2 Contos: “DENGUE COM CHIKUNGUNYA, AFF” e “Será?”
- portalbuglatino
- 4 de jul.
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Conto “DENGUE COM CHIKUNGUNYA, AFF”
Lá estamos nós - meio que sozinhos, com a nossa educação de mãe e pai - combatendo cada um o mosquito da dengue de nossas casas.
O Brasil tem uma mania horrivelmente preconceituosa. Tudo o que acontece mais com o pessoal carente, acontece SEMPRE porque é coisa de pobre. Só que não. Só que é ao contrário. As coisas não feitas pelos governos é que vão parar mais perto da casa deles. Assim, os aedes aegypts que carregam os vetores de Dengue, Chikungunya e Zika andam pelas comunidades porque não aparecem com a mesma frequência quem limpe as garrafas e isopores e marmitas e copos e mil coisas com água parada. É bem diferente de pensarmos que as zonas mais cheias da grana não sujam, porque sujam, jogam pra cima, jogam das coberturas para as ruas, sem segundo pensamento, sem lembrar que mamães e papais devem estar se rebolando nos caixões com a porcaria e a falta de educação dos “filhinhos”.
Numa Salvador, Bahia, Brasil cheia de câmeras de segurança, começou a investigação da rua: quem jogou um saco cheio de “comida Macdonaldiana” em cima do carro elétrico novinho do vizinho?
Ele suspeitava que alguém do seu prédio não gostava dele. Como seria possível um espírito de porco cismar com um cara que não implica com ninguém? Acha o ponto da gravação: perto das 8 – sem lixo. 8 e 10 – capô cheio.
Procura, que procura, que procura. Não se via o lixo caindo de onde ele suspeitava – o próprio prédio.
- Que ardiloso esse mistério...
Os porteiros dos prédios se reuniram com alguns moradores. Um conselho se formou. Todos os porteiros daquela zona e também os moradores mais próximos dos fundos de um dos prédios haviam sido mordidos por mosquitos. Foram à farmácia:
- Deve ser um surto nesse Apipema de meu Deus!
Ninguém pegou apenas uma coisa. Alguns porteiros pegaram logo as 3 - Dengue, Chikungunya e Zika! Aí vem a desculpa do início do conto:
- É porque são pobres, higiene ruim, falta de educação sanitária... Mentira. Tudo mentira. Falta de ação educativa e funcional, de limpeza mesmo, das Prefeituras. Aqui em Salvador, da nossa Prefeitura. Antes de pegar Dengue e Chikungunya, a nossa casa deveria ter ganhado o prêmio de maior número de ligações do mundo para a Prefeitura da cidade. Reclamando de quê? Do Triplex que pela frente é riqueza, enquanto pelo fundo é lixeira – o fundo, é a minha rua - vamos deixar marcado.
Olhando câmeras, conversando, levantando dados, chegamos a uma suspeita fortíssima – nós, os verdadeiros Sherlocks, porque a Prefeitura da cidade é igual a Neymar – só aparece no filme, mas não faz nada na Copa. O pacote cheio de lixo veio exatamente da direção do prédio super rico pela frente e porco imundo pelo fundo. Um porteiro apontou que o prédio é “useiro e vezeiro” de jogar lixo pela varanda e ele voar até cair dentro da entrada do prédio dele – também picado por mosquito.
Chamamos Bocão? Se é terreno privado não podemos fazer nada – diz a própria Prefeitura. Se é terreno privado, a responsabilidade é do dono. Se é terreno privado, eles mesmos cuidam.
- E se não cuidarem? Já perguntamos isso mais de mil vezes – somos recordistas de reclamações, lembram?
Então vamos deixar que os soteropolitanos contribuam: onde se reclama de vizinho irresponsável e isso funciona? Vira inspeção, multa, alguma coisa? No programa do Bocão? Ele é o SAC da Prefeitura, na prática?
Opinem. Vamos estender a nossa investigação. E a Prefeitura foi envolvida! PODEM FALAR!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Será?”
Em menina fugia da morte, das mortes, dos enterros, dos lutos, das pessoas de preto. Das conversas pesadas, dos olhares baixos, das lágrimas, das desistências.
