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2 Contos: “TRANSTORNO DISMÓRFICO CORPORAL” e “O vínculo que vale é o amor”


Anna Chromy

Conto “TRANSTORNO DISMÓRFICO CORPORAL”

Clínica cheia. Ela tinha uma visão parcial da sala de espera a cada vez que a auxiliar abria e fechava a porta para trazer mais um paciente.

- Sua boca não tem mais espaço pra nenhum preenchimento, sabe? Zero. Nada.

- Mas depois que eu comecei a injetar silicone líquido, minhas visualizações aumentaram muito, dra.

- Os lábios explodem, entenda. Vou ser bem clara: seus lábios podem explodir a qualquer momento! Esses grânulos que você sente na palpação indicam que seu corpo não está aceitando mais preenchimento nenhum.

- Dez milhões de seguidores, dra!

- Você, aleijada para o resto da vida!

A porta abriu, fechou e ela não conseguiu evitar o som abafado que praticamente “pulou” da sua boca:

- Onde você fez essa cirurgia de aumento de seio? Quantos litros tem aí?

- Quanto era o máximo?

- Oitocentos mililitros, mas com o aconselhamento de não passarmos muito dos 500.

- Tenho 2 lindos litros em cada lado e quero mais! Quebro melancias com os peitos, dra!

- E de que serve quebrar uma melancia com uma peitada?

- Ganha-se seguidores como água!

O dia inteiro foi assim. Protéticos de musculatura, “siliconados de todos os tipos, lábios e seios patologicamente deformados e todos queriam mais, como numa orgia doentia.

- Não posso operar você, sinto muito. Posso indicar um psiquiatra que vai cuidar de seu quadro com muito cuidado... Entenda que se encontra médico para fazer qualquer coisa, em qualquer pessoa, por qualquer dinheiro, mas eu não sou assim.

- Eu preciso ser a mais peituda da internet, entenda.

- Ninguém precisa morrer.

Era uma doença mundial. Transtorno dismórfico corporal. Algo como um vírus que mutava e piorava a cada nova selfie. Crianças que os pais davam a primeira mamoplastia de presente de debutante. Nada de Disney. Disney morreu. Olhou ao redor e resolveu que não estava suficientemente bem naquele dia para repetir o mesmo discurso que sabia ser inútil porque as redes sociais assediavam todas as gerações sem piedade.

Andou pela rua à esmo e chegou na Graça, ali perto do antigo Palacete das Artes – como era mesmo o nome novo? Sentou-se naquele jardim e se encantou com as rugas nos olhos de uma avozinha linda que saía de uma exposição. Cabelo “black” baixinho. Grisalho. Olhos mais vivos do que os das suas pacientes de 20 e poucos anos.

- A senhora é linda!

- São seus olhos, filha!

- São. São meus olhos, mesmo. Você era o colírio que eles precisavam, sabia? Posso te dar um abraço?

- Normalidade – eu te amo!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “O vínculo que vale é o amor”

Um dia foram convidadas para ir a um espetáculo e foram avisadas que no final iria acontecer um Coquetel. Ficaram muito honradas. Aceitaram. Entenderam aquele convite como algo que significava que o seu trabalho começava a ser respeitado, já que isso nunca tinha acontecido em 20 anos de vida naquele local.

O espetáculo foi ótimo, mas perceberam que todas as pessoas se conheciam – artistas e plateia. Parecia um grupo de amigos que se encontravam. No final, o Coquetel. Todos se juntaram no espaço exterior, pois o clima estava soberbo para saborear a noite estrelada. Ana, quando começou a ver os empregados a servirem as bebidas e as comidas, quando percebeu que ninguém se aproximava delas porque todos se foram agrupando entre eles e elas, disse que queria ir embora. Paloma não entendeu nada, mas aceitou. Olhou Ana e viu que ela chorava.

- Porque você chora, Ana?

- Porque me lembro destes anos todos em que tivemos dificuldades para ter o que comer, para conseguir viver adequadamente, trabalhando muito. E percebi que estas pessoas, nesses mesmos momentos estavam bebendo champanhe e comendo gostosuras. Nem quiseram saber se precisávamos de alguma coisa. Não me sinto bem num lugar assim, onde tem pessoas que sabem pelo que passamos, algumas até contribuíram para isso, e agora nos oferecem champanhe. Meu coração apertou, meu estômago travou. Passo bem sem esse champanhe.

Enquanto iam para casa a pé lembraram de outras situações, como um almoço para o qual foram convidadas apenas por formalidade. Ninguém as queria lá. Não sabem porque razão não as queriam lá, nem sabem porque foram convidadas. Foi um almoço muito estranho do princípio ao fim. Pediram-lhes para mudarem de lugar várias vezes, como se não soubessem onde as enfiar. Até que elas perceberam o incômodo e ficaram num canto da longa mesa. Enquanto todos e todas pediam baldes de cerveja e Cocktails variados, aperitivos, elas pediram uma água de côco, porque não sabiam se iam ter dinheiro para pagar a sua parte do almoço. Disseram-lhes que a comida ia ser igual para todos, mas quando uma delas se levantou para ir ao banheiro percebeu que tinha muito mais do que aquele arroz de não sei quê, cheio de queijo e natas. A sobremesa também era igual - mais ou menos. O valor do almoço foi igual ao valor de pagar a água e a luz por dois meses. Lembraram também que pediram muitas vezes nomes de médicos de confiança para se tratarem e ninguém sabia dar um nome. Pediram um contador/contabilista de confiança, ninguém conhecia.

Ao mesmo tempo, na mesma cidade, uma mulher que conheceram numa festa, e a quem deram os parabéns pela comida sensacional que fez, se tornou uma amiga que nada lhes pedia, tudo lhes oferecia. De vez em quando, avisava que ia passar lá em casa para lhes deixar comida. E que comida. Como a vida é curiosa, diziam uma para a outra. Como esta pessoa as tratava tão bem e outras pessoas tão mal? E não era só ela que as tratava como verdadeira família. Era ela, os garis, os senhores do correio, o senhor que vinha ler o contador da luz, o senhor que trazia o gás, os senhores dos postos de gasolina, os porteiros dos prédios, os vizinhos com seus cachorros.

- Paloma?

- Oi?

- Queria te dizer uma coisa, antes de chegarmos a casa.

- O que é?

- Tenho o sonho de um dia oferecer um Coquetel aos nossos amigos. Aos verdadeiros. Quem sabe um dia temos dinheiro que dê para isso. O que achas?

- Acho que eles vão gostar muito. E acho que merecem muito também.

- Combinado então?

- Combinado.

Ana Santos, professora, jornalista

 

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