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2 Contos: Conto “Shalom alechem ou shalom aleikhem (em hebraico: שָלֹום עליכם)” e “Todos iguais, todos diferentes”


Espada de São Jorge, de Christus Nóbrega

Conto “Shalom alechem ou shalom aleikhem (em hebraico: שָלֹום עליכם)”

Ela escolheu o filme baseado em fatos reais ao acaso, mas as imagens falavam por si e eram chocantes: Numa cena, pessoas corriam como formigas, em busca de um pouco de comida. Seriam capazes de tudo por um prato de arroz. A imagem parecia ter sido criada por satélites, tudo muito bem feito, milhões de dólares envolvidos. Aquilo que por si só, já seria triste e de repente mudou pra pior: os soldados que deveriam estar ocupados em organizar a distribuição da comida, começaram a atirar sobre os esfomeados. Uma chacina. Crianças, velhos, mulheres sendo estilhaçados por tiros como se fossem aqueles antigos patinhos de madeira “abatidos a tiros de chumbinho” nos parques de diversão do interior.

- Que horror!

Até parou de ver o filme – tinha atrocidades demais...  Preferiu abrir a Torah e rezar. Se entregou a imaginar um mundo onde só haviam “escolhidos”, todos judeus, todos em paz. No seu sonho, a voz de Deus se dirigia aos judeus, pedindo-lhes que recebessem os gentios ou gois com o amor divino. Um Deus de amor e não de horror implacável.

Ela chorava, emocionada. Até que de repente alguém lhe disse que Netanyahu queria acabar com todos os palestinos. Que não era uma defesa, mas uma vingança e uma forma de se manter onde estava. E matar não era o seu problema. Sobreviver à queda, voltar ao poder e se manter nele era o desafio verdadeiro.

O que ela não teve coragem de ver no filme, lá estava esfregando-se nela, na sua realidade, invadindo sua vida real. A proteção americana começou a lhe parecer suja, vil. Era como proteger um pequeno psicopata de todas as suas crueldades. Sem punição.

Seria tão mais fácil fechar os olhos e continuar rezando, sem pensar nos fatos... Não podia. Os judeus tinham sobrevivido tantas vezes porque olhavam a realidade de frente. E frente a frente com a TV, vendo as imagens bestiais de seu povo, tantas vezes perseguido, ocupando o lugar do perseguidor atroz, ela chorou.

- Ninguém pode pegar Deus por uma mão, tendo uma bomba na outra. São coisas que se anulam.

Levantou os olhos para o céu e Israel lhe pareceu muito distante da terra prometida. Era como um escárnio ver milhares de mortos com tanta crueldade e imaginar que pudesse haver uma terra prometida sem generosidade.

- Shalom alechem ou shalom aleikhem (em hebraico: שָלֹום עליכם) – A Paz sobre vós, sobre nós...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Todos iguais, todos diferentes”

Luanda, 1986. Fila no aeroporto. Imensa. O relógio voava, mas a fila nem se mexia. O pessoal já estava perdendo a paciência – apesar de não adiantar nada.

- O que se passa?

- Sei lá...

- Mas porque aquele senhor não faz nada?

- E eu é que sei aqui a esta distância o que se passa lá longe?

Resolveu mexer-se e tentar perceber se podia ajudar porque o resto do povo nem queria saber. Estava tudo cansado, sem paciência e ninguém ia fazer nada para ajudar a resolver. Saiu do seu lugar na fila e caminhou até ao ponto do problema. Uma mesa, uma cadeira e um senhor angolano sentado. Na mesa estavam todos os passaportes de dois grupos de empresas que vinham a trabalho. Uns 50 passaportes. Uma novidade pois Angola ainda estava em situação de guerra, com falta de água potável,  com recolher obrigatório ao anoitecer, entre outros problemas. Para complicar, esses dois grupos eram só de mulheres, caucasianas. Via o senhor, sentado olhando os passaportes. Ele parecia estar fazendo tudo para resolver. Olhava um passaporte a seguir olhava uma das mulheres, perguntava o nome, olhava de novo o passaporte. Fechava o passaporte e abria outro e fazia a mesma pergunta à mesma pessoa. Essas mulheres respondiam, riam, colocavam as mãos na cabeça e pelos vistos estavam naquela dança durante todo esse tempo.

- Pessoal, estamos todas aqui há horas e vocês que são as primeiras, estão na risota, na brincadeira com o senhor? Por favor, não façam isso porque a gente já não aguenta mais estar aqui. Estamos exaustas, penso que vocês também devem estar. Por favor ajudem. Não brinquem mais e ajudem a avançar a fila e a sairmos daqui. Estou desesperada por um banho.

- Tu não estás a entender...

- Ah eu é que não estou a entender?

Se já riam antes, agora riam ainda mais.

- É, tu não estás a entender...

Saiu dali antes que rebentasse. Como era possível aquele pessoal estar na curtição – não sei de quê – enquanto estava tudo meio moribundo já, aguardando a saída do aeroporto.

- Soubeste o que se passa?

- Olha, eu nem queria acreditar que as que estão na frente se estão a rir. Acreditas? A gente aqui no desespero e elas achando tudo isto muito engraçado.

- Sério?

- Sério. Que raiva...

- Agora vou lá eu. Quem sabe tenho mais sorte...

- Vais ter uma sorte...

Dali a pouco tempo, chegou sorrindo, rindo, colocando as mãos na cabeça.

- Ué, vens com os mesmos gestos delas? Que loucura é esta que também te ris e isto não tem graça nenhuma?

- Tu não estás a entender...

- E vens a falar igual...

- Espera. Deixa eu te contar. Ali onde aquele senhor está sentado com os nossos passaportes todos em cima da mesa. Estás a ver?

- Sim?

- Ali é o controle de passaporte

- Como é? Aquela mesinha no meio deste espaço enorme, com um senhor com um monte de passaportes, é o controle de passaporte?

- Isso mesmo. O senhor pediu desculpa mas diz que é a primeira vez, depois da guerra, que chegam tantas pessoas diferentes.

- Ué, como assim diferentes?

- Ele falou já várias vezes que nunca tinha visto pessoas com esta cor clara de pele, caucasianas. Nem sabia que existiam.

- Sério?

- Sério. E aquilo que as faz rir, sorrir, colocar as mãos na cabeça, e ele faz o mesmo, sabes o que é?

- O que é?

- É que ele diz de 5 em 5 minutos que somos todas iguais.

- Não acredito...

- Vai lá...

Ela foi. Achava que estava a sonhar. Tão cansada e os problemas eram tão bizarros. Estava desesperada. Quando chegou perto do senhor, percebeu que a fila já nem era fila, era um amontoado de gente rindo, brincando, colocando as mãos na cabeça. Virou uma festa. O curioso é que realmente todos riam, incluindo o senhor. Realmente era verdade. Ele ria, pedia desculpa, olhava um passaporte, olhava outro, olhava aquelas mulheres claras, de cabelo loiro e dizia:

- Estou confuso. Desculpem. É que parecem todas iguais.

Ana Santos, professora, jornalista

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