Buscava os que riam, saltavam, corriam.
Se tornou professora.
Naquele ano dava aulas numa escola de uma cidade pequena, com muitos meninos pobres. Alguns ambiciosos, outros apenas curtindo a vida. Um deles, dos que curtiam a vida, era seu aluno. Um menino difícil e ao mesmo tempo fascinante. Não queria saber da escola para nada, mas era inteligente, bonito e charmoso, e adorado por todos os alunos da escola. Chegou como sempre mais cedo no seu “carrito”. E de novo apanhou um susto com as motos que ficavam passando a velocidades inacreditáveis na frente da escola. Em frente da escola existia uma espécie de quadrado de 4 retas. Na hora do almoço era normal e habitual, aquelas motos acelerando e travando, acelerando e acelerando.
Quando estava a subir as escadas da entrada da escola uma aluna veio lhe dizer que ele, o aluno difícil, estava numa das motos.
- Mas ele nem 16 anos tem! Tem 14 anos... Não pode dirigir uma moto.
- Ele sabe que não pode, Pró! Mas os mais velhos fizeram-lhe uma provocação e a senhora já sabe que ele não se recusa a fazer nada de arriscado.
- Meu Deus! Ninguém o tira da moto?
- Nem pensar! Ainda por cima está com a namorada de 18 anos na garupa da moto.
- Ele tem uma namorada de 18 anos? Que mundo é este? Bom, a coisa boa é que ele vai ter de parar porque vocês vão ter aula comigo agora, em 5 minutos. E ele não pode faltar mais. Gastou as faltas todas.
Entrou, foi buscar o livro de ponto, foi para a sala. Na hora de iniciar a aula, ninguém tinha chegado. Ninguém, nem os melhores alunos. Ninguém, nem os que eram pontuais. Ninguém. Não houve aula, nem a dela, nem nenhuma. Essa tarde a escola encerrou.
A moto do menino bateu de frente contra um poste, numa das aceleradas sem pensar nas consequências. Dizem que apareceu um carro e ele tentou se desviar... Morreu na hora.
14 anos de rebeldia. Talvez por ter vindo de França, da cidade de Paris e se ter enfiado num lugar onde nada acontecia. Talvez porque assim tinha de ser.
Ela lembra dele repetidamente. De uma vida interrompida com tanto para viver. Será? Ou era isso que ele veio fazer aqui?
Alguns anos depois, uma mulher cheia de saúde, de vida, de energia, mais merecedora do que ela de viver até aos 100 anos, se foi. Uma doença oncológica súbita e intensa. Ela lutou, mais do que qualquer pessoa, resistiu, tentou. Mas se foi. De novo, cedo demais. Vai de vez em quando ao cemitério onde seu corpo foi enterrado. Fica lá sentada, olhando a lápide, imaginando que estão sentadas uma do lado da outra, em silêncio. Uma parte dela se foi, com sua partida. Uma parte maior do que ela esperava.
Teve de começar a olhar para a morte. Não dava mais para fugir. Não conseguia ainda olhar de frente, mas olhava de lado, de esguelha, com um olho aberto e outro fechado. Mas já olhava.
Até que tu te foste embora.
E ele.
E ela.
E todos os outros.
E aí ela foi obrigada a olhar de frente.
Para a morte. E ao olhar de frente, se viu, como se se olhasse ao espelho. Tinha de se enfrentar. Antes de ser também a sua hora de partir. Tinha de ser capaz de buscar o que sonhava, de não mais fugir, de não mais considerar-se incapaz. De se desafiar. De se transformar.
E sentiu, inacreditavelmente, que foi depois de olhar de frente a morte, que se libertou. O olhar que sempre recusou, que fugiu enquanto pôde, era afinal o olhar que a salvava. Que lhe abria a vida. Que louco isso, como olhar a morte de frente a fazia ter mais vida? Mas era o que acontecia...
Será que todos os que foram antes dela, sentiram o mesmo? Será que aprenderam a olhar de frente para aquela que era considerada a grande dificuldade, o grande medo, a grande barreira?
Será?
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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