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2 Contos: “ANO NOVO DE NOVO” e “Olá 2024”


Anna Chromy

Conto “ANO NOVO DE NOVO”

- Olá, bom dia! – ela descia a ladeira do Calabar todos os dias.

- Calorão, hein? E ainda nem bem começou o verão... - Tenha santa paciência... tinha que mudar mais uma vez o horário de descer a ladeira porque o sol parecia estar tocaiando as pessoas, cada vez aparecendo mais quente, mais cedo, mais inclemente.

Suava em bicas, o cabelo pingava, a roupa colava no corpo.

- Isso é a tal emergência climática em aulas práticas!

Mas tinha aluno que cabulava as aulas...

- Políticos “cabulosos”... Ta na cara que ao invés de vermos grama e árvores, com vocês temos que ver cimento aplicado em calçadas mal planejadas.

Pessoas em situação difícil, dormindo nos pontos de ônibus, bebendo cachaça sem nenhuma orientação ou tratamento – isso tinha pela cidade toda. “Dancinha” verão, cerveja verão, cimento, carnaval patrocinado pela cerveja verão, festival do verão, esquenta verão – tudo isso escaldante.

Todos procurando as sombras das árvores – muitas já tinham sido cortadas, meu Deus! Numa cidade onde as pessoas fazem fila seguindo a sombra do poste, o que esperar de trocar sombra por cimento?

Grama virou quadra, calçada, pista de bicicleta, pipi dog, parquinho. Mas tudo isso sem sombra.

Bem, ela desceu a ladeira, mas precisava ainda subi-la de volta. E no ano novo, como no velho, desejou que os políticos parassem com aquela asneira de parecerem heróis para serem ouvintes de quem usa a cidade de verdade.

- Oxe e político anda a pé quando? Só pra pedir voto mesmo...

Chegou em casa pingando e viu um vereador na rede social de braços cruzados, imitando um rebelde qualquer sem nome e dizendo: aqui não...

- Aqui em casa não tem ar condicionado não, visse? Só cruza bracinho quem não passa calor! – disse olhando seus braços “peguentos” de suor, verão, emergência climática, clima extremo, calor, calorão! Tudo no sol – por causa deles todos!

- Bom ano, feliz entrada, filho!

- Será que vai chover?

- Não me diz que não!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Olá 2024”

Ana não vivia no seu país de nascimento. Era uma estrangeira. Uma condição que em determinadas situações – Natal ou Ano Novo, por exemplo – a colocava mais reflexiva, mais pensativa, mais nostálgica. Já eram momentos em que gostava de pensar sobre o que era viver, sobre que causas deveria dedicar-se, et cetera. Mas agora, nesta nova condição, pensava mais ainda. Vivia e sentia a condição de estar a mais, de ser alguém cômico, de ser alguém incompreensível, de ser alguém que vem para tirar emprego aos que são do próprio país, de ser alguém fácil de enganar, e tem mais, mas é melhor parar por aqui. Sempre considera que tudo isso é apenas um equivoco, uma poluição na percepção entre pessoas de culturas diferentes. Mas quando acontece, dói. Dói mais ainda porque ela não tratava mal os estrangeiros, quando ela estava no seu país. Sempre foi generosa, cuidadora, disponível. Chegou a oferecer a sua casa, o seu quarto, a sua comida, o seu tempo, e a pagar todas as despesas de muitos estrangeiros que conheceu. Mas, agora nesta condição, percebe que existem muitas pessoas como ela – e isso é maravilhoso – e demasiadas pessoas que não são assim – e isso é triste, preocupante, assustador, desolador.

No Natal ficou em casa, com a pessoa com quem casou. Não gosta de dizer “minha mulher” ou “meu homem”, porque as pessoas não são nossa propriedade quando casamos com elas. Nunca são nossa propriedade, mesmo sendo filhos.

Agora, receberam vários convites para festejar o Ano Novo e está sem saber o que fazer, sentada, olhando o maracujá que acabou de cair do pé – mais um. Um dos convites será para ficar sentada, comendo e bebendo a manhã, a tarde, a noite inteira. Uma casa de praia, num lugar muito turístico, luxuoso, com demasiada etiqueta. Onde lhe fazem perguntas, demasiadas perguntas que sente como inquérito policial, não como conversa. Onde é observada como se fosse um bicho do zoológico. Não fica confortável. Depois é um marasmo que a cansa. Não sabe, nem gosta, nem quer ficar um dia inteiro sentada comendo e bebendo. Não está na sua natureza. Vai recusar. Outro convite é para ficar uma tarde e noite numa sala pequena, cheia de pessoas que não gostam dela, não querem conversar, se recusam a tirar fotos. Todas as pessoas sorriem muito, se mostram muito gentis, mas isso não chega para aguentar essa sensação de não pertencimento, de invisibilidade. Sente aquilo que o baianos lhe ensinaram desde que chegou – a energia não é boa e deve evitar lugares assim. Vai recusar. O outro convite é para passar o dia junto de uma piscina, comendo feijoada e bebendo cerveja e caipirinha. Na sua vida, as piscinas são lugares para onde vai nadar, treinar, trabalhar a sua saúde. Entrar numa piscina de condomínio, junto com muita gente que bebeu, a deixa com a sensação que vai tomar banho, mas não de água... E também não conhece quase ninguém, as pessoas que conhece também fazem perguntas bizarras. Não é seu mundo, seu jeito, sua forma de estar feliz e entrar no novo ano. Vai recusar.

Não sabia qual convite escolher, mas esta reflexão lhe mostrou que a escolha é não escolher nenhum, é ficar em casa, curtir o lugar onde vivem, comer a comida que fazem, beber o champanhe mais barato que encontraram para beber na virada do ano. Tantas vezes foi em busca do ano novo perfeito, na correria e ânsia de escolher o lugar melhor, com tudo o que os outros dizem que se deve ter. Afinal já tem tudo o que quer. E tempo para saborear. Já começou bem o ano. Vem cá 2024. Estamos preparadas para te receber.

Ana Santos, professora, jornalista

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