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2 Contos: “AMOR É UMA LUZ” e "Ai o Amor"


Terra dos Bravos, de Benjamin Victor (@therealbenjaminvictor)

Conto “AMOR É UMA LUZ”

- Não me venha com essa cara de cachorro que quebrou o pote! Pega a sua mala e fora daqui!

Gente, ser traída era uma dor...

Naquela altura ela já nem ligava mais à hipótese de reatar, voltar, reconstruir, ou seja lá o que fosse. Sua mãe ligou:

-  Filha, homem é assim mesmo e...

- Não me venha com isso, pode parar antes de começar, minha mãe! Homem trai e todo mundo fala que é assim mesmo; mulher termina o namoro e leva tiro, porrada e desaforo! Cansei! E olhe: cansei mesmo de tudo, até de homem!

Se dedicou ao trabalho, ficou rica. Desprezava o gênero masculino.

- Bem feito! Foi se meter com homem, deu no que deu! – não cansava de repetir.

Um belo dia a mágoa acabou, a raiva também. Sentia seu coração curado da dor, do orgulho ferido. Seus gritos interiores já tinham serenado há muito.

Um conhecido lhe pediu para dar carona a uma parente e quando se viram algo novo aconteceu, ali na esfera das coisas inexplicáveis. Ela não pensou em gênero nenhum. Na verdade, apenas se encantou e conversou, conversou, conversou. Não queriam mais se despedir. O dia se transformou em tarde, que se transformou em noite e o assunto nunca acabava.

Os problemas da vida continuaram sendo resolvidos aos poucos, um de cada vez. Mas agora havia um brilho diferente em seu espírito, uma coisa nova. Aquilo era o tal “bem querer”, talvez...

Trabalhavam juntas, viviam juntas, cozinhavam, suavam, riam e choravam – juntas. Sempre juntas. Foram envelhecendo, aproveitando os dias, trabalhando, escrevendo – vivendo.

“Não me venha com cara de cachorro que quebrou o pote” virou um modo de apontar homem galinha, mas era só isso mesmo.

Verões, invernos, primaveras e outonos, de manhã, de tarde e de noite.

- Algo mudou muito a vida, a iluminou. Não que as outras coisas tenham sumido, mas apenas... talvez tenham ficado mais distantes, em algum lugar da memória, onde não existia ainda o amor.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Ai o amor”

Estudaram juntos. Até ao momento em que ele, um dia, passou por ela e lhe disse que ia deixar de estudar. Ia trabalhar, ia dedicar-se também a ser jogador de futebol. Ela não entendeu nada. Não sabia que existia mundo para além da escola para pessoas da idade deles. Ele estava feliz, como se estivesse a fazer uma coisa muito esperta e boa. E ela achando que ele estava fazendo uma enorme borrada na sua vida. Gostavam muito um do outro, estavam tão habituados a estar juntos na escola que não sabiam como ia custar, aos dois, aquela separação. Mais do que amigos, eram quase almas gêmeas. Pensavam muito semelhante, sentiam o mundo de forma muito idêntica, gostavam das mesmas coisas.

Ele lá foi trabalhar com o pai e jogar futebol com treinos nos finais do dia e jogos nos finais de semana.

Ela lá continuou a escola. Terminou. Candidatou-se à faculdade. Conseguiu. No verão encontravam-se pontualmente, quando iam à praia ou à cachoeira. Falavam poucas palavras, ficavam pouco tempo juntos. Não sabemos se era vergonha, se era medo de já não combinarem, nem se identificarem. Sabiam que viviam mundos totalmente diferentes e não sabiam se as pessoas mudavam ou ficavam iguais.

Ela mudou de cidade para fazer a faculdade, ele ficou no mesmo lugar. Ela com medo de se perder no meio daquela cidade tão grande, complexa e fria, não se arriscava. Aprendia apenas o que era confortável. Morria de saudade de casa e da sua terra. Ele, sempre com um olhar no futuro, além do trabalho e do futebol, ainda ajudava primos nas fábricas de tecidos, durante as suas férias do trabalho. Fazia férias nos primos de Itália. Tentava aprender tudo o que lhe era possível do mundo fora da sua cidade.

Ele gostava cada vez mais dela. Ela sentia-se desconfortável quando o via. Talvez fosse o seu coração a bater mais rápido. Mas quando ele se ia embora, sentia saudades. Conhecia tantos homens colegas na faculdade, mas nenhum era como ele. Ele conhecia muitas meninas que iam vê-lo ao futebol, mas nenhuma era como ela.

A vida foi avançando, eles nunca tiveram coragem de avançar, convidar o outro para um café, para ir ao cinema, para nada. Os olhares diziam que eles queriam, mas nenhum conseguia dar o passo.

Casaram, ela na cidade grande, ele na cidade pequena. Tiveram filhos, construíram suas vidas.

Um dia morreu um colega e amigo comum. Encontraram-se no funeral. Já estavam ambos perto dos 70 anos. Depois daquelas perguntas e conversa de circunstância, ele disse:

- O Nando passou estes anos todas a chatear-me sabias?

- Não sabia...mas vocês eram tão amigos. De que é que ele te chateava?

- Por eu nunca te ter pedido para namorares comigo.

- Sério? Mas tu tinhas essa vontade? Se tinhas porque nunca me perguntaste? Eu aceitava feliz. Sempre achei que não gostavas de mim dessa maneira. Que não me achavas boa o suficiente para ser a tua mulher. Aceitei e segui a minha vida. Mas tive pena.

- Na verdade eu ouvi-te dizer um dia que nunca sairias dessa cidade onde fizeste a faculdade e eu não queria sair daqui da nossa cidade. Foi por isso que nunca avancei. E a vida me engoliu. E aqui estamos.

- E aqui estamos.

Não falaram mais nada. Ela teve medo que ele finalmente avançasse e agora ela não tinha coragem de deixar a vida que construiu. Ele continuava sem vontade de sair da sua cidade.

Ana Santos, professora, jornalista

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