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2 Contos de Vilões


Conto “SUA MALDADE EM CADA VILÃO”

Ela era fã incondicional da incrível construção dos vilões, do trabalho do ator, do diretor. Era quase como uma mesma e interminável pergunta: Como era possível que as pessoas se aprisionassem ao vilão e não conseguissem se libertar dele durante um espetáculo inteiro?

- Mas afinal, quem somos a não ser pequenos vilões sociais que se identificam com posturas, falas e sociedades? – ele se perguntava.

- Ninguém concorda com o Irã, mas aqui no Brasil mesmo o nosso gênero feminino “toma porrada, tiro e bofetada” todos os dias e ninguém faz nada - e em nome de Deus!

- Todo mundo é contra o aborto, mas os homens cansam de abortar os filhos que não querem – basta dizer que não é deles e, se o juiz ousar estipular valores de pensão, reconhecendo a paternidade indesejada, eles dizem que perderam o emprego e pronto. Caso encerrado. Mulher nova, encrencas novas!

- Os homens censuram que uma mulher trans faça xixi no mesmo banheiro que a gente, mas dopar uma mulher para estuprá-la é comentado normalmente. Obstetras como estupradores em série! E nunca vi nenhum homem reagir com horror. Com terror então... nem pensar. Mas fazer xixi no mesmo ambiente que as mulheres... Oh!

Ela andava mesmo enjoada da moral masculina que insistia em se misturar com sua vida. Nunca tinha lido em nenhum jornal de que uma mulher foi estuprada por um gay ou mulher trans, mas o perigo para a convivência social sempre era jogado no colo deles. Eles eram “o pecado”...

- Pecado é matar uma mulher só porque ela terminou o relacionamento! – ela bufava de ódio. O Brasil do samba, do axé e do carnaval só existe porque os homens gostam. Se fosse pelo nosso gosto feminino único e exclusivo, não rolava.

Assim, lá estavam os homens construindo no gênero feminino o vilão de muitos crimes cometidos contra nós e por mais que a gente fale, denuncie e coloque no jornal, eles fingem que não veem, enquanto “baixam o cacete”. Somos as prostitutas, pecadoras, pederastas, infiéis, fúteis e liberadas. Enquanto os homens “provam e positivam sua masculinidade na galinhagem”, nós provamos que somos sem vergonhas – mesmo quando apenas discordamos da infidelidade masculina.

- Cansei. É muita hipocrisia, gente...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Uma Universidade perto de você”

Que lugar incrível, que faculdade interessante. É, mas de vez em quando você vê uma coisa estranha, duas, três, mil. Um lugar estranho ou um lugar como muitos no mundo.

Todos os Professores recebem 3 meses atrasados.

- Não se preocupe, é assim mesmo. A gente atrasa um pouco no início mas depois acerta e em breve receberá tudo.

O breve que vira nunca. O breve que fica esquecido. O breve que é engolido por um aumento de problemas, de falta de pagamento, de pagamento em partes, de pagamento através de uma espécie estranha de banco, de promessas, de anos enrolados pela postura “agora é que é”.

Um lugar tipo clube de Futebol, onde o buraco das dívidas aumenta mas o crédito dos bancos existe sempre. Nunca se sabe se o buraco existe por falta de competência na gestão ou porque a direção ganha milhões. Tem outras interpretações. Faça as suas próprias interpretações. Inclua que nenhum jornal se interessa por escrever este tipo de desgraça e injustiça. Ninguém parece saber o que todos parecem saber.

Talvez convites para professores lecionarem e depois é retirado o convite. Talvez considerar ameaça pessoas que ajudam a instituição e que dão ideias para solucionar o problema. Talvez matérias com um nome especial, para alunos que nunca terminam, terminarem? Talvez professores que enfrentam a injustiça que vão tendo menos matérias ou matérias que são pagas mensalmente com valores de menos de cem reais – isso, cem reais.

Talvez tenha as pessoas da direção, os poderosos e ricos com nome importante na cidade e depois alguns professores e funcionários que os servem tentando ser importantes também...são os que fazem, digamos, fazem “o trabalho sujo”, protegem a desgraça achando que um dia serão como os que decidem tudo e que enriquecem muito. Mas nunca serão, nunca, nunca, nunca.

E, a determinada altura pensamos que talvez mudando a direção, mas somos tão ingênuos que nem percebemos que muda a direção mas as famílias, os mesmos, dirigem na mesma. Só mudam os nomes, as caras, só se pinta os edifícios de outra cor, se dá uma mudada na forma de funcionar, de gerir. Desaparecem uns por uns anos enquanto outros aparecem, depois trocam. E assim se mantem a “tradição familiar” de geração em geração, de buraco em buraco, de mentira em mentira.

Muitas pessoas sem emprego, sem o seu salário de anos e anos, sem nunca terem tido 13º salário, sem FGTS – pessoas que trabalharam mais de 20 anos na universidade. Os alunos sem notas, sem puderem finalizar o curso, o ano. Quando pedem que a situação se resolva são informados que a culpa é dos professores. Que está tudo bem mas que os professores é que são gananciosos, problemáticos.

E aí você acorda. Nossa, que pesadelo mais estranho, mais louco, mais bizarro! Não tomo mais café ao jantar.

Ana Santos, professora, jornalista

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