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3 Contos de prisões, felicidades e ajudas


Conto “PRISÃO”

Olhava ao redor das grades de sua vida – como havia chegado ali? Olhava o vazio das perspectivas. Olhava. Quando uma soma vira subtração, quando a tabuada só lhe tira, a resposta talvez comece com um olhar amplo e definitivo sobre uma prisão vazia de palavras.


Os vazios de palavras costumam ser sólidos pra ela, que as conhece, ama-as todas. Engraçado que o silêncio a leva às palavras que ouvia, em pequena: “gorducha do pai”. Foram tão fortes e amorosas aquelas palavras que ela tinha se mantido gorducha a sua vida inteira. Ser gorducha era uma forma de amar e de amor. A tristeza era magra. E com a vida queria mesmo sorrir e ser feliz.


Naquele momento olhava a vida e se sentia presa nela. Não estava feliz. Não via nada de feliz naquela vida. Mas não era sempre assim. Por incrível que fosse, o inferno do silêncio se fazia em torno de um alguém. Um só. As palavras – raras – acusavam de alguma coisa. A chuva, a doença, a entrega, a voz que subia, a palavra dedicada ou carinhosa – qualquer coisa levava ao mesmo resultado. A prisão era assim.


Quem culpava - ela analisava – usava a culpa que lhe lançava para se livrar da sua própria culpa, quem sabe? Observava e fazia articulações porque nada lhe restava além do silêncio que a arremessava ao encontro de mais pensamentos e análises.


Teria sido assim que os grandes prisioneiros da história conseguiram sua libertação mental? Mandela? Mujica? Algum dia ela obteria a sabedoria nascida do absoluto silêncio? Sidharta? Algum dia usaria as palavras e os gestos para o exercício perfeito da inação? Quando o silêncio te habita, não é lógico se agarrar às palavras?


Olhava.


O mau tempo não garantiria sequer que haveria água. Ou luz. O problema das energias limpas é que se precisa cuidar delas e aqui ninguém pensa na chuva. Até que ela não cai. Até que os reservatórios sequem. Seus olhos estavam secos como os reservatórios. Tudo sem chuva e sem lágrimas. Secos.


Olhava.


Haveria um tempo onde tudo ficaria claro ou, como Cassandra, ao tentar ajudar com seus poderes, obteria apenas descrédito, mesmo sabendo o futuro? Quem sabe...


Olhou mais uma vez ao redor, levantou-se e pendurou peça por peça na corda, sentindo cada momento de prazer ao ser útil. O cheirinho de roupa lavada inundou a garagem, ela admirou a obra, piscou e voltou à escrita, ao silêncio e à prisão.


Mas, vida vazia não era bem com ela. Vida que segue no silêncio incontável dos dias e das noites e das tardes e madrugadas. Vida que segue com o teclado como companhia das palavras. Inúmeras.


Vida que segue no silêncio. Na prisão.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV



Conto “Sê feliz…”


Os dias corriam normalmente, sem sobressaltos ou grandes surpresas. Planeava-se a vidinha a cada dia e as rotinas sobrepunham-se às nossas vontades. Tudo era reconhecido e legitimado por uma “força maior” que nos molda a seu belo prazer.


Tudo patenteava um sabor a pão rijo, a vinho azedo e refeição requentada, as escolhas uma privação contínua e o ânimo rareava a cada minuto. Era assim que grande parte dos nossos dias era orientado, conduzidos num corre-corre que nos consumia lentamente e sem estima.


Nos dias mais “negros” a saída era vagarosa e as forças escasseavam aos primeiros passos.


As despedidas do início da manhã eram, quase sempre, gestos reproduzidos friamente, circunstâncias tristemente antecipadas qual pronuncio de “morte”.


E sentíamos saudade dos tempos em que eramos reis e senhores, dos dias que vagarosa e sorridentemente nos acolhiam num caloroso e tranquilo despertar. Os dias sem fim, que pela manhã partilhávamos alegremente na companhia de umas torradas lentamente confeccionadas sobre as brasas, enquanto um fio de café escorria pausadamente do seu “saco”.


Eram estes os dias dum tempo que esgotávamos até à última gota de suor, até o corpo dizer “BASTA!”, e desfalecermos sobre a erva fresca sob o céu azul de Primavera. E adormecidos pelos aromas da natureza que se entranhavam no corpo e na mente, repousávamos saciados por cada minuto vivido.


Inocentes julgávamos ser este nosso destino, eterno e imutável. Repleto das coisas mais simples e ingénuas, sem mágoas ou perdão, sem cerimónias ou pudor.


