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2 Contos: “TODO MUNDO EM GUERRA” e “Soluções, onde estão?”


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Conto “TODO MUNDO EM GUERRA”

Onze da noite, ela via um tanto desinteressada o programa de política. Interrupção na programação: - Israel atacou o Irã! Podemos estar no primeiro momento de uma guerra atômica!

Seus olhos ardiam. Estava já tão cansada de ser atravessada por notícias péssimas que nunca conseguia evitar. Sua vida era pautada pela pauta dos outros – Palestina destruída, Ucrânia resistindo, Irã chamando pra briga, mulher leva idoso morto para pegar empréstimo em banco, governador de São Paulo vai trocar professores por inteligência artificial, Artur Lira dando piti aqui, ali e acolá, Brasília em chamas, disputas partidárias, Bahia precisa se unir, as pessoas realmente não conseguem trabalhar em coletivo sem cair na velha e chata disputa.

- Ufa...

. Inúmeras cartas abertas nas redes sociais porque numa disputa de espaço, tem carrinho na bola e na canela.

- Canella não deveria fazer parte de nenhuma disputa. Disputar – ainda que não se espere por isso entre jogadores do mesmo time, tudo bem. Afinal todo mundo em campo quer ser apontado como o melhor jogador da partida. Mas tudo isso na bola.

Olhou as cartas abertas e seu coração se apertou. Era tanto machismo, tanto “quem manda aqui sou eu”, que ela que sempre tinha vivido as mesmas coisas, procurou novas saídas. O mundo já era totalmente machista, mas havia profissões onde a coisa era pior. Dirigir um espetáculo era como viver na eterna missão de obedecer aos costumes, aos homens, aos chefes, aos indicados – uma violência.

Por último, mas não menos importante lá estava a coragem de ser lúcida e dizer não, diante de inúmeros “puxa-saquistas” dizendo que sim e correndo para falarem mal de você, embora concordem com você.

- A pior guerra pode não ser a que tem bombas atômicas, mas aquela que nos atinge mais diretamente, pensou.

Não conseguiu sequer ver o programa até o fim. As bombas do Irã já tinham sido suficientes para atingi-la em seu melhor: criatividade, empatia, coleguismo.

Seus olhos piscaram, um tanto febris em busca de consolo. No dia, recebeu convidados que falaram a mesma coisa por serem negros, pobres, gays. E também as mulheres, a competição do mundo artístico, você ser chamada de velha antes de chegar aos cinquenta anos – ou mesmo 40 – todos diziam as mesmas coisas.

- O mundo masculino era tão horrorosamente machista, tão competitivamente ruim, tão pateticamente inútil...

Seus olhos piscavam cada vez mais comprido, as imagens se misturavam, as preocupações viravam borrões a cada fim de dia. Tudo tão exaustivo, tão...

Acordou antes do despertador tocar. Aquele despertador, aliás, não tocava, gritava!

Pensou em suas amigas, seu coração apertou de novo, mas não percebeu nenhuma manobra de resolução, de paz, de um armistício ao menos.

Tudo era guerra e toda guerra era mesquinha. E embora se levantasse e gravasse, falasse, dirigisse, seu coração havia parado ali, se perguntando porquê afinal os homens não sabiam voltar atrás. Todas as guerras eram recheadas demais de orgulho e vaidade para terem algo a se aproveitar. Mesmo que fosse uma guerra atômica, ela não tinha dúvidas que algumas pessoas continuariam contribuindo e outras, por algum motivo, não.

- Tanto Netanyahu por aí e nenhum quer provocar Putin - me bata um abacate!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Soluções, onde estão?”

A vida vai longa para mim. Já vivi longos anos. Não morri na nascença. Sei de outros que morreram. Tive uma infância que recordo com carinho. Outros nem infância tiveram. A adolescência foi, digamos, tumultuosa. Afinal que adolescência não o foi? A vida adulta teve momentos estáveis e instáveis. Fui seguindo o caminho e fazendo meu destino.

Quem me olha, sentada com este ar de vaidade, certeza e coragem, não sabe que cedi. Quantas vezes cedi. Nem porque cedi. Mais vezes do que quis. Mais vezes do que alguma vez imaginei. Mais vezes do que desejei. Ninguém avisa de nada e depois de viver esses momentos, todos dizem que é normal. Escapa-me algo. É assim? Deixar todos caírem na armadilha, cederem, se estreparem, para depois dizer tranquilamente que é normal? Porque não nos ajudamos, não avisamos os “nossos irmãos”?

Cedi porque fui removida, tu me removeste, vós me removestes, eles aceitaram a remoção. Não sou muito boa a gramática. Ceder é comigo, remover é com vocês. Por isso, ceder ou não, é trabalho meu. Remover, vocês que sabem.

Vejo outras serem removidas. E esse vil ato leva segundos a acontecer. Demoramos anos a reerguer o que desmorona, por isso não mais ceder.

Da mesma forma que devemos lavar bem os alimentos, cozinhar bem os alimentos, mastigar bem os alimentos, para que eles – os alimentos – nos façam bem, há que cuidar também dos outros alimentos da vida. Aprendi.

Bom, desabafei mais um pouco. Mergulhei mais um pouco no mergulho que me espera. Meus sapatos, que ninguém gosta, eu amo e vão comigo. A roupa, importa para onde vou? Não quero roupa, vou apenas de sapatos. Levo a peça na mão direita. Na mão esquerda, minha aliança de madeira. Xangô, Exú, Oxossi, Elecktra, MaLu, estou chegando. Chegou a hora da travessia. Falta um pedágio, difícil, que pensei sempre que resolveria, ao resolver minha relação com os outros, vocês todos, os miseráveis removedores. Mas não. Vos dei demasiado ibope. O pedágio precisa acontecer em mim. Passagem para o próximo nível. Troca de pele da serpente. Rabinho que cresce de novo na lagartixa. Passagem para a outra margem, para outro nível, avançar no pedágio, não ceder.

Sapatos calçados. Dedo na ignição: três, dois, um...fui. Fui? Mas está tudo na mesma... Eu não senti nenhuma transformação. Ué? Queres ver que isto não é mudar? Queres ver que mudar é outra coisa? É algo acontecer, dentro de mim, mesmo que fora de mim tudo permaneça? Mas como se faz? Dói? Preciso deixar acontecer? Mais uma vez ninguém avisa, ensina, informa.

Passa um ônibus vazio na sua frente. Na traseira do veículo a frase: “Viver é fazer acontecer. Siga nossas redes sociais. Ative o sininho.”

“Não é possível...também tu Paraíso?”- pensou. Resolve ligar para o Céu. Atende uma gravação: “Novos tempos, novas abordagens.”

Ana Santos, professora, jornalista

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