2 Contos: “CIDADÃO SEM PARTIDO MANDA MAIS” e “Caramelos”
- portalbuglatino
- 1 de ago.
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Conto “CIDADÃO SEM PARTIDO MANDA MAIS”
Outro dia estava levando “minha Chikungunya para passear” ao sol (melhora as dores articulares), quando vi minha vizinha tentando podar uma trepadeira com aquela mão de “sem jeito mandou lembranças”. Pensei sem sentir: Como a maior parte das pessoas perdeu a capacidade de adaptação ao que precisa ser feito?
Na mesma hora comentamos, eu e Maria que bastava pegar um rodo pra levantar a planta e ir pegando os galhinhos com o podão e que se fosse em casa faríamos assim ou assado. Como eu fiz com o liquidificador emperrado e Maria com a varanda. Como fazemos com o terreno baldio de alguém importante que sumiu e deixou para rua o “mandu” de mantê-lo limpo ou mesmo agora a de nos mantermos em pleno uso da nossa capacidade de reclamar do prédio vizinho que faz da frente vitrine e do fundo lixeira - e que aglutinou os mosquitos aedes aegypt que me atacaram e adoeceram.
Cada pessoa com sua batalha por limpeza urbana – aquela – a do combate aos mosquitos - deveria ser coletiva, cidadã, mas habitualmente é para aqueles que têm “conhecidos” que podem interferir e impedir o ‘não curso ‘ que as coisas possuem para os cidadãos comuns.
Minha vizinha sem jeito para plantas, muitas, inúmeras vezes, veio defender seu candidato, comigo. Eu, muitas vezes falei que cidadania não tem partido, nem candidato – tem coisas que precisam ser cobradas para serem feitas. Só então ela viu e adotou a calçada mal conservada do prédio em seguida ao seu. Ligou para a Prefeitura – a treva de um número onde, quando o atendente ouve o termo “terreno privado”, lança aquele “ah, mas isso ele é que tem que fazer e não a Prefeitura” – e acaba o assunto.
Com as denúncias sobre a presença do mosquito aqui na rua, nos vimos e ela finalmente entendeu que para nós, cidadãos, o político representa trabalho ou inutilidade, seja qual for o seu partido. E que não temos que gostar deles – somos seus chefes e pronto – temos que cobrar trabalho o tempo todo.
Livre de sua fidelidade a partidos, ela passou a reclamar da Prefeitura, que realmente foge da responsabilidade de fiscalizar os terrenos privados da cidade inteira.
Finalmente entendeu o que é seu papel e espero que isso perdure até o dia da eleição.
Hoje levei minha Chikungunya para passear de novo e júbilo: dois bueiros foram desentupidos! Claro que deixaram dois para trás, claro que um foi tapado com asfalto de tão cheio de terra que estava, claro que falta de planejamento é imperdoável – mas lá estavam dois buracos limpos onde a água da chuva poderia escoar...
Olhei a rua, lembrei do preço do IPTU e torci o nariz: Dois bueiros para o que pagamos de imposto é pouco, muito pouco, pouquíssimo...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Caramelos”
Eu estudava na sala de jantar todas as tardes. Colocava meus livros, cadernos, lápis, borracha, caneta azul e caneta vermelha a postos, em cima da mesa. Sentava na cadeira, com os pés apoiados numa madeirinha que permitia que eu não ficasse com os pés a bamboar no ar. Quando estava tudo pronto iniciava meu estudo. Adorava aquele aparato, aquela organização, aqueles cheiros. O cheiro de lápis e de borracha eram os melhores, como pequenas e leves drogas que me hipnotizavam em direção ao estudo. Ficava ali a tarde inteira resolvendo os trabalhos de casa e estudando os textos que os professores pediam. Nada me tirava daquela hipnose.
Um domingo fomos com meus pais passear de carro, num passeio mais longo do que o habitual. Já era quase noite quando meu pai parou o carro e disse que já vinha. Ficamos no carro com minha mãe, aguardando. Dali a uns 20 minutos chegou meu pai com uma sacola. Voltamos para casa, depois de nova longa caminhada.
Quando chegamos, minha mãe começou a arrumar o que vinha na sacola. Uma das coisas que ela tirou foi um saco de caramelos que se compravam em Espanha. Fiquei a saber assim que fui a Espanha pela primeira vez. Reparei que minha mãe colocou a sacola dos caramelos tão maravilhosos e desejados numa terrina de louça que sempre estava em cima da mesa da sala de jantar. A partir desse dia, passou a existir algo que me perturbava o estudo tão hipnótico – os caramelos, ali, bem do lado do meu nariz e da minha boca cheia de saliva só de pensar neles. De vez em quando abria a tampa da terrina, de vez em quando pegava naquela sacola e encostava no nariz para tentar sentir o cheiro inebriante. Aquela perturbação no meu estudo era terrível. Muitas vezes retirava a terrina para longe, enquanto estudava, para não ter aquele ímpeto tão forte de comer um, dois, todos de uma vez.
Muitas vezes adormecia de noite enquanto imaginava minha boca cheia de caramelos, cheia de saliva misturada com o açúcar, imaginava baba a cair pelos cantos da boca, imaginava uma felicidade nunca antes sentida.
Quarta-feira era o dia de uma senhora trazer tremoços. Ela chegava com uma enorme bacia ou cesto – já não recordo bem – tocava no sino e quando abríamos a porta, perguntava quanto queríamos de tremoços. Enquanto eu ia perguntar à minha mãe quanto era para comprar, pedir o dinheiro para pagar, e voltar, já ela tinha a bacia ou cesta no chão, já tinha uma sacola aberta, pronta para encher com a quantidade pedida. Aqueles tremoços eram colocados numa enorme bacia com água, que mudávamos algumas vezes para retirar o excesso de sal. Quando o sal estava bem, estávamos autorizados a comer, sempre que desejávamos. Ganhei um hábito que amava – ir retirando a casca do tremoço e colocá-lo na boca sem mastigar. Ir fazendo isso, com cada um, até a boca ficar cheia de tremoços e nessa altura então começar a trincá-los e a mastigá-los. Chegava um momento em que ficava uma enorme pasta na boca e esse era o momento de maior felicidade.
Julgo que criei esse hábito para substituir o desejo nunca concretizado – de encher a boca com caramelos espanhóis e mastigá-los até babar e pingar de baba.
Aceitei isso como algo normal na minha vida. Existem coisas e situações muito desejadas, mas que não são possíveis daquela forma. Ou porque fazem mal à saúde, ou porque não estão destinadas para pessoas como eu. Ou uma mistura das duas razões. De qualquer forma, aprendi a aceitar o que era ou não era para mim, mas também o que eu conseguia substituir. Aquilo que eu fazia com os tremoços, fazia todas as semanas. Se tivesse tido a oportunidade de fazer isso com os caramelos, todas as semanas, não teria os dentes que tenho hoje, talvez tivesse diabetes, talvez tivesse a ideia de que tudo era possível, quando nem tudo é possível.
Até hoje mantenho o desejo dos caramelos. Até hoje os substituo por tremoços. De vez em quando tento com amendoins, ou com pipocas, ou chicletes, mas não é a mesma coisa.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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