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2 Contos de Ilusão


Conto “MENTIRA OU ILUSÃO?”

Ela foi aos seus grupos específicos e anunciou: “Preciso de profissionais da nossa área”. – Eu, eu, eu, eu... – normal.


De repente um papo, uma pessoa dizendo que realmente precisava fazer o trabalho, um pedido de apoio, ok. Perguntou se o profissional sabia o que fazer, ensinou como trabalhava e só obteve respostas positivas. Rapidez e eficiência. Capricho e planejamento. Passou tudo por escrito e ficou disponível pra tirar dúvidas, mas sem essa de dúvidas – nunca houve nenhuma pergunta. Mandou mais explicações por insegurança, deixou áudios, mandou exemplos, links para pesquisa. Mas não conseguia relaxar.


Do nada, saíam perguntas do tipo “nada a ver, muitas vezes passando para o tipo sem noção”. Ok. Era professora e essa geração dá uns vacilos mesmo.


Demora mais que o esperado, muito mais que o esperado. E quando vem...

...

Não tinha nada parecido com o que estava escrito, combinado, explicado por gravação. Nada.


Sua sensação era de que seu rosto tinha virado um emoji, daqueles de boca aberta. E agora? O profissional dizia que tinha amado o trabalho, que queria continuar. Ela? Ela não via nada do que era a sua proposta, ali. No máximo uma sequência alinhada do que ela tinha pedido e que exigia concentração, criação, estética, linguagem. E essa repetição de ações aconteceu muitas vezes naquelas duas semanas. Muitas. Esperança na hora de repassar tudo, explicações, exemplos e depois desilusões, pedido de chance, outra chance, outra chance.


De repente, ela percebeu que não era mentira dele, era ilusão. Ele queria tanto ser o que ainda não era, que acreditava já ter conseguido, mesmo sem ter se esforçado ainda. Sem ter estudado, tido dúvidas, medos, contradições. Percebeu que a dor dele seria muito maior porque ela teria que, com todo cuidado, lhe dizer a verdade. E pouca gente no mundo consegue olhar frente a frente para a verdade nesses tempos estranhos. Mas disse. E ali viu um coração murchar, numa mente que já tinha comprado várias coisas com o suposto dinheiro que ainda ia ganhar, uma bicicleta, um computador... ai...


Talvez aquele momento tivesse lhe cabido como herança kármica apenas para que o profissional pudesse perceber atenciosamente, amorosamente que é preciso esforço e dedicação para ser chamado assim, para que fosse real; mas que sempre é hora de recomeçar ou mesmo começar, que o mundo tinha ficado tão pequeno com a internet, que ele podia estudar por tutoriais, se dedicar, que ela tentaria corrigir seus trabalhos... ai... mas a dor da desilusão dele lhe chegou ao coração...


- Mentira é fogo..., mas quando você precisa revelar, desvendar, apontar a mentira que se mente para si próprio, é terrivelmente doloroso... para todos. Pensou na infinidade de justificativas e panos quentes que ela tinha ouvido na vida, de tantas pessoas queridas tentando amortecer, colocar em banho Maria problemas de tantas outras pessoas queridas. Para não ver ou porque não se conseguia ver, ouvir o fato real. Mas sem verdade, a gente perde a partida, o impulso, o solo firme e alguém tinha que lhe falar que era preciso mais verdade com carinho, mais assertividade. Mas... ai...


Ajeitou os óculos – Dói demais, viu?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto de “Amor”

Era para ser assim, apenas ela não sabia, sempre achando que quem decidia a vida era ela. Sempre achando que a vida e as pessoas eram claras, concretas, visíveis.


Ana ama aquele menino. Acha-o lindo, atlético, simpático, fofo. Gostam das mesmas coisas e se entendem muito bem. Acha muitas vezes que parecem uma pessoa só. Um pensa fazer algo e o outro fica logo disponível para colaborar. Andam sempre juntos, pensam em conjunto, quase respiram ao mesmo tempo. Ela ama fazer as coisas de meninos, além das coisas de meninas e isso é super porque andam de bicicleta, de barco, jogam a tudo, sobem a árvores, sempre felizes. São aventureiros, são leais, são amigos.


Não falam muito e isso é engraçado. Não precisam falar. Seus olhares se cruzam e tudo se resolve, tudo um já sabe do outro. Nunca discutiram, nem nunca tiveram grandes conversas profundas. Tudo parecia superficial mas não era. Tudo parecia infantil mas não era. Existia um clima, uma fórmula mágica, uma sintonia. Nada mais, nada menos. Duas pessoas que eram melhores juntas apenas. E isso era tudo. Para os dois e ao seu redor.


As chuvas vieram, o frio veio e nem isso os abatia, nem abalava. Eram impenetráveis, indestrutíveis. Eram felizes. Muito felizes. A vida era fluída, linda, estimulante, desafiante.


Estava tudo certo...ou Ana era feliz porque imaginava tudo isto na sua cabeça. Nunca saberá. Imaginava que esse menino iria amar quem ela escolhesse para casar, para ter filhos. Que ele ia amar suas escolhas profissionais. Que ia amar quem ela era. Que juntos iriam fazer coisas ainda mais grandiosas. Como achava que ele a amava da mesma forma que ela o amava.


Até que um dia, num momento da vida, algo de estranho aconteceu e a partir daí tudo desmoronou. Nela, dentro dela, por ela, pelo mundo. Tudo secou como uma planta que subitamente tem uma praga. Sem remédio, sem solução, sem caminho, sem futuro. “Agarra a vida enquanto a sentes” diziam-lhe muitas vezes. Ela nem ligava. “Não penses tanto nos outros e não os imagines tão perfeitos”, diziam-lhe outras vezes. Ela nem entendia como isso se fazia. Ela queria acreditar. Como podia não acreditar? Como? Não, não!


O dia chegaria. E chegou. Como uma areia do Saara, cobrindo tudo o que tinha sido construído no passado.


Ana vê o menino chegando e sai correndo na sua direção. Tem uma coisa tão importante para lhe dizer que corre tão rápido que parece que até voa.


- Nem imaginas o que aconteceu...

- Diz, diz...

- Putin é horroroso! Precisas ver os horrores que está fazendo com o povo Ucraniano. Como é possível? E Zelenski, o Presidente da Ucrânia, está se mostrando um verdadeiro defensor do seu povo. Incrível! Gostava muito que todos os políticos e presidentes fossem assim.

- Nossa Ana, não entendes nada disso. Estás tão errada! Agora que és mulher parece que não foste capaz de crescer e ver a verdade. Putin é que é o bom e Zelenski o mau. Mas deixa que tudo isso é muito complexo para a tua cabecinha tola. Olha, vim para te dizer que vou viajar um tempo. Isto por aqui é muito atrasado. Preciso ver mundo, ver e conhecer a verdadeira vida. Vim porque preciso da tua carona e já estou atrasado. Bora?

Ana Santos, professora, jornalista

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