“Esta Sou Eu” / “This Is I” (Netflix, 2026)

Ah, os filmes chineses são tão peculiares! De uma maneira muito, mas muito peculiar, “ESTA SOU EU” aborda as questões de gênero com enorme dignidade, embora com leveza e até algum bom humor.
Há uma catástrofe social que finge não ver que as pessoas não são feitas socialmente, tanto quanto também não o são corporalmente. Embora religiões e costumes busquem ditar normas e papéis sociais, a identidade de gênero transcende o meio externo, refletindo como o indivíduo se percebe e se reconhece internamente ao longo da vida. E o filme mostra isso com absoluta perfeição de detalhes. Era uma vez um menino que desde muito pequeno sonhava em ser uma star. Cantava, fazia coreografias. Cresceu e continuou a não ser ver como um ser masculino. Era uma vez um cirurgião que queria algo além de salvar seus pacientes. Às suas maneiras, ambos tinham a visão exata do que eram e do que deveriam fazer – e fizeram.
O estresse religioso e social a qual somos submetidos permanentemente é ridículo. Porque afinal nos vemos – ou não - como habitantes de um corpo que não é nosso e reagimos no sentido de buscarmos meios de nos sentirmos como nos vemos internamente. E assim, de uma maneira leve, com mil coreografias dos anos 80, o filme nos leva a questionar profundamente a ignorância social, o preconceito, o julgamento raso, a busca de equilíbrio e até mesmo o sucesso.
Vale demais à pena assistir e tenho certeza de que, independentemente da religião, é um filme que vai te prender desde o primeiro segundo. Veja junto com sua família, falem sobre o tema, debatam a questão de gênero e, sobretudo, divirtam-se. ESTA SOU EU é um filme delicioso, inteligente e sensível que vai surpreender pela forma como aborda a questão.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Gente, tem pessoas e vidas que são impressionantes. Kenji é uma delas. Uma coragem espantosa, uma clareza e uma insistência no que desejava na vida. Para alguns de nós é tão fácil não é? Sou como quero e gosto, meu corpo é da forma como me agrada, desejo as pessoas aceites socialmente, etc. Mas e as pessoas que nascem em corpos que não se sincronizam com quem são? Como fazem? Por que têm de sofrer e de aguentar, só porque a sociedade acha que deve ser assim ou assado?
Kenji não queria viver assim e, principalmente, não conseguia viver assim.
Ao mesmo tempo, um cirurgião excelente, nobre de caráter, tenta encontrar formas de mudar o corpo das pessoas que “estão no corpo errado”. A relação de paciente e médico, de amizade, de confiança e de respeito, entre os dois, é espetacular. Duas pessoas especiais, que fizeram coisas muito especiais. Propósitos de vida cumpridos.
Nesta história vemos também como os lugares, as oportunidades, as pessoas com quem cruzamos, a nossa verdadeira vontade de ser e fazer, movem montanhas, montanhas de dimensões estratosféricas.
Vemos como as famílias têm crenças, limites, ideias que trancam a felicidade de cada elemento. A não ser que alguém tenha a coragem de falar, de travar esse rumo, de se impor. Se todos ficarem no seu canto se lamentando e na frente de todos, sorrindo, as coisas nunca mudarão. Alguém precisa ser capaz de quebrar o “enguiço”, as normas, os hábitos centenários e prejudiciais a todos.
Não quero dar spoiler demasiado. Veja o filme e veja a vida, a coragem de viver, de buscar o que nos faz felizes, mesmo que para isso tenhamos de sofrer ou perder algo. Realmente não se pode ter tudo, mas ser feliz é sempre perder algo para ganhar muito.
Excelente filme, excelentes atores. Não se consegue nem piscar.
Imperdível.
Ana Santos, professora, jornalista
Sinopse: Kenji encontra aceitação como Ai Haruna, artista de cabaré após anos de bullying e isolamento. Um encontro casual com o médico Koji Wada leva a uma parceria pioneira. Juntos, enfrentam preconceitos e formam um vínculo inquebrantável.
Direção: Yusaku Matsumoto
Elenco: Haruki Mochizuki, Tae Kimura, Seiji Chihara
Trailer e Informações:
https://www.imdb.com/pt/title/tt39196792/
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