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2 Contos: "OS INCOMPREENSÍVEIS" e “Sorte ou milagre?”


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Conto "OS INCOMPREENSÍVEIS"

Levantou os olhos da tela e suspirou: desde que se lembrava de si mesma em idade adulta, relacionou-se com regimes de força com alguma dificuldade. Não os compreendia. O que faz um soldado da polícia montada a escolher para lhe dar uma “cacetada daquelas” só porque, adolescente, estava na fila de um show de rock, no Rio? Inveja, por estar fazendo uma coisa razoavelmente compatível com sua idade? O que faz um policial qualquer, nos dias de hoje, repetir esse padrão totalmente idiotizado, bruto, de pouca formação, educação ou princípios? O que faz um governante querer ver esse tipo de comportamento no seu dia a dia como norma da corporação?

- E os políticos? Como entendê-los, se não for com uma ficha de datiloscopia nas mãos? Como deixar de ser “CSI” e voltar a ser apenas uma eleitora comum, daquelas que protestam contra o voto obrigatório – já que os senhores políticos querem ganhar sempre mais, tendo cada vez menos trabalho? Votarem a favor da libertação do suspeito número 1 de um crime sanguinário com a maior cara de pau, sem vergonha de se assumirem associados ou mesmo simpatizantes de bandidos, enquanto os pobres, se dependessem deles, seriam cada vez mais abandonados em toda parte?

- Pior! Apoiam a fala de um americano, representante de outro, mas com interesses estranhos, escusos, nebulosos: “O discurso de ódio não pode sofrer sanções” – dando como exemplo apoiar a Ku Klux Klan. Aquela que assassinava negros nos Estados Unidos, essa mesma.

- Mas amigo, acontece que aqui no Brasil, só iam sobrar galinhas, minhocas e passarinhos se eles resolvessem matar negros, indígenas e descendentes... – ela pensava.

Nem queria pensar no que dizer das pessoas que votam, nos eleitores. Aí a sucessão de coisas incompreensíveis subiria ao céu. Primeiro: quem vota em fã é o mais completo idiota já nascido. Quem pega uma pessoa linda pra fazer um muro, mesmo sabendo que ela nunca pegou numa colher de pedreiro na vida? Isso existe na vida real?

- Não. Resposta rápida. Nem que fosse a Gisele Bündchen - que ninguém quer morrer com um muro na cabeça.

Pois na política que é uma coisa muito mais séria, qualquer pateta com seguidores pode ser eleito para deputado ou mesmo senador. Pastor, miliciano, palhaço, inútil, cafetão, maloqueiro, especulador, laranja, bêbado ou cafetão, não importa – compre seguidores, seja escandaloso, grite, xingue e dê chilique, que o respeitável público pode fazer aquele papelzinho miserável de votar em você.

- Será que alguém dessa geração mais jovem reconhece político bom, quando vê um? O que dizer daqueles que inventam planos mirabolantes com ETs e chips secretos que são implantados nas pessoas através das vacinas? O que dizer daqueles que não querem mais viver no mundo real para receberem apenas as mensagens do seu grupo incansável de “Zap de mentirosos e alienígenas”?

- O detalhe do mundo real mais perturbador é que ele existe, pensou. Independentemente de quem é você ou no que acredita, se as pessoas se voltarem umas contra as outras, quem adivinha o futuro suficientemente para garantir que nunca vai precisar de ajuda? Na rua, um desmaio, uma pressão alta? Se você vira o “cancelador de pessoas” mais ágil, quem vai se desenvisibilizar pra te acudir? O almoço que você passou horas fotografando, ao invés de comer e compartilhar com pessoas reais?

- Onde estão as pessoas verdadeiras? Eu vejo o mundo cada vez mais só ou acompanhado de cachorrinhos e gatinhos no lugar de pessoas... Suicídios, solidões, depressões... Uns contra os outros, como um pesadelo articulado por uma indústria de mentiras ininterruptas, nacionais e agora internacionais...

Chegou no seu portão:

- Oi, Raul! Bom dia, como vai?

Ela ia resistir.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Sorte ou milagre?”

Noite cerrada. Deviam ser umas 2 horas da manhã. Ana vinha de casa dos pais em direção a sua casa. Já era costume fazer aquela viagem de 70 quilómetros. Não tinha medo. Era um lugar muito familiar. Já fazia aquela viagem há décadas. No dia seguinte sabia que ia estar com um pouco mais de sono, mas valia a pena.

Sempre que tinha um dia de trabalho mais calmo e as coisas organizadas para o dia seguinte, lá ia ela. Ligava antes para saber se podia ir e a mãe dizia sempre que sim, parecia feliz e ainda brincava dizendo que ela tinha tido sorte com a comida daquele dia. Ana sabia que era o jeito da mãe falar porque não havia uma única comida que não fosse sensacional. Todos os dias era uma sorte comer na casa da mãe.

Gostava muito de estar com eles, de jantar, de ficar à conversa durante horas enquanto se distraíam com algum jogo. A mãe queria sempre que ela fosse embora mais cedo, por preocupação, mas ela sempre falava que não havia problema e que dava para ficar um pouco mais.

Vinha a pensar como amava aquelas noites, como era uma pessoa de sorte. Estava a chegar à zona em que subia a montanha e começou a sentir a direção do carro pesada.

- Será que tenho algum pneu está vazio? – pensou. Não conhecia aquela sensação, o carro era novo, os pneus também. Talvez fosse só um pneu mais vazio. Mas além da direção pesada começou a ouvir um barulho da roda rodando vazia – um barulho arrepiante. Nesse momento já estava a iniciar a subida da montanha e começou a ficar preocupada. Inicialmente não queria parar, mas era melhor parar antes de estar no meio da montanha porque lá não teria internet, nem rede de celular e não poderia pedir ajuda nenhuma. E não tinha como conseguir continuar daquela forma. Iria piorar tudo porque além de destruir o pneu ia destruir a jante. Parou o carro na beira da estrada. Ninguém. Nada. Nenhum carro passava. Olhou o celular e percebeu que a bateria estava no fim. Que momento para não ter bateria. A única pessoa para quem podia ligar era para o irmão mais novo que devia estar com a namorada. Deixou-lhe uma mensagem na esperança de ter sorte, mas ele ficava muitas vezes a dormir na casa da namorada por isso também não o queria atrapalhar.

- Bom, se o meu irmão não responder tenho de ser eu mesma a tratar do pneu – pensou. E como não podia ficar ali muito tempo parada, tratou de sair do carro e começar a tratar do assunto. Quando saiu do carro, tomou um susto. Estava frio e um silêncio ruidoso de montanha. Ventos, ruídos de animais, aves. Belo, mas assustador. Ouvia a sua própria respiração. Enfim, não tinha outra saída. Abriu a mala do carro e começou a tirar o macaco. Nesse instante começou a ouvir o som de um carro e percebeu as luzes ao longe. O carro também ia subir a montanha. Sentiu medo. Quem seria? Boa pessoa? Um carro cheio de gente maldosa? O medo aumentou, mas ela teve de o bloquear. Não podia fazer nada, a vida ia decidir quem estaria nesse carro. Talvez fosse apenas um carro que ia passar. Devia estar dentro do carro para ninguém a ver, mas já era tarde. Fosse quem fosse já a tinha visto...uma mulher sozinha no meio da montanha, com celular quase sem bateria, sem ter quem chamar, a quem pedir ajuda. Quando o carro se aproximou, Ana percebeu que era um carro da polícia e de imediato percebeu que fez sinal para parar e parou atrás do carro dela.

- Polícia costuma ajudar – pensou.

Um policial saiu e o outro ficou dentro do carro. Ana percebeu que não era só ela com medo. Também o policial estava avaliando a situação. Seria mesmo apenas uma mulher que precisava de ajuda para trocar um pneu? Ou seria uma armadilha? Quando ela explicou tudo, viu que ele relaxou e imediatamente se ofereceu para trocar o pneu. Era uma simpatia, muito gentil mesmo. Ana nem queria acreditar. Um dos policias trocando o seu pneu furado, o outro entretanto saiu do carro e ficou conversando com ela, ajudando o colega. Entretanto, o seu celular ligou. Era o seu irmão avisando que estava chegando. E chegou, com a namorada. Quis trocar o pneu mas o policial já tinha trocado.

Pneu trocado, irmão descansado, policial gentil. Todos se despediram, Ana agradeceu imenso aqueles “anjos” e ao irmão por ter aparecido. Os policiais ficaram no local. Ana e o irmão com a namorada seguiram com os carros juntos até o irmão fazer o retorno para casa e Ana seguir viagem. Fez aquela viagem toda sem conseguir acreditar na sorte que teve e no irmão incrível que tinha. Parecia tudo um sonho, fruto da sua imaginação. Mas aconteceu e foi uma coisa incrível em todos os sentidos. Que alívio, que aventura.

Ainda hoje, quando pensa naquele dia, agradece pela sorte que teve. Correu tudo tão bem. E podia ter corrido tão mal.

Ana Santos, professora, jornalista

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