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2 Contos: “O SÃO JOÃO DANÇAVA E O PANTANAL MORRIA” e “É, viver...”


Clifford Possum Tjapaltjarri

Conto “O SÃO JOÃO DANÇAVA E O PANTANAL MORRIA”

Os olhos no horizonte negro de fumaça, aquela quentura terrível. Nem queria imaginar as onças, os jacarés. Todo mundo ficando sem casa, de bicho a gente. Rico e pobre porque já não fazia mais diferença. O estio tinha roubado a energia. A elétrica e depois a nossa. Tinha gente que fugia pro shopping por causa do gerador e do ar condicionado, mas aqui o comércio que tinha não era assim. Era mercado, era semente, era carne de sertão.

Tinha tanto tempo que não via um gelado que já nem sabia se ele ainda existia ou se tinha se acabado naquela seca sem fim. E seca em pantanal... ainda ontem os jacarés emergiam aquela cabeçona parada e botavam só os olhos pra fora... Jacaré agora era uma coisa seca, toda queimada, com aquele couro duro. Uma tristeza que comia a gente por dentro, mas secava os olhos por fora. Nada tinha graça. De manhã não tinha mais o assanhamento dos passarinhos. Não tinha mico. Meu sabiá parou de botar ovinho aqui na coluna de casa e eu só vejo os dias ficando mais quentes e sem chuva. Todo dia mais quente que o outro.

Hoje mesmo fui ao posto de saúde tomar umas vacinas pra não me atrasar nas datas e vi por ali um velho. Nada de falar idoso. Era velho. Velho e triste. Tão triste que parecia seco por dentro, com aquele olho parado que não se mexeu nem na hora da picada da agulha. Parado como o olho do jacaré que também já não se mexia. Tudo seco e parado naquele pedaço de vida que restava.

Tinham destruído o pantanal. O pantanal virou deserto. Um pedaço tão grande do Brasil ali, pegando fogo. Engraçado que parecia que ninguém via, naquele junho medonho de quente, dançando na beira da fogueira de festa junina e ali, logo em frente, a fogueira descontrolada lambendo tudo.

Piscou de novo. A secura do ar espetava os olhos. Tentou respirar fundo, mas o peito travava, o pulmão reclamava. Era tudo fuligem e esforço em vão.

Lembrou de antigamente quando a novela mostrava o pantanal alagado e cheio de bicho.

- Juma Marruá morreu que nem a onça.

Se não sou eu falando, aqui, ninguém mais recorda que o pantanal era vivo e alagado, tinha bicho aos montes e tinha água.

- Água que virou conto, que virou desesperança, que virou seca, que virou deserto, que virou morte, que virou agrotóxico e que prendeu nossos pés aqui...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “É, viver...”

Existe uma avenida de 10 quilómetros, que vai de minha casa até ao bar onde me reúno todos os sábados de tarde com os meus amigos. Tanto na ida como na volta para casa, reparo que por vezes os sinais/semáforos parecem combinar e ficam todos vermelhos. Outros dias, parece que combinam abrir o verde, sincronizadamente, para me deixar passar. Eu sei que depende do momento em que passo, que são meras coincidências, mas não posso deixar de achar interessante e curioso, quando essa sincronia acontece. No dia em que conheci o meu marido, no dia em que consegui o meu emprego, no dia em fui promovida, por exemplo, na volta para casa, todos os sinais/semáforos mudavam para verde à medida que eu passava. Como se o mundo estivesse tentando dizer que também estava feliz.

Imagino uma avenida de 10 quilómetros nas nossas vidas. Vivi um tempo em que os sinais/semáforos ficavam verdes quando eu me aproximava. Tudo parecia ter lógica. As pessoas pareciam ter bom senso. Sabia as regras, sabia as normas. Me encaixava naquele ritmo, sabia a hora de ir em direção dos sinais/semáforos para os aproveitar abrindo no verde, deslizando na avenida sem ter de parar, reduzir marcha, fazer retorno. Quando pisava o caminho, o pé sentia firmeza. Tinha dias mais complicados, claro que tinha. Mas tudo era fluído de acordo com o trabalho que fazia. Mudei – de lugar e de profissão e os sinais/semáforos ficam vermelhos quando me aproximo, regularmente. É uma questão de perda de sincronização, de timing? As pessoas não dizem, nem fazem as mesmas coisas. Ou sou eu? Sempre me dizem que o problema está em mim. Está? A diferença entre as culturas não é só o lugar, a diferença na natureza, na comida, nas músicas, na roupa, no jeito de falar. É muito mais do que isso. São os raciocínios, as mágoas ancestrais, os preconceitos medievais, aquilo a que chamamos “uma boa educação”, ou “inteligência”, ou “sobrevivência”. É a forma como foste educada, a época em que foste educada, o lugar do mundo em que foste educada, que chocam com a forma como os outros foram educados, com a forma como funciona o lugar onde vives. Pode ser por mudares de país, ou por mudares de cidade, ou por mudares de família. Mudas, muda a forma de sincronizar os sinais/semáforos. É onde se encontra a encruzilhada das nossas vidas, começo a entender. Não consigo acertar os sinais/semáforos virando verdes, quando me aproximo. Nem para mim, nem para as pessoas que quero e preciso ajudar. Nada faz sentido, o mundo me empurra para a sua lógica “do favorzinho” e eu não quero. Dentro de mim, tudo intacto, tudo fervendo, tanto para fazer! Mas em minha volta, os sinais/semáforos vermelhos continuam a aparecer, os risos de escárnio também, e uma multidão de gente sentada, na minha frente, aguardando o momento em que eu aceito ser engolida por essa forma “habitual” de vencer na vida. “Menina, é assim que funciona, quanto menos resistir melhor”. Essa frase não me sai da cabeça. Esse dia também não.

Quando era menina, minha mãe me dizia para levar o dinheiro na mão, apertar bem e enfiar essa mão no bolso. Para não olhar para estranhos, para recusar educadamente se aparecessem homens de carro dizendo que meu pai lhes tinha pedido para me darem carona. Agora, ensino o meu filho a fazer amizades só com os meninos que são de famílias ricas e poderosas. Coloquei-o na melhor escola para ele se entrosar. Ensinei-o a aceitar apenas os convites desses amigos e a recusar educadamente os convites dos meninos das famílias dos esforçados. Ensinei-lhe a verdadeira definição de amizade, dos tempos atuais. Se os amigos ricos fizerem algo errado, peço que ele não faça, e peço para ele não contar a ninguém. Para guardar o segredo. Esses segredos serão muito úteis no seu futuro. Esses segredos vão ajudar na hora em que ele pedir algum favor – porque é disso que ele vai viver, de favores dos amigos ricos.

É...eu aprendi uma forma de viver que não deu certo para mim. Com meus filhos tem de ser diferente. Por eles tudo. O que custa afinal fazer umas festas e jantares para pessoas que nem gosto, mas que me serão sempre úteis? Gostar de pessoas é algo que atrapalha a vida. O que me custa aceitar fazer favores se a minha vida vai melhorar? Bastou aceitar a primeira vez, que tudo melhorou estrondosamente. Deixei de ver os sinais/semáforos vermelhos. Agora, é sempre em frente, sem travar. O mundo é uma avenida com sinais verdes. Está tudo certo, apenas ando com dificuldade em dormir. E nos meus sonhos, permanecem aquelas pessoas sentadas, me olhando. Agora não riem mais. Agora, todas têm as mãos tapando as suas bocas abertas de espanto. O que será que isso quer dizer?

Ana Santos, professora, jornalista

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