internet, sem controle, fiscalização, leis, limites, dá espaço a mentes desequilibradas, sabemos que é verdade. E as pessoas precisam ser fiscalizadas, na internet ou fora dela. Sem essa fiscalização, as pessoas criminosas sentem-se com espaço para aprofundar as suas ideias absurdas e horripilantes para passar seu tempo, viver a vida. Basta assistir à reportagem do Fantástico para perceber que o nível de maldade e loucura está solto...

Barack Obama também veio lembrar que “apesar do mundo dizer que existem cada vez menos problemas em relação à raça e ao gênero, percebe-se bastante nervosismo, “aqui e ali”, quando uma pessoa negra ou uma mulher chegam a lugares de poder e destaque, ou não se deixam influenciar pelas opiniões de ninguém”. É que a sociedade tenta fazer de conta que tudo está melhorando, mas, os homens que não sabem dividir o poder e os espaços com mulheres, com a população que não tenha cor de pele branca e com a população lgbtqia+, não deixam avançar. Não nos bastam os homens que aceitam dividir os espaços, precisamos mudar o pensamento dos outros.

Finalmente, lembra que “num mundo atualmente tão pouco equitativo e com tanta concentração de riqueza é muito difícil equilibrar as democracias, e isso é muito preocupante.” Dá o exemplo chocante que todos nos demos conta, da diferença entre a enorme preocupação e acompanhamento midiático com os tripulantes milionários do submarino que implodiu e do pouco interesse, preocupação e acompanhamento midiático com mais 700 de migrantes num barco, no mediterrâneo, sendo “explorados”, na busca desesperada por um lugar melhor para viver e pedindo ajuda internacional. “Levar a sério a manutenção de vidas economicamente estáveis, a criação de etapas de oportunidade e uma internet segura” são, segundo Obama, formas de manter as democracias saudáveis, porque mantem as pessoas felizes, seguras e estáveis.” Caramba, somos tão complexos, teimosos, problemáticos. E isso misturado com muita vaidade está dando maus resultados. Era bom que todas estas gostosuras e festas de São João ajudassem. Não entendo como somos capazes de fazer tanta coisa errada, sabendo que é errado. Só mesmo Barack Obama para me manter a esperança, como se suas palavras fossem uma fatia de “bom bocado”, no meio de um alerta doce sobre a velocidade com que o tempo passa, nesta lendária canção de Willie Nelson, “Funny How Time Slips Away”(engraçado como o tempo passa depressa).

Ana Santos, professora, jornalista

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