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2 Contos “A FRÁGIL SINCERIDADE” e “Basta uma luzinha”


Fotografia de Lisa Kristine - @lisakristinephotography

Conto “A FRÁGIL SINCERIDADE”

Andava com a mão às costas, subindo a rua. Pensava que as pessoas falavam muito sobre o que os outros faziam, mas era engraçado como sempre esperavam que todos aguentassem, fossem fortes e impolutos diante de tudo o que lhes acontecia.

- Deveria ser proibido tentar compreender as pessoas! Sim, porque por mais que eu tente, não alcanço o significado de algumas reações. Se você fala: “não me faça bullying” com uma voz bem calma e mansa, o que isso quer dizer?

Será que você quer briga? Quer ofender? Machucar? Ou simplesmente aquilo que pode ter sido dito sem intenção de machucar, já foi dito tantas vezes antes que você precisa escolher entre ser casca grossa e assimilar mais uma vez aquela mesma coisa, que causa aquela mesma dor, fingindo que tudo bem ou – ou você pode mostrar-se frágil em sua sinceridade e falar, pedir.

Qual reação você acha que vai receber? Audição plena, atenção, compreensão, comunicação, troca, partilha. Mas e se for silêncio e mágoa, como se você pedir pra não ouvir aquilo, fosse uma ofensa a quem falou aquilo? Tipo, você cai, pede ajuda pra levantar e recebe frieza e indiferença como estímulo?

Ah, esse silêncio já é tão seu conhecido...

- O mundo anda de um jeito que você faz um pedido, um apelo e a pessoa reage como se tivesse sido acusada de alguma coisa. A ONU fez uma crítica pertinente a Israel e a reação foi tão desproporcionalmente agressiva que parece que é obrigatório Israel ter sempre razão. Por que seria obrigatório ter sempre razão, gente? As pessoas entendem o conceito de sempre e nunca? Percebem que são coisas impossíveis? Figuras de linguagem?

Chegou à parte de cima da rua. Os cachorros tinham “carimbado” tudo com seu pinguinho de xixi e já estava combinado que ninguém ia se ofender com isso. De alguma forma, os cachorros pareciam aceitar melhor suas idiossincrasias.

- No caso humano, havia tanta coisa complexa em se admitir que sofremos como todo mundo... Portanto, as respostas poderiam vir de um modo tão estranho, que ficava mais fácil optar pelo silêncio calmo, ao invés do vazio absoluto de palavras, cheio de críticas e substâncias.

Infelizmente, a vida era composta de pouco elogio e muita crítica. Todo o resto a gente aprende a retocar com autoestima, bom senso e esperança. A sucessão das gerações não lhe trazia muitas projeções mentais de melhoria das relações humanas, mas lá estava a vida, empurrando todos pra frente, como sempre.

- Mas olhando apenas para o outro, era tudo sempre tão visível...

Será possível vencer cada desafio com um sorriso? Sorrir antes de cada desafio se apresentar? Ter bom humor, pelo menos? Suspirou fundo.

Pra quem já tinha desde sempre esbarrado em tantos lugares e derrubado latas, copos, deixado cair sabonetes, canetas e esquecido abertas tantas portas e janelas, ouvindo tantas vezes, tantas coisas como: “tão inteligente, mas não sabe fazer tal coisa”, não presta atenção, não fica quieta nunca – uma vez mais, uma repetição pequena, nunca é apenas uma, não cai como uma gota, é um maremoto de senões, ondas que não encaminham a lugar nenhum, só afogam...

Suspirou.

Suspirou.

- É da vida...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Basta uma luzinha”

Ela mudou o lugar onde vivia, porque era melhor para as pessoas que amava. Depois mudou de profissão, porque não entendiam e se assustavam com o que ela sabia. Depois mudou de linguagem, porque se não o fizesse seria considerada incompetente. Depois mudou de status porque não mais conseguiu fazer o que sabia e que aprendeu toda a vida a fazer e a vida não estava nada fácil. Depois mudou de família quando percebeu que não se tem algo que é apenas ilusão na nossa cabeça. Depois mudou a forma de vida porque era necessário para sobreviver. Depois vivia, sem pensar muito. Não queria enlouquecer.

Quando caminhava na rua, num espaço de 5 minutos, ouvia de uma pessoa “você não é daqui, pois não? Isto era muito bonito antes das pessoas como você terem vindo para cá...” e dali a poucos metros outra pessoa dizia “eu sou muito abençoada, porque a vida coloca sempre no meu caminho pessoas abençoadas como você.”

A vida é um caminho – pensava. E os buracos estão onde menos se espera. A maior parte das pessoas, desse lugar onde vive, estão habituadas a ter empregados, a mandar fazer. Ela vê nas suas caras a baba do poder dos que só sabem mandar – e sabem fazê-lo muito bem. Nem percebem que fazem o que acusam os outros – uma espécie de escravatura do século 21. Têm dinheiro, por isso podem mandar. Dão ordens e sentem-se orgulhosos e orgulhosas em mandar. Como se isso fosse uma grande coisa. Pagam, por isso são superiores. E ficam ofendidos quando querem pagar um pãozinho de queijo e a pessoa recusa. Ai meu Deus que ofensa! Eu estou tentando me aproximar, tentando ser gentil, tentando agradecer os serviços – perdoando até os serviços que não foram feitos – e a pessoa recusa. Recusa o pãozinho e quer sair “da casca”. É o que dá dar espaço a gentinha. Gentinha que devia ter ficado na sua terra. Terra onde vou muitas vezes e até gosto. Come-se bem e até tem uns lugares lindos. Estava a pensar viver na Suiça quando me aposentar, mas ali até é melhor. Mais barato e as pessoas mais ingênuas.

Ana não pode parar de caminhar. Não pode cair em nenhum buraco. Não pode tratar mal ninguém. É um equilíbrio instável, difícil, desafiante. Mas ela vê, bem lá ao fundo, uma luzinha. A luzinha onde ela vai chegar.

Ana Santos, professora, jornalista

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