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“Meu Tempo É Agora” - Sucessão de Mãe Stella (28/12/2019)


Muito se fala e se ouve da Bahia e da Diáspora africana, africanidades, cultura afro. Aqui na Bahia você pode passar toda a sua vida estudando todos esses temas. Mas desde o primeiro momento, a Bahia pra mim é a magia, a energia. Quando eu cheguei aqui, uma filha de Mãe Stella me aconselhou a sair em busca de uma casa oferecendo-a a Oxumaré. Eu fiz o que me aconselharam e achei a casa em poucos minutos. No Rio Vermelho, ao lado da casa de Jorge Amado, filho de mãe Stella de Oxóssi.

Hoje foi escolhida a nova Ialorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, depois da partida de Mãe Stella - uma pessoa com quem tive a honra de conviver, ainda que brevemente. Estar presente com Ana foi um presente que jamais vai ser esquecido porque só aqui a gente acaba se habituando em sentir a energia tão dentro de nós que é como se ela fosse vista, tocada.

Hoje uma Filha de Santo se tornou Mãe. É bonito isso. É uma repetição da vida. Você amadurece e passa a ver as mesmas pessoas com outros olhos – no caso do Axé, olhos de mãe. E a mim e a Ana nos foi concedido estar presentes, graças à bondade de um filho de Oxalá, pai de todos e a quem se pode recorrer sempre por ser o pai.

Foram muitos momentos vibrantes. De todos, o jogo traduzido pelas palavras do ifá, primeiro anunciando felicidade, depois anunciando que espécie de pessoa seria, depois seu orixá e só depois, quem era, seu nome. Júbilo. Você via o júbilo nos olhos das pessoas, em seus suspiros. Ali no meu cantinho eu lutava pra não cair chorando porque ver 200, 300 pessoas se rejubilando umas com as outras, algumas incorporando e tantas outras ali, apenas sendo felizes, ajudando, andando pelo terreiro, indo do barracão até a Casa de Xangô e voltando, concretizando um ritual que não domino, mas que me domina a emoção sempre.

Uma filha de Xangô, na entrada de um ano regido por Xangô, ocupando a casa de Xangô, o orixá da justiça. E o júbilo, a alegria, a adivinhação advinda do poder dos orixás tocando a nossa vida numa celebração com a energia da justiça, com a força e o poder da justiça, da machadinha de Xangô sobre as nossas cabeças nos ofertando felicidade. Uma felicidade que saía em forma de gritos, suspiros, palmas, sorrisos, olhos brilhantes, lágrimas. Um momento como nunca. Meu último momento com Mãe Stella de Oxóssi, onde ela colocou diante de mim a troca de liderança como seu último presente.

Sai a força de um orixá caçador como Oxóssi, entra a força de um orixá que olha para e pela justiça. Diante desse mundo louco em que estamos ancorados, eu peço que quem plantou colha do que plantou porque isso é a justiça aplicada à vida. Que hoje tenha sido o primeiro de muitos dias onde o axé seja derramado sobre as nossas cabeças e que Xangô nos ajude a compartilhar uns com os outros. Não apenas competir; compartilhar também.

Axé.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

Documentário "Meu Tempo É Agora"

https://vimeo.com/showcase/1987416/video/18096965

Você pode viver uma vida inteira e achar que sabe e entende minimamente como tudo funciona. Diferente com cada um, mas neste caso poderia acontecer de você mudar de vida, de país, de continente, de tudo. Sem você ter muito controle, apenas seu instinto, sua espiritualidade te diz para fazer isso, por estranho que possa parecer. Algo nada palpável mas muito claro, muito insistente. E você vira tudo do avesso e tudo parece ficar mais luminoso realmente, dentro de você. Quando passou apenas uma semana, a vida dá ainda mais voltas, voltas que você nunca esperou, que não têm a lógica que você se acostumou, na primeira vida. Umas voltas muito difíceis e que nunca mais tiveram solução, outras que ainda existe esperança de solucionar. Outras voltas ainda que demoraram anos a solucionar e que agora parecem estabilizar, mas você aprende que nada mais é como você acha, pensa, deseja, espera. Mas, nessa primeira semana, te levam para conhecer a zona da Cruz Caída, no Pelourinho. Um lugar lindo, turístico, histórico. Você percebe que uma senhora que parece ter mais de 70 anos se dirige a você com o braço cheio de colares com missangas. Você tenta se desviar dessa senhora porque, na Bahia, em Salvador, Pelourinho, isso significa que você vai ser enrolada para comprar um colar que tem a magia A ou B ou Y. A pessoa que te levou diz assertivamente, “- Não fale nada.”. “- Mas a senhora vem para me vender colares e eu não quero comprar. Não preciso, não quero e já sei que me vai enrolar para me vender um ou mais colares por um preço exagerado pelo fato de eu ser gringa. Não vou cair dessa vez.”. “- Não diga nada. Deixe ela fazer o que vai fazer. Não fale”. Você fica calada por respeito mas com pensamentos de cuidado para não ser enrolada e enganada. A senhora olha para ti e diz que és de “Oxóssi”. “- O que é isso? Eu não vou comprar nada.”. “- Não fala. Deixa a senhora fazer tudo.” A senhora me deu um colar, que nesse dia soube que se chamava “Conta”. Uma conta de Oxóssi que era verde. Não quis dinheiro nenhum. Me fez umas coisas estranhas que não entendi mas também não me incomodaram. Quem sabe diz que foi uma limpeza espiritual com suas mãos nos meus pulsos, testa, braços, deixando marcado em alguns lugares um pó que parecia pó de talco. Quem foi comigo não se cansava de dizer que eu me lembraria para sempre desse dia. Que eu não imaginava a importância desse momento na minha vida. Que a Bahia sempre tinha um jeito diferente de receber as pessoas que aceitava na sua terra. Sei que eu aceitei para não magoar ninguém, mas nada entendi e não brinquei por educação, mas era tudo tão estranho e até cómico para uma pessoa com formação e trabalho há mais de 25 anos na ciência, que estava confusa. Não me queria rir, mas era tudo tão fora do meu mundo habitual. Não queria ser mal educada com as pessoas que me tratavam bem aqui mas era tudo tão estranho e, principalmente, na minha estrutura mental, ERRADO.