E um dia… após um carinhoso e suave beijo, a “rainha” das nossas vidas lá nos alertava para não nos esquecermos de nós, porque a vida tinha também outros matizes.


Durante um firme e terno abraço, percebíamos afinal que a vida era a torrada que distraidamente deixávamos queimar sobre as brasas quentes, mas que não conseguiríamos recuperar com uma raspagem ligeira.


“Aproveita, sê feliz enquanto podes! Chegarão os dias sem escolhas!”, ouvíamos repetidamente.


E à noite, num quarto perfumado com o aroma das maçãs que repousavam sob a cama, aquelas palavras ecoavam nas nossas cabeças. Não nos tiravam o sono, que a VIDA tinha sido bem espremida, mas misturavam-se com todas as emoções, e vinha à memória a última gota de café que repousaria na “chocolateira” de barro enegrecido.


Aquela que demorada, mas serenamente aguardávamos para saborear o seu gosto, acompanhado com uma reluzente torrada de centeio, e que agora se afigurava uma metáfora inquietante. Como dias sem escolhas?


Torrada com manteiga, dourada, escurecida ou seca, será sempre nossa a vontade, mesmo nos dias de maior desalento ou temor.


Café de “saco”, cimbalino, curto ou cheio, fraco ou forte, será o que desejarmos!


E fomos aprendendo que nem todas as cores nos agradam, nem todos os odores nos cativam, nem todas as palavras nos tocam, nem todos os toques nos atraem.


Fomos aprendendo que o dia se esgota em nós, que a energia escasseia e o suor já não nos arrebata, mas, as escolhas serão sempre nossas.

Hoje, sentimos falta do suave beijo, do firme e terno abraço, da inadvertida tocadela de soslaio, do simples sussurro ao ouvido e tudo aparenta uma frivolidade que nos recorda o “(…) sê feliz enquanto podes!

João Paulo Pimentel – junho 2021



Conto “Ajudar”


Ana, Ana, Ana...


Ana adora ajudar, ajudar, ajudar...


Em tudo o que pode, ajuda.


Alguém falou que era necessário podar aquele arbusto. Ana ouviu e foi tentar cumprir a missão. Não sabia por onde começar, mas começou a cortar de um lado. Depois viu que precisava cortar do outro para acertar. E nesta de corta de um lado e depois do outro para acertar, ficou sem arbusto para cortar. Destruiu o arbusto. Ficaram só as perninhas despidas...


O pai falou que devia colocar o carro na garagem, mas que naquele momento não tinha tempo porque tinha de ir trabalhar. Ana quis ajudar. Um pouco antes do pai chegar a casa ia lhe fazer uma surpresa. Com seus 10 anos de “inteligência”, abriu o carro, empurrou, virou, orientou – tudo com o carro desligado. Conseguiu colocar o carro na posição perfeita para descer para a garagem. Colocado de traseiras para ficar pronto para sair depois em frente. Abriu a porta da garagem, sentou no lugar do motorista e destravou o carro. Como era a descer, o universo iria fazer o trabalho sozinho. Só que o carro não se mexia. Lembrou que existia uma pedra naquela terra seca, e que estava precisamente a travar uma das rodas da frente. Saiu do carro e deixou a porta aberta. Assim teria tempo de empurrar, entrar e sentar para orientar e travar o carro depois de entrar na garagem. Empurra... não vai...empurra...não vai...empurra...não vai... empurra com mais força...agora sim a roda passou a pedra. Mas...ui, o carro começa a descer rápido. Ela fica com medo de entrar no carro e ficar entalada contra a parede e assiste e ouve assustada a um cenário impressionante. O carro desceu, a porta dobrou para trás, um barulho de ferragem arrepiante. Depois, silêncio. Gelado, frio, dor de barriga. O carro do pai com a porta torta, amassada, ela sem poder entrar em casa porque o carro tapou a entrada. O pai devia estar a chegar. Ia lhe fazer uma boa surpresa mas afinal causou um enorme problema. Chamou a mãe, chorou, pediu desculpas. Disse que queria muito ajudar o pai porque ele estava sempre tão ocupado, mas afinal ainda deu mais problemas.

O pai chegou, tirou o carro dali, corrigiu a porta e dali a uns dias o carro foi arranjado. O pai não ficou chateado mas ficou mais silencioso.


Um dia um colega da escola perguntou-lhe porque ela fazia essas coisas, como o arbusto e o carro. Ana disse que deseja muito ajudar, por isso faz essas coisas.


“- Ana? Queres ajudar? Queres assim tanto ajudar? Então fica quieta...e estuda que a professora já está a olhar para nós...”

Ana Santos, professora, jornalista


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