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2 Contos de Mudanças e Morangos


Foto retirada do site UOL Notícias

Conto “MUDANÇAS NO AR”

A menina, passeando com a cachorro da amiga – sua mãe não lhe deixava ter um – pensava que aquele palácio era como um museu. Não podia correr, gritar e pular pelos cômodos porque “o que os outros iam dizer, o que as pessoas iam falar” ...

- Que saco...

Também não podia falar como uma garota da sua idade, nem ir às festas das amigas. Na verdade, ela não podia fazer nada e, mesmo o nada, também não podia ser sozinha.

- Que droga...

Na escola, ela não era ela. Era a filha do pai, a filha da mãe, a filha do status dos dois, a filha das fofocas dos outros, das brigas sociais, das rezas, gritos e sussurros. Todo mundo queria ser ela. Menos ela. Nem poça de chuva era mais parada do que a vida que tinha. Emoção era na escola. Não apanhava porque era vista como “importante”, mas o resto... já tinha ouvido de um tudo, lá dentro. Não aguentava mais. Os adultos erravam, brigavam e se ofendiam e ela é que pagava o pato pela falsidade dos outros. Seu pai achava que mandava em todo mundo, mas a “puxação de saco” ao redor dele era pura falsidade.

- Saco, cara... Não faz xixi aí!

Só faltava o cachorro fazer xixi no salão... Chegaram mil pessoas pra limpar...

- Deixa que eu limpo. Claro que eu sei limpar. Eu nasci com mãos, sabia?

Que nada. Ela nem sabia onde tinha um pano naquela casa. Nada ali era dela de verdade.

Vendo assim, fora o vai e vem dos caminhões de mudança e aquele monte homens pra cima e pra baixo, era bem legal ir embora. Sossego, praia, os amigos e a vida que antes era a dela.

- Ai, gente... Será que “ele” ainda lembra de mim? Quando eu era bem criança, antes de “mudar” pra esse museu, a gente brincava tanto... Eu ia na casa dele brincar, ele ia lá em casa... Meu pai não chateava porque nunca ficava em casa mesmo – agora ele disse que vai ficar, mas... se ficar me mandando, vai ser um saco, um saco...

Saíram mais coisas encaixotadas. Sua mãe estava um trapo. Bem, vendo assim, seu pai também.

- Ele “se achou” e se deu mal... Mas eu? Nem quero falar alto isso, mas... eu vou amar ir embora daqui... Minha vida de volta, meu “crush” de infância...

Sentiu uma coisa estranha saindo dela; uma coisa quente. Correu pra ver.

- Ih – isso é que é menstruação, meu Deus? Ah, não... Ah não...

Foi atrás de absorventes no quarto da mãe em silêncio, em segredo. Achou no armário da suíte. Olhou, tirou o papel do adesivo, colou na calcinha. Olhou o resultado no espelho – aquele negócio parecia uma fralda! Logo no dia da mais legal da vida dela, aquilo tinha que acontecer...

- Au, Au!

- Ninguém merece! Pera um pouquinho que eu já vou te levar lá fora!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto do “Moranguinho”

Ela não lembra bem mas dizem que tinha alergia a morangos quando era pequerrucha. Uma pena, pensa ela, afinal vivia num lugar onde se plantavam morangos e em algumas épocas do ano era um fartote. Além disso, todos os anos tinham uma ida a um lugar que se tinha direito a ficar com os morangos que se apanhava. Uma loucura. Era querer levar morangos em cestas, em cestos, nas mãos. Era uma alegria aquele dia. Um lugar enorme, com plantações de morangos a perder de vista. Nunca percebeu se era de graça ou se era alguma troca de serviços que o lugar fazia. O que sabe é que aquilo era incrível.

Na adolescência, essa alergia aparentemente passou e comeu muito morango nesses anos. Fresquinhos eram uma delícia. Com chantilly ou com iogurte nem se fala. Mas mesmo assim o que mais amava era quando tinha de ir apanhar morangos, comer um ou outro ali, junto da terra, junto da natureza.

Não sabe muito bem porquê mas em adulta começou a não ter muita vontade de os comer. Já não havia tanta abundância e as pessoas achavam que ela deixava de comer para que outras pessoas comessem. Podia ser e se fosse isso era muito bonito. Mas não era isso. Era algo que seu corpo lhe dizia. Ela não sabia explicar mas olhava os morangos, achava-os igualmente interessantes, com aparência deliciosa, mas algo no seu corpo lhe tirava a vontade. Chegou muitas vezes a tentar comer um pouco na sobremesa, mas quando aproximava a colher da boca, recuava sempre. Mesmo ela achava estranho, mesmo ela não entendia. A conclusão que tirou é que talvez a alergia estivesse voltando, ou rondando de novo e a verdade é que nunca mais comeu morangos. Nunca mais. E também nunca mais sentiu falta, nem saudades.

Os morangos lhe ensinaram muito. De vez em quando pensa neles, principalmente quando o povo vende no sinal aquelas caixinhas bonitinhas e também super caras de morangos longe de estarem maduros. Não quer, não é porque são caros, não quer, não é porque não pode gastar esse dinheiro. Na verdade seu corpo não quer, não pede, avisa, comunica direitinho que não tem vontade. É feliz desse jeito, está tudo certo, a vida é boa assim.

De repente lembra de muitas pessoas que mais parecem morangos na sua vida. A vida é irada!

Ana Santos, professora, jornalista

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