A vida seguiu. A vida foi ensinando aos poucos que as energias, ou o que você quiser chamar, fazem parte da vida e você não tem como negar, nem deve recusar. Uns anos atrás, meu pai subitamente necessitou de ir ao hospital. Estávamos com o almoço pronto. Meu Pai foi com meu irmão mais novo. Graças a Deus nada de grave e voltaram nesse dia para casa. Falo nisto porque pela primeira vez percebi a importância das energias. Quando saíram e eu fiquei com minha mãe, entramos na cozinha e a comida tinha desandado toda. Eu nova, comentei: “- Mamá, olha o que aconteceu com a comida!”. Minha mãe, olhou a comida, olhou meus olhos e disse: “- Não vamos falar nada, não mexas nisso, vamos sair daqui”. Fomos para o jardim apanhar flores, rezar pelo meu Pai e encher os momentos de silêncio. Na altura não entendi nada. Agora entendo melhor. Agora entendo melhor a senhora que me ofereceu a conta de Oxóssi. Depois desse dia, pelo menos 4 pessoas vieram ter comigo para perguntar se eu sabia que era de Oxóssi. Uma pessoa se dirigiu a mim um dia, sem eu a conhecer e me disse que a cor do meu “Oxóssi” não era bem essa. E me deu dois colares/contas. Um verde e um azul céu. Um dia um amigo, “pesquisou” e soube qual era a verdadeira cor da conta do meu Orixá. Me ofereceu um colar/conta, uma pulseira. Um dia uma outra pessoa amiga me ofereceu um colar/conta e uma pulseira de Xangô (Orixá da Justiça). Diz que também me protege das injustiças. Um dia soube da existência de Mãe Stella, outro dia soube que se foi embora daqui. Soube aos poucos da sua importância, do poder da sua energia, do valor que tem no Universo. Um dia fui convidada para conhecer o seu Terreiro. Fui convidada para conhecer mais 3 Terreiros. Fiquei a saber que existem muitos Terreiros na Bahia. Cada vez ficando mais pequena, mais humilde, mais disponível para aprender, para perceber o mundo como um lugar onde a energia é determinante. Não basta o concreto, o estudo. Não basta apenas a energia. Precisamos de unir todos os saberes, todas as experiências, todos os caminhos.

Aprendi a aceitar a vergonha de não saber e a construir em mim estímulos de aprendizagem diária com o que para mim pode ser muito estranho, mas para outros pode ser a solução. Criar sempre caminho para aprender e melhorar quem sou com o que os outros sabem e que para mim, inicialmente pode ser muito estranho, mas que devo respeitar e, quem sabe, somar na minha vida.

Cada dia é um mistério, uma novidade. Uma surpresa, uma dificuldade. O mundo concreto e racional faz tudo para saber o que acontece, um dia atrás do outro. Mas aprendemos com a idade que nada somos, que nada controlamos e que o que podemos fazer é estar disponíveis, aceitar, agradecer.

Passado um ano de Mãe Stella morrer, foi o dia e o momento de encontrar a sucessão. Numa reunião, no “Ifá” – jogo de búzios. Na frente de mais ou menos 150 pessoas. Ser convidada para estar presente nesse momento é muito honroso, mas tremendamente assustador. Ouvir a primeira leitura – vai ser um ano de felicidade, a segunda leitura – a escolha tem de ser de uma pessoa independente, a terceira leitura – será de Xangô, a quarta leitura – a pessoa será apontada/escolhida/indicada em frente da casa de Xangô. E mais, e mais. E tanta coisa que não tem palavras, que tem corpos, sorrisos, palmas, abraços, gritos, energias à solta.

Muito grata a quem nos convidou, à vida por ter podido estar presente num momento tão forte da cidade de Salvador, da Bahia, do Brasil e do Mundo.

Nunca cuspir para o ar, nunca dizer nunca, nunca dizer que desta água não beberei, etc, etc, etc. Tanta coisa que não sabemos e tanto para aprender, para respeitar, para aceitar.

Ana Santos, professora, jornalista


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