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2 Contos: “DEUS, DIAS GOMES E A CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES” e “Não deixa de ser bonita”


José Luis Fernández

Conto “DEUS, DIAS GOMES E A CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES”

Dias Gomes estava de olho na tela. Havia conseguido uma permissão especial para acompanhar o Brasil do século XXI. Ele estava em cólicas. Como estaria? Muita gente na torcida porque – claro – ele tinha convidado todos os brasileiros liberados pelo Poder Supremo.

Olhos na tela. Ahn? Mas esses deputados de Jesus... Ahn? Centrão, bolsonaristas e ultradireita formam um time de conservadores? Alguém definiu conservadorismo pra esses caras?

-- Sai pra lá Carcará sanguinolento! Nem o Sinhozinho Malta escrito por mim teria uma ideia desgraçada igual a essa, gente!

Pediu uma ajuda a um espírito de luz que estava por ali:

-- Quem é o Sinhozinho Malta atual? Esse deputado aí? Ah, mas ele encontrou um bocado de “Porcinas” pra moralizar a coisa lá em Brasília!

Continuava de olho na tela. Agora com a tal coisa da internet, um se metia na vida do outro o tempo todo, gente! Já viciado naquela série Brasil, convidava todo mundo e a série virou produto internacional:

-- Who is the shameless congressman? (Quem é o cara de pau do deputado?). ¿Quién es la polla del congresista? Qui est le connard du membre du Congrès ?

E de um em um, Dias Gomes conseguiu uma plateia enorme para assistir à tragicomédia: O Brasil mostrou a sua cara.

O disse me disse chegou até Jesus. Chegou até Deus, aquela luz de energia plena. Não acreditaram. Jesus então estava de boca aberta:

-- E tem gente que acredita mesmo que Eu ia querer que o tempo retrocedesse e que os costumes andassem pra trás? A justificativa dessa treva é feita em Meu nome? Mesmo depois de tudo o que inovei, na Terra?

Dias Gomes inclinou o corpo:

-- Você sabe muito bem o que é karma. Pois ele precisa entrar em ação agora!

Não passou nem um segundo.

Dias Gomes levantou, negociou com outros espíritos e mentalizou mulheres. Muitas mulheres, uma multidão delas.

-- O karma do deputado vai ser encarar todas as mulheres, mas a coisa precisa esquentar logo. Aproveita que elas já estão exaustas de aturarem as grossuras desses panacas.

De repente começou a receber algo que ele não sabia bem o que era. Pareciam estrelas ninja: #Fora #Fora #Fora #Fora #Fora – sem entender, mas só pelo “fora”, já gostou. Correu pra tela. Rua cheia de mulheres e as excelências se borrando de medo do povo!

Jesus voltou correndo pra cadeira – não perderia aquilo por nada. Baratas tontas de medo na Câmara, senadores já em cima das cadeiras. De repente, criminalizar crianças por serem estupradas – uma coisa tão simples de se ter como ideia genial pra colocar pressão no governo – virou a boca do inferno, a porta aberta do fogo.

Dias Gomes estava frenético. Ele poderia escrever o final? Poderia inventar a descida de um herói?

Jesus olhava a cena e apontava:

-- São as mulheres! Cadê a Madalena? Chame as mulheres!

Os vilões pagarão. Seca de votos. Seca de eleitores. E os homens conhecerão a fúria feminina.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Não deixa de ser bonita”

 Adora viver, vê tudo como positivo, maravilhoso, saudável.

Está muito ansiosa por fazer a viagem que o Pai lhe ofereceu de prenda de aniversário. Mais ansiosa ainda porque ele lhe disse que ia visitar um lugar maravilhoso.

A viagem de avião correu bem. Agora tudo é menos confortável nas viagens aéreas, mas ok, deu para fazer a viagem tranquilamente. Ia mesmo passar a maior parte do tempo dormindo, que é o que mais gosta de fazer em viagens longas.

Tudo certo. Chegou bem. Reparou logo que o aeroporto era muito pequeno. Apenas uma pista de aterrissagem, com uma casita onde ia recolher a sua mala. Como chegou a meio da manhã, nem marcou nenhum hotel com antecedência. O valor de uma noite, no único hotel de cinco estrelas, que a agência de viagens tinha acesso, era um valor muito elevado. Por isso, foi recolher a mala e aproveitou logo para perguntar a uma menina que estava num balcão de madeira, que dizia turismo, uma indicação de um bom lugar para dormir. A menina que por acaso, era familiar da dona de um pequeno hotel barato e familiar de um taxista, resolveu-lhe todos os problemas. Lá foi ela, no taxi do primo, para o hotelzinho da tia, da menina do turismo. Parecia os circos itinerantes que amava assistir, em que o apresentador, também era o equilibrista, era o palhaço rico e por vezes o malabarista dos pratos giratórios. A necessidade, era a causa dessas funções acumuladas. E ali considerou igual. Tudo era muito barato para ela, por isso sentiu-se bem em ajudar dessa forma.

O hotelzinho, com cortinas furadas de velhas no quarto, janelas abertas por causa do calor que fazia, trouxeram-lhe uma preocupação – teria de andar com seu passaporte e dinheiro, no seu bolso secreto. Não dava para deixar nada de valioso num quarto tão vazado. Estava habituada a ter água, sucos e alguma fruta no quarto, quando viajava para os resorts. Ali, não havia nada e pelo aspecto do lugar, era melhor ter cuidado com a água que bebia. Talvez beber refrigerante fosse mais seguro. Percebeu no restaurante em frente ao hotel, que também era melhor não comer legumes crus, nem a casca da fruta, pelos avisos que leu na parede.

O choque de realidade começou a instalar-se. Até ali tudo era engraçado, curioso, interessante para contar a todas as amigas que também viajavam. Mas aos poucos, foi percebendo que o lugar era muito pobre, com muitas carências, muitos perigos para a saúde. Viu num mapa que existiam hotéis de cinco estrelas, resorts, lugares com imenso luxo, nas ilhas vizinhas. O Pai devia saber disso. Ela poderia apenas entrar num barco de algum pescador – havia imensos – pedir para a levar a uma dessas ilhas e estava tudo resolvido. Mas quis aceitar o desafio do Pai. Sua prenda era para ela ficar ali, ali ficaria.

Já tinha viajado tanto, conhecia tantos lugares, zonas do mundo paradisíacas, mas se deu conta que tudo era acompanhado de muitos empregados, de muita encenação, muita bebida e comida fartas, muito luxo. Era tudo muito. Agora, era tudo pouco. Ou, era tudo verdade. Como na sua casa. Verdade sobre o que se podia comprar para comer. Verdade sobre onde e quando se podia viajar. Verdade sobre as roupas que se podia comprar. Viver uma vida adequada ao dinheiro, profissão, idade, saúde, amigos, família. Tudo o que ela constantemente criticava, nas brigas diárias com o Pai. Por isso saiu de casa. Por isso, vivia num bairro e num apartamento de luxo. E, por isso, a mesada dos seus pais lhe fazia muita falta. Achava que tinha direito a tudo, que os pais, já que tinham decidido trazê-la ao mundo, tinham de lhe dar boas condições de vida. Tudo isso, mais as viagens de sonho, pelos resorts de todo o mundo. Mais o emprego como Vereadora, que exigiu ao Pai – ou prometia que se suicidava. Aquele pai, em choque, fez tudo e de tudo até conseguir. Mesmo sabendo que a filha era apenas pura chantagem, manipulação, vida sem esforço, luxo. Mas ficar sem ela não era possível.

E agora, aquela menina mimada, ali estava e que bem que lhe sabia aquela banana no meio de um pão – algo que nunca comeu e que considerava comida de pobre, comida de gente sem nível. Que bem lhe sabia, estar sentada no meio fio, a ver os pescadores corrigindo os furos das redes de pesca, mesmo com aquele cheiro nauseabundo das vísceras dos peixes que foram vendidos, misturado com o cheiro do esgoto a céu aberto.

No último dia, antes de voltar para casa, resolveu ligar para o Pai. Foi estranho encontrar o correio, que na verdade era no mesmo local do mercado que vendia pão e leite. Ligou, em seguida uns sons estranhos e depois o som de chamada. De repente, a voz de seu pai, lá longe. Como desejava pedir desculpas por tudo o que pediu, exigiu, provocou. E como queria agradecer pela viagem. Como se sentia abençoada pelo pai que tinha, por tudo o que ele conseguiu fazer mesmo com o seu mau feitio e birras. Não havia tempo para tudo isso no telefonema, mas alguma coisa ia falar. Depois, quando estivesse de novo junto do Pai, teria tempo para tudo o resto.

O silêncio e as palavras demoradas eram sinais muito claros para o pai. Sinais de que talvez tenha dado certo, sua última tentativa de abrir os olhos da filha.

Seu coração de pai estava tão cheio, tão feliz, tão contente e ao mesmo tempo, trouxe uma dor intensa e bloqueadora. Ficou sem poder respirar, sem se poder mexer, enquanto ouvia a filha a acelerar nas palavras, na alegria e na bondade.

É, lá vem o enfarto que tanto avisou o médico. Lá vem ele e vem com toda a animação. “Podes vir, agora podes vir.” – pensou. “Finalmente consegui um jeito de mostrar à minha filha que a vida não é luxo. É outra coisa, e não deixa de ser bonita.”

Ana Santos, professora, jornalista

 

 

 

 

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