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2 Contos de Aniversário


Conto “ANIVERSARIANTE”

Sempre tivera amigos diferentes, desde pequena. Morando em São Paulo, cidade que “pingava água”, de tempo nublado e aquela “chuvinha”, festa de aniversário era programa para os dias fechados porque as crianças sempre eram acomodadas nas casas dos “vizinhos aniversariantes”.

Mas aquele era seu dia, seu aniver. Naquele tempo não havia festas animadas, nem super heróis ou animadores, palhaços, mágicos, viagens. Na verdade, perto de toda a parafernália que se faz hoje só por causa de um aniversário, não havia nada. Era um bolinho, docinhos, cantar parabéns, amigos e só.

Naquele dia, somou-se o aniversário dela e de seu amigo mais que especial – o Barrinha – menino que não sabia falar bem, tinha muitas dificuldades motoras, não estudava na mesma escola que ela, mas que fazia aniversário no mesmo dia, mesmo mês e mesmo ano. Eram gêmeos, mesmo sem serem irmãos – será que isso poderia acontecer? – ela se perguntou isso mil vezes.

E se davam muito bem, mesmo quando o Barrinha falava e ela não entendia direito. Se acostumaram a parar a brincadeira, a pedir que ele repetisse o que queria, a adivinharem cada desejo dele. E junta, aquela turma de vizinhos reunia todo tipo de criança: as especiais, como o Barrinha, um menino que havia se queimado feio com cera derretida, o Celso, o Nando, que morava no mesmo prédio e tinha aquele cabelo “príncipe Danilo” que ela vivia puxando, ela, a irmã e o Toninho, filho do porteiro.

Eram encontros memoráveis e brincadeiras intermináveis. Na casa da mãe do Toninho, uma vez, estavam matando uma galinha para o almoço de domingo e ela, logo lhe avisou: - Não vai lá olhar porque você vai ter pena da galinha e assim ela demora a morrer.

Ela foi olhar.

A galinha saiu degolada, correndo pelo meio da cozinha! Uau! Comprovado: pena mantém as galinhas vivas! Seria assim também com as pessoas?

- Na casa do Nando tem cheiro de doce de leite! E ela pulou pela área de serviço e comeu todos os docinhos que conseguiu numa bocada só. Depois ficou de castigo, claro.

Tantas aventuras, juntos, naquele aniversário! Ensinar o Barrinha a brincar de “mamãe posso ir”, brincar de luta livre sem machucar as cicatrizes das pernas do Celsinho, rir, passar o dedo no bolo e receber “aquele olhar” da mãe que nenhuma criança esquece... ela esquecia em um segundo, esse sempre tinha sido seu problema. A vida chamava e ela aceitava ir.

Hoje, vendo crianças que nem sabem mais pegar num lápis, nem sabem mais fazer uma conta de cabeça, ela se pergunta qual mundo era mais rico, quais crianças aceitam e respeitam diferenças, sejam elas quais forem, quais crianças incluem apenas, ao invés de ficarem discutindo inclusão. Fica se perguntando se aceitação precisa disso tudo ou apenas que os pais abram as portas de suas casas para os amigos, os vizinhos, os conhecidos ricos e pobres, ao invés de mágicos, festas, animadores e palhaços caríssimos. Quem sabe envelhecer é isso? Somar as perguntas que se fazia, ainda criança, com perguntas angustiantes de adulta – todas sem respostas? Quem sabe?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “A Prenda”

Aniversário. 28 anos. Pareciam já muitos anos mas a energia era muita também. Ana sempre desejava dias de aniversário calmos, mas eles sempre viravam dias de festa com amigos e família. E estava tudo certo. Foi percebendo que esse dia, muitas vezes, era até mais importante para outras pessoas. Para seus pais era talvez até mais importante do que para ela e só muitos anos mais tarde é que entendeu isso.

Não combinou nem marcou nada, mas a irmã mais velha nunca esquecia e sempre cuidava. Organizou tudo. Tinha uns tios a dormir na casa dela, convidou uns primos, irmãos, amigos e já estava montado mais um momento mágico e carinhoso. Sua irmã mais velha e seu cunhado, pessoas queridas, pessoas muito especiais, sempre cuidando de todos.

Tinha um dia cheio de trabalho e terminava com uma reunião no final da tarde.

- “Tudo certo. Quanto terminares aparece. Teremos tudo pronto. Fazemos só uma reunião rápida, um bolo, uns abraços, muita conversa” – disse a irmã numa das conversas de telemóvel desse dia.

Os telefonemas de desejo de feliz aniversário foram aumentando no final do dia. Como esteve ocupada o dia todo, só mesmo de noite é que começou a responder, a agradecer, mas sabia que como sempre, os melhores telefonemas estavam para chegar. De seus pais, alguns tios e tias, de amigos.

Chega em casa da irmã e como sempre, sorrisos, boa disposição. Nesse ano o ambiente estava especialmente engraçado e repleto de piadas engraçadas. Um dos primos chegou mesmo a comentar como a vida era engraçada ao colocar um apartamento pequeno sempre cheio de gente e casas enormes onde nunca se convidava ninguém, de acordo com as características das pessoas que viviam nesses lugares. Era verdade, mas era fofo assim mesmo. Mais um telefonema. Atende.

- É Ana?

- Sim, sou eu...

- Boa noite! Estou a ligar para a convidar para dar aulas na universidade.

- Ahahahah, quem é? – Ana tenta descobrir quem é o amigo que está brincando com ela.

A Universidade que ele fala é nova, muito famosa, muito desejada e Ana sabe bem que tem muita gente querendo ser docente ali. Todos os colegas que querem ribalta, luz, fama correm desenfreados em busca de espaço nesse lugar. Ela nunca pensou nisso, nem desejou, pois é um lugar de acesso a poucos e ela sempre foi uma pessoa só, numa cidade longe da sua terra. Nunca teve “pontes” para nada. Sempre ela que fez seu caminho. Seus voos eram outros e percebe que é uma brincadeira de algum colega. De vez em quando alguns colegas falam na brincadeira uns com os outros sobre quem é bom, quem não é, quem “consegue” quem não “consegue” esses lugares de destaque, digamos assim.

- Está algum colega a brincar comigo – fala para o pessoal que está na festa.

- Está?

- Sim, sim...quem é? Já entendi a piada... Luís?

- Alô? Ana...é a professora? Não sei se ouviu mas estou a ligar em nome do presidente da Universidade para a convidar para dar aulas. Uma colega sua era a professora desta matéria, mas vai mudar de Universidade e quando lhe pedimos uma pessoa para a substituir, ela falou seu nome. Falou que está a terminar o Mestrado nesta área, que tem um excelente currículo esportivo e que, apesar de não serem amigas na faculdade, sabe bem da sua competência e perfil.

A brincadeira está estranha, pensa Ana. Nunca mais termina. Até podia ser de verdade... Será verdade?

- Sim, sim, desculpe. Pensei que era uma brincadeira. Quem foi mesmo a colega?

- Cláudia...., uma excelente profissional que vamos perder mas que deu as melhores referências do seu trabalho e capacidade.

Ana nem sabe o que pensar, nem o que dizer. Como isto está acontecendo assim, enquanto a maior parte dos seus colegas se acotovelam uns em cima dos outros em busca do que caiu no seu colo? Como é a vida... Alguma coisa plantou sem dar conta.

- Tem a certeza? Estou muito surpreendida com seu convite.

- Não esteja. Venha amanhã aqui que ela falará consigo, o presidente também.

- Desculpe a forma como falei no início mas é que hoje é meu aniversário e julguei que era um ex-colega da faculdade brincando.

- Não se preocupe. Nós estamos muito felizes em recebê-la. Eu que peço desculpa por incomodar seu aniversário.

- Que nada! Foi uma surpreendente prenda de aniversário. Desejo muito estar à altura.

- Estará...

Ana desliga e todos estão olhando para ela.

- Estás pálida Ana!

- Estou? Gente, eu a pensar que era uma brincadeira e recebi agora uma enorme prenda de aniversário, de uma ex-colega da faculdade com quem pouco convivi. Incrível a vida!

- Como é mesmo?

- Fui convidada para dar aulas na Universidade mais cobiçada do país para dar a matéria que mais amo. Só porque a minha colega, pelo que viu de mim nos anos da faculdade, pelo que fiz e pelo mestrado que estou a fazer, achou que eu seria a pessoa certa.

- Show Ana! Está na hora de festejar miúda! Pelo aniversário e pelo que semeaste pelo caminho da vida. Vais ver que darás conta. – diz a irmã.

Ana se interroga. “Darei conta?” Quer muito dar conta porque tem muito a dizer, quer muito contribuir. O resto da festa foi uma risota sobre como ela quase chutou o senhor achando que era uma brincadeira de mau gosto, sobre a vida de todos, sobre o quanto se amavam uns aos outros e sobre os sonhos de cada um.

Ana Santos, professora, jornalista

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