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2 Contos "Do possível"


Conto “É NEGRA”


Ela estava fascinada, de olho na tela da TV: “Rebeca Andrade, medalha de prata do Brasil! A Ginástica Olímpica é prata, é prata!”. Depois da premiação incrível, do feito incrível, uma voz se ergue diante do poder do microfone – e os microfones dão poder, se sabem ser usados: “É negra. Rebeca teve muitas dificuldades na vida. Quando eu era ginasta, ouvia que a minha cor não combinava com essa modalidade, com esse tipo de esporte. A Rebeca teve muitas dificuldades na vida, mas está no pódio hoje, uma brasileira”.


Mas o que significava ser brasileira? Ela também sabia. Sabia o que era não ter o pai presente, sabia o significado de muitas dificuldades, de luta, de teimosia, insistência e persistência. Ela que não era negra, mas que como qualquer brasileiro, era mestiça – ela de indígena. Ela que via a dor na fala de Daiane dos Santos, reconhecia a dor – e não a queria, a devolvia aos outros, à sociedade. Já era a hora da devolução começar. Ela se olhou do alto de seu quase um e sessenta, do alto da sua idade. O mundo tinha chegado a um ponto, onde ela havia realmente se cansado de calar. Não que alguma vez tivesse se calado por algum motivo, mas isso não importava também. Era a hora de fazer mais, dar tudo, tentar a medalha da vida.


O menino, filhinho de papai que tinha tudo, todos os sins, era mais fraco do que as brasileiras verdadeiras. Do que as mestiças, que tinham dedicado cada momento de seus dias, à melhora das marcas, aos recordes, ao sacrifício real que é viver. Às brancas, pardas, e “esperadamente” pobres, pretas, e indígenas, todas as sararás – o Brasil cansou. O mundo cansou. ELA TINHA UMA VOZ. A Daiane tinha uma voz. A Voz do mundo poderia ser nossa pelo menos às vezes. E ela ficou ali, olhando a tela da TV, assistindo Daiane falar “é preta” e vendo o Brasil ser Brasil. Claro que muitas pessoas não iam entender, iam tentar pular, iam fingir não perceber. Mas a função do brasileiro tinha que começar a ser responder e não deixar passar. Ser negro não combina com ser pobre – nada combina com a pobreza. O espirito olímpico era o próprio sobreviver, o fazer viver ao permitir a vida, sendo o microcosmo, a cada vida.


Ela também enxugou os olhos mestiços. E mesmo que não visse aquele futuro, mesmo que a morte a pegasse antes, aquilo ia acabar porque a luta seria contínua e eterna. Ao invés de consumir o que o dinheiro compra, as brasileiras de verdade teriam um pacto de sangue, uma aliança. Chega de tão poucos privilegiados. Minha querida Daiane, minha querida Fran Demétrio, minha querida Rebeca Andrade, à família Krenak, Tupi, Yanomami, aos escravizados e tantos e tantos. Era um compromisso solene e ela se levantou. Seu hino era interno. Chega desse Brasil. Chega dessas promessas, governos, políticos, chega de mortes, chega de Marielle morta, chega. Porque existem muitas Daianes e Rebecas, Frans Demétrio, existem muitas “elas”, no Brasil. Chega de as pisarem e esconderem. Estamos aqui. Presente.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV



Conto “Escolher”

Ana, assiste aos Jogos Olímpicos em todos os espaços livres que tem do seu trabalho. Desde jovem. Trabalha bastante mas encontra sempre um espaço para ver alguma coisa. Nem que durma menos. De 4 em 4 anos, ela procura por pessoas que são como ela ou por pessoas que lhe mostrem de novo que a vida é algo que vale a pena. Por pessoas que sentem o mesmo. Por pessoas que passam o mesmo com suas escolhas – alegria quando tudo fica bem e desamparadas quando tudo fica fora do lugar. Que têm dificuldade em se perdoar quando fazem algo errado ou quando “perdem”. Que se culpam, quando o que fizeram prejudica e faz sofrer outras pessoas. Que não conseguem superar por não cumprirem o esperado ou exigido pelo mundo. Que não querem aceitar que por causa disso não prestam, mas sofrem nessa luta interior.


Não se compara a elas pelo corpo, muito menos pela competência esportiva. Nem pela beleza. Nem pela vida, nem pelo sucesso. Nem pelo dinheiro, nem pela qualidade de vida. Nem pelo país onde vivem. Nem por nada visível, aparente, adequado. Talvez na forma como choram, como desanimam, como ficam felizes, como enfrentam os medos, ou fogem deles – e como isso modifica suas vidas. Observa como decidem, como escolhem, perante as situações de competição, de relação com os outros, na vida.


Talvez, alguns iguais, porque têm dificuldade em aceitar que podem ser, eles, os melhores do mundo, e não os outros, como sempre é esperado. Talvez, outros iguais, porque seus olhos mostram o quanto querem, o quanto se dedicaram e virá o momento em que sabem que o universo lhes perguntará “se querem mesmo e se vão fazer por isso”.


Vê neles que querem muito estar prontos. Vê que sabem que precisam estar mesmo preparados. Que querem responder como sempre desejaram. Mas que também sabem que é tudo muito rápido e efémero. E escorregadio.


Lembra os tempos em que sentia que a vida estava difícil e se esforçava mais ainda. Mas afinal a vida foi ficando cada vez mais difícil, independentemente do seu esforço. Percebe agora que foi descendo os degraus das possibilidades, da progressão e não sabe como inverter esse caminho, porque quando fica escorregadio, fica difícil subir de novo e lá permanecer.


Seus Jogos Olímpicos foram escolher um emprego para toda a sua vida e desejar não escolher “mal”. Ter dinheiro suficiente para poder decidir onde e como viver, aceitar ou não oportunidades de vida que podem ser um mistério mas também a salvação. Casar ou não. Ter filhos e ser capaz de cuidar deles. Ser um apoio e segurança quando eles precisam. Acompanhar o envelhecimento dos avós, dos pais. Comprar um apartamento para pagar durante 30 anos. Decisões que não têm volta. Se precisar de dar alguma volta vai sofrer muito e todos os implicados também. Tudo pode piorar e a sua energia já não é muita. Ir cedendo aos sonhos. Mais ainda com a pandemia.


Ela se vê naqueles Jogos Olímpicos, de 4 em 4 anos. Seus desejos intensos são livres nessas horas. Seu fogo volta. Ali, seus olhos veem o que ela poderia ter sido, o que ainda é por dentro e a busca dos seus iguais permanece. Neles recupera forças, esperança. A vida parece querer retomar de novo dentro de si. Ali estão os iguais a ela que não recuaram. Que sentindo o mesmo medo, se lançaram no desconhecido. Talvez tenham tido melhores oportunidades. Talvez tenham feito melhores escolhas. Talvez nem tenham pensado em nada disso e apenas tenham seguido fazendo, tentando, o que queriam fazer. Ela os vê com nitidez. São sua família sem saberem. São seus amigos sem saberem. São uma parte muito importante da sua vida. Sem saberem.


Na vida terrestre, seu chefe pressionando para trabalhar sem fim, ganhando cada vez menos. Cada vez mais envelhecida, cada vez mais pobre, adoecendo aos poucos, com um futuro pouco animador. Sem tempo para cuidar e dar atenção aos filhos, aos netos. Com vergonha de ver onde se encontra. Sentindo que está ficando sem tempo.


Lá está mais um atleta. Outro. Outro. Desta vez fica ainda mais animada porque encontrou mulheres atletas, negras, nascidas na periferia, como ela. Nossa, como aquela menina do skate parece ela quando tinha 13 anos. Puxa vida! E aquela menina da ginástica que lhe faz lembrar tanto a irmã. Nossa! Ué...será que o mundo está mudando?


Ana, nos seus pesados 68 anos, final do dia, sentada na soleira da porta, observando suas netas brincando com skate, com bolas de basquetebol, de futebol e tudo mais que as fizer movimentar, pergunta ao universo se elas saberão escolher melhor do que ela. Está mergulhada nesse pensamento e nem percebe que as netas estão junto dela.


“- Avó? A senhora fica muito chateada se a gente brincar mais um pouco? É que já está na hora que falou para terminar...”


“- Claro que não fico chateada. A partir de hoje prometo não ficar chateada. Mais 15 minutos, ok? Mas aproveitem bem, se divirtam muito e lutem como se lutassem por uma medalha olímpica. Combinado?”

Ana Santos, professora, jornalista

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