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2 Contos: “HOMEM SEM H?” e "Futebol? Tá Punk!"



Conto “HOMEM SEM H?”

De repente, parecia ter virado moda – ou praga – os homens tinham “desamadurecido”. Não tinham mais a coragem de, ao serem frustrados, perseverarem, procurarem outros meios de vencerem as vicissitudes. Apenas, lançavam desaforos, ameaças e palavrões ao vento, como crianças malcriadas – pior – como crianças mimadas, mal educadas e inúteis.

Nasceram novas formas de acompanhar a Copa do Mundo e com elas, todo tipo de infantilidades irresponsáveis deles – os homens. Até senadores da República – e baiano, ouça bem – ousar ocupar o espaço da imprensa para falar em favor das BETs: que apostam mesmo, o que é que tem? - Quando está claro que essa invenção/exploração repulsiva – irresponsavelmente masculina também – está destruindo famílias, provocando o caos, o suicídio, a morte, a perseguição, a perda do juízo, das casas, o uso não permitido de cartões de crédito dos pais, das famílias – aqueles que antigamente ficavam apenas guardados na gaveta como garantia para uma emergência. Pois bem: o senador falou – e rindo – sobre esse tipo “preconceito dos responsáveis”.

As melhores comentaristas foram mandadas para o tanque de roupa suja – isso, quando não foram excomungadas, ameaçadas de morte, de espancamento, de violência física. Porque agora, a malcriação pode ser estendida a toda sorte de atrocidades, num piscar de olhos.

Fica-se assim à espera do surgimento de alguém heróico e gentil como o “Zorro”, mas qual... como disse, aquele homem que tomava o gol, corria, pegava a bola no fundo da rede e voltava para a partida, voltava para buscar o empate, a vitória, que entusiasmava a torcida com seu talento – virou esse tipo de homem estranho e irreconhecível, que não sabe perder e tampouco sabe ganhar porque não sabe nada, não tem experiências, só quer ter suas vontades satisfeitas como um caprichoso inútil, chato, que ao invés de olhar para a bola, para o campo, para o adversário, para o jogo, para a jogada, se olha no telão. Se acompanha. Se segue. Uau... Um seguidor de si mesmo... Antigamente se chamaria... um egoísta, um individualista.  

Quantos homens assim conhecemos? São raros? Oh... Não... são cada vez mais comuns... Insuportavelmente comuns. Sem H, sem ênfase, sem personalidade definida. Quem acha que violência é definição de algo além de primitivismo, ainda está indistinto em sua própria história.

Homens...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto "Futebol? Tá Punk!"

Era uma vez um menino talentoso. Muito talentoso. No seu país, quando alguém é tão talentoso assim, vira de imediato uma celebridade, atrai marcas famosas, patrocínios. Precisa ter cuidado para não ficar hipnotizado com tanta fama, riqueza, bajulação. É bom um pai e uma mãe que seguram seu ego. Não teve. Seu próprio pai se embolou no ego, na fama e vaidade. Como duas pessoas rebolando por uma encosta abaixo, a partir desse dia, estes dois seres ficaram tocados pelo ego, pela sensação de que eram super-homens, que tudo podiam.

Ganharam muito dinheiro - podiam ter ganho mais e com ele ter ajudado as pessoas pobres do seu país. Não foi o caso. O dinheiro serviu para aviões, helicópteros, fazendas com rios desviados, relógios, joias, luxos, luxos, luxos. O filho fez sucesso mundial como jogador - não tanto quanto poderia ter feito porque estava sempre se comparando com outros igualmente talentosos. Esqueceram de tentar que ele fosse o melhor jogador que ELE poderia ter sido e se contagiaram com a vontade de ser melhor que outros. Nasceu num país de vida difícil para a maior parte das pessoas mas ele nem pensava nisso, como se esse não fosse seu problema - ninguém lhe ensinou que somos responsáveis por ajudar nossa família, nossa cidade, nosso país quando temos condições para o fazer.

Festas eram a forma dele se preparar. Beber, comer, festas em iates, e em muitos lugares que nem sonhamos. Nunca entendeu que o talento não dura para sempre, que só é mantido com trabalho. Engordou, tinha lesões a todo o momento, tratava mal a arbitragem, os treinadores, os colegas. Virou uma pessoa insuportável.

Mesmo assim, os cérebros que mandavam nas escolhas da seleção, o escolheram. O escolheram lesionado. Nenhum atleta podia ir para a seleção com lesões, mas ele podia. Estava lento, pesado, sem ritmo, mas as pessoas não querem ver a realidade. Elas querem que o sonho aconteça sem esforço, sem lógica. E o sonho claro que não aconteceu. Ele praticamente não jogou e quando jogou estava lento, pesado e sem ritmo, numa copa do mundo de muita velocidade. E, quando parecia que já era tudo tão triste e desanimador com este ser humano que era um talento jovem e virou um problema, na hora em que surgiu uma esperança do seu país poder, quem sabe, passar a outra fase da copa do mundo, ele preferiu brigar com o goleiro, responder a provocações pessoais, fazer provocações pessoais, medir a raiva, o ego, a vaidade. Estava representando seu país, mas ele aprendeu em algum lugar que era mais do que o seu país. A estrela que tudo podia, a estrela que tinha mais valor do que seu país, a estrela que na hora de lutar pelo seu país, luta pelo seu ego. Um final feio, triste, pobre, de um ser humano milionário.

Como vamos dizer às crianças que aquilo que ele fez toda a vida estava errado? Como vamos dizer às crianças que o que ele fez na copa do mundo está errado? As crianças e jovens acreditam mais no atleta famoso ou nas professoras? O mal foi feito e vai demorar gerações para limpar o seu efeito danoso.

Tá punk!

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Salvador Dali